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Luís Paixão Martins: “ Os nossos políticos não estão habituados a trabalhar em minorias”

Entrevista ao especialista em marketing político

Texto de Sofia Craveiro

Fotografia cedida por Luís Paixão Martins

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É especialista em comunicação política, tendo o seu percurso sido marcado pelo jornalismo radiofónico e o aconselhamento estratégico. Fundador da empresa LPM Comunicação e promotor do NewsMuseum, em Sintra, Luís Paixão Martins tornou-se uma referência no estudo das dinâmicas mediáticas e políticas. Vendeu a empresa e reformou-se, apenas para regressar a pedido de António Costa, durante as eleições legislativas de 2022, nas quais o então secretário-geral do PS conseguiu maioria absoluta. 

Autor dos livros Como Perder uma Eleição e Como Mentem as Sondagens, ambos editados pela Zigurate, o consultor divide-se agora entre o comentário televisivo e a vida rural, em Monfortinho. 

Em entrevista ao Gerador, refere que as sondagens foram um elemento mobilizador importante nas últimas eleições presidenciais e mostra-se céptico em relação à possibilidade de o atual governo cumprir a legislatura até ao fim. “Temos um governo que governa em minoria e que trata o Parlamento como se tivesse maioria”, afirma.

A frase é sua e foi proferida no âmbito de uma entrevista que deu em 2023: “As sondagens ajudam mais a influenciar do que a conhecer”. Foi o que aconteceu durante a campanha para as últimas eleições presidenciais? 

Sim. Eu acho que é um casos mais evidentes de que a comunicação que é feita a partir dos dados das sondagens influenciou os eleitores.

Influenciou em que sentido?

Levou-os a escolher candidatos em função disso. As sondagens têm dois méritos, dois atributos. Um é permitir às equipas conhecerem o que se passa. E o outro é de mobilizar os eleitores. As sondagens têm um input e um output. O input é que nós ficamos a saber o que é que acontecia antes da sondagem ser comunicada. E o output é as pessoas decidirem sentidos de voto ou, se quisermos, sentidos de intenções de voto, a partir do conhecimento. São duas coisas diferentes. E nestas eleições parece-me evidente que o conhecimento dos dados das sondagens influenciou muito os eleitores.

No sentido em que foi um reforço positivo? Porque o candidato que era previsto ter maior votação foi o que efetivamente ganhou.

Não é verdade. É assim, há um dado adquirido, que é: os eleitores ressentidos votavam no André Ventura e, portanto, a única pessoa que tinha garantida a passagem à segunda volta era o André Ventura, porque tinha estabilizado um núcleo de eleitores que valia vinte por cento. Vinte por cento sem distribuição de indecisos. 

Portanto, ele tinha ali um exército que [à partida se iria mobilizar]. Os outros não. Os outros candidatos dividiam entre si, sobretudo, os eleitores que votam por razões ideológicas. 

As pessoas gostam muito de dividir entre direita e esquerda, mas quando a gente fala em razões ideológicas, pode não ser direita ou esquerda. São outras razões ideológicas. E eles [outros candidatos] dividiam. E o que é que acontece? Como foi sendo dado conhecimento que havia uma partilha, uma divisão de votos, entre os candidatos de famílias da direita, na esquerda isso não aconteceu, o que significa que o candidato da esquerda foi engrossando [o número de votantes potenciais], mas aquilo de que estamos a falar, só se conseguiu no último mês [de campanha]. Não se conheceu dois meses antes. 

Sim, a verdade é que, no início, nenhuma previsão apontava para a vitória de António José Seguro.

Ah, pois. Esqueçamos André Ventura. Primeiro, [o favorito] era o Almirante Gouveia Melo, depois foi Luís Marques Mendes e depois - só depois -, é que foi António José Seguro. Houve uma evolução dos eleitores, em função de vários aspetos, mas, no fundo, eu acho que parte importante dos eleitores queriam votar contra André Ventura e foram votar no candidato que lhes pareceu mais útil.

A dada altura, face ao resultado das sondagens, a perceção que foi criada foi que o candidato que tinha mais hipóteses de derrotar André Ventura era António José Seguro. E aí há uma evolução, não é? Na mesma hora, há outra evolução que não está aqui presente nestes nomes, que é a do Cotrim [de Figueiredo]. Parte do eleitorado de Luís Marques Mendes, a dada altura, passou para Cotrim de Figueiredo - quando se descobriu que Luís Marques Mendes tinha avenças -, ou por razões ideológicas ou por razões de voto útil, que é [pensar]: “quem, da minha família [política] vai derrotar Ventura?” E quando se percebeu que não podia não ser Marques Mendes, muitas pessoas sentiram-se desobrigadas de votar nele e foram votar no Cotrim de Figueiredo. 

Nas eleições presidenciais, há um elemento muito importante a considerar. Enquanto nas eleições legislativas as pessoas marcam numa coisa chamada marca partidária, a qual tem os seus fãs, ou seja, tem pessoas que votam sempre na mesma marca, independentemente do candidato ser bom ou mau - eu até costumo dizer que, se for uma cadeira, também vota na cadeira, sobretudo os eleitores que são mais idosos, que ao mesmo tempo também são aqueles que têm menos abstenção - nas presidenciais isso não acontece. Portanto, os eleitores oscilam mais ao sabor da campanha. Enquanto que nas legislativas, no início da campanha, o PS tem um milhão de eleitores e o PSD tem oitocentos mil nas presidenciais isso não acontece. Os fatores da campanha, de comunicação da campanha, os episódios e o conhecimento das sondagens alteram as intenções de voto. Digamos que os eleitores vão fazendo um caminho, vão decidindo, vão voltando atrás... São eleições mais livres, desse ponto de vista, da escolha do candidato.

Nesse sentido, aquilo que me está a dizer - e corrija-me se estou a interpretar de forma errada -, é que o grande mobilizador nestas eleições foi André Ventura, mas contra si próprio. Mobilizou mais o voto contra si do que propriamente os outros candidatos com as suas características e propostas.

Eu não consigo dizer isso dessa maneira tão definitiva, que foi “o maior”, mas eu disse várias vezes que André Ventura estava a fazer duas campanhas: a dele e a do António José Seguro. Ele é que definiu António José Seguro. André Ventura tratava António José Seguro como se fosse José Sócrates. E como as pessoas - dois terços do eleitorado, pelo menos -, não são completamente estúpidas, acharam que não havia lógica nesta maneira de tratar, porque Seguro é o contrário de José Sócrates.

Digamos até que, do ponto de vista da personalidade, André Ventura é mais parecido com José Sócrates do que com António José Seguro, não é? Nas presidenciais, a maior parte dos eleitores vota em função do carácter dos candidatos e não das políticas, que é outra coisa muito importante. Não é se é de esquerda ou de direita, é o carácter.

Há uma frase genial do professor Aníbal Cavaco Silva. Cavaco Silva tem uma particularidade que ele próprio nem sempre reconhece: trata os assuntos com muita frieza, da maneira mais simples possível. E Cavaco Silva disse: "a decisão simples da minha vida é votar em António José Seguro. Porquê? Porque ele é honesto e educado". 

Ora, quando nós temos dois candidatos e uma pessoa diz: "É facílimo, nem preciso de pensar em mais nada. Não há nada ideológico para discutir. Um é honesto e educado". Ele, ao mesmo tempo - e não estou sequer a dizer que ele pensou nisso -, está a dizer que o outro é vigarista e ordinário, no fundo. 

Essa é uma das razões porque Cavaco Silva é uma pessoa mal-amada da nossa política para muitas pessoas.  Eu acho que ele às vezes não alcança a frieza das palavras, realmente, mas isto é uma declaração extraordinária, do meu ponto de vista. É a coisa mais precisa, mais bem dita, de toda campanha presidencial. Ele definiu claramente que não valia a pena ir à procura de mais nada. Não havia nada de muito qualificativo, porque havia uma coisa tão primária que definia a diferença entre um candidato e outro. Isto para dizer que há muitos eleitores que funcionam assim. Era evidente, era clara a diferença entre um e outro. Portanto [André Ventura foi mobilizador] nesse aspeto. Ele acabou por se definir e por definir António José Seguro. Como ele era, para André Ventura, o grande adversário, isso significava que quem queria derrotar André Ventura, votava em António José Seguro.

Houve muitas tentativas de provocação por parte de André Ventura, às quais António José Seguro acabava por não ceder. Nem sequer comentava quaisquer acusações. Isso foi uma estratégia correta, na sua opinião?

Sim. Não precisava. Sabe que aquilo que para umas pessoas são coisas negativas, para outras são atributos positivos. O mesmo tema pode ser sempre visto de duas maneiras diferentes. Uma pessoa pode ser habilidosa para uns e chico-esperto para outros. A mesma pessoa, com as mesmas coisas. A verdade é que há aqui várias questões somadas e também não vale a pena focarmo-nos só em uma, porque há vários temas. Mas há um dos temas que é relevante e ajuda a explicar o resultado de António José Seguro: ser visto por muitos eleitores como o grande obstáculo em relação a André Ventura. Não por aquilo que António José Seguro dizia, mas por aquilo que André Ventura dizia dele. Ora, as pessoas que encaram André Ventura com muita rejeição disseram: "Então, se ele é o grande adversário, vamos lutar contra ele da melhor maneira". 

Eu acho que há uma parte dos eleitores que pensaram assim, mas há outras camadas. Deixa-me só explicar uma coisa que é interessante, e que às vezes custa a perceber. 

Na história do Partido Socialista  - ou, neste caso, de António José Seguro, de um candidato socialista -, a definição do Chega como alvo é muito proveitosa em termos eleitorais. No caso de António José Seguro, teve o maior número de votantes que alguma vez houve numas eleições em Portugal, coisa que ninguém esperaria. Como eu disse, a mobilização dos eleitores é por camadas. 

Nos últimos dias de campanha de António Costa [durante as eleições legislativas de 2022], ele caracterizou o Chega como seu alvo principal e isso talvez tenha sido o fator final para ele ter a maioria absoluta. Portanto, nós não nos podemos esquecer que, havendo uma percentagem relevante de portugueses que votam no Chega, há uma percentagem muito mais relevante de portugueses que detesta o Chega e André Ventura. Nestes dois casos recentes, para mim é evidente que o PS, ou um candidato socialista, ou de esquerda, a fazer oposição a André Ventura, é muito produtivo do ponto de vista eleitoral. Dá votos. Pronto.

Isso quer dizer que pode ser exatamente esse o fator que acaba por prejudicar os outros candidatos da direita, como, por exemplo, Marques Mendes ou Cotrim de Figueiredo? Como não houve uma demarcação suficiente de André Ventura, isso prejudicou-os?

Isso foi mais relevante no caso do Rui Rio em 2022 do que foi agora, porque, no fundo, o que destruiu a campanha de Gouveia e Melo, foi, do meu ponto de vista, ele não ter transformado a notoriedade em capital eleitoral.

Ou seja, ele tinha muita notoriedade positiva, favorável, mas não conseguiu nunca fazer o percurso que era essencial logo na primeira fase, de transformar aquilo em capital eleitoral. Porque as pessoas, como votam por amor à camisola, não sabiam qual era a camisola em que estavam a votar.

Ele não tinha posicionamento ideológico.

…Mesmo que fosse largo, não é? Quer dizer, as pessoas não precisam de ter um posicionamento ideológico fechado, podem ter um posicionamento ideológico largo. Ele nunca o definiu e, portanto, do meu ponto de vista, foi a razão pela qual ele rapidamente perdeu percentagem de intenções de voto.

Depois, há um outro caso, que é o caso de Luís Marques Mendes. Portanto, subtraindo André Ventura, o primeiro favorito foi Gouveia e Melo, o segundo foi Luís Marques Mendes. Eu acho que Luís Marques Mendes perdeu essa qualidade de primeiro favorito, aliás, no debate com o Gouveia e Melo porque, para prejuízo dos dois, o debate não foi um debate político, foi um debate de lama. E o debate de lama - que foi introduzido por Gouveia e Melo -, serviu para arrasar, acabar a campanha do Luís Marques Mendes, mas ao mesmo tempo, também acabou a campanha de Gouveia Melo. Porque as pessoas, as pessoas não estavam à espera que o Gouveia Melo fizesse aquele tipo de confrontação. É preciso ver que as pessoas quando pensam no Presidente da República, pensam num determinado perfil, e, portanto, eu acho que aquele debate foi…

Há uma definição de estupidez: estúpido é aquele que prejudica os outros e a si próprio. Digamos que o debate foi um bocado assim, ou seja, Gouveia e Melo prejudicou Luís Marques Mendes definitivamente, e ele próprio também, definitivamente. Eu acho que foi aí que acabaram. E por terem acabado aí, é que Cotrim começou a subir.

Foi um ponto de viragem na campanha, na sua visão?

Sim, é esse momento. É o fim da possibilidade de passar à segunda volta, das candidaturas de Gouveia e Melo e de Marques Mendes, os dois ao mesmo tempo, e aquela altura em que as pessoas podiam votar neles dizem: "Já que não é para ganhar, deixem-me votar no Cotrim". E aquelas que achavam que tinham que ganhar, votaram em Seguro.

Num sentido mais abrangente, não só sobre estas eleições, mas sobre a política no geral. Concorda com esta ideia de que se quebrou o ciclo de alternância de poder entre PS e PSD com a entrada em cena do Chega? É significativa a esse ponto, de já não pensarmos que um governo seja necessariamente ou PS ou PSD?

Eu acho que estas eleições são em sentido contrário e já as autárquicas tinham sido. Se essa pergunta me fosse feita a seguir às legislativas de 2024, eu podia dizer: "Olha, é engraçado, em Portugal, pela primeira vez, podemos vir a ter uma coisa diferente da alternância entre os dois partidos do centrão". Depois das autárquicas, que foram uma vitória do PSD, mas uma derrota do PS muito expressiva, muito interessante - não como derrota, mas como resultado - e a do Chega é como se não tivesse existido como candidatura quase, foi retrocesso. É essa a ideia [que tenho], e nestas presidenciais ainda mais. No fundo, foi o candidato do centrão que ganhou ao candidato que é contra o sistema. 

Pronto. Eu tenho esta ideia, comprovada por aquilo que tem acontecido até hoje, não é comprovada com aquilo que pode acontecer no futuro. 

Eu moro aqui na fronteira com a Espanha, e em Espanha (e não só), as campanhas eleitorais são centrífugas, ou seja, há uma coisa a meio do sistema político e o PSOE faz uma campanha super à esquerda e o PP super à direita. Em Portugal, é ao contrário, ou seja, nós temos campanhas eleitorais centrípetas. Todas as propostas eleitorais concorrem para o centro. Até hoje tem acontecido isso. 

O problema é que em 2024, sendo assim nas campanhas, há um fator que desequilibra, que é o fator Chega. Só nas próximas legislativas é que nós podemos perceber se eles continuarão a desequilibrar ou não. Agora, até hoje, inclusive nas presidenciais, os eleitores têm dado a sua preferência às propostas eleitorais que são centrais. Não tem sido o contrário. Pode ser que seja diferente um dia, mas até hoje não tem sido.

Acha que isso será o que se vai manter agora, supostamente, nestes três anos de estabilidade ou três anos sem eleições - se tudo correr conforme previsto -, que teremos agora pela frente?

Eu acredito na vontade do Presidente da República [eleito, de que a legislatura seja cumprida até ao fim], mas não sei se acredito que a vontade dele será aplicada. São duas coisas diferentes. Isto quer dizer o seguinte: Marcelo Rebelo de Sousa foi a primeira pessoa a dizer: "Vamos entrar numa época de miniciclos". Eu acho que, nesta altura, Marcelo Rebelo de Sousa não disse isso como Presidente da República, disse isso como analista, como comentador. Ou seja, faço-lhe a justiça, espero, de pensar que não era o desejo dele como Presidente da República, era aquilo que ele achava que ia acontecer como comentador. Pronto. E como a gente sabe, Marcelo Rebelo de Sousa fez sempre as duas coisas ao mesmo tempo [sendo], em simultâneo, presidente e comentador. 

Eu acho que aquela observação dele era como comentador. António José Seguro não é comentador e, portanto, está a dizer qual é a sua orientação política, a sua ideia política. Se ele fosse comentador, como Marcelo Rebelo de Sousa, teria mais dúvidas, certamente, em relação a isso, porque isso não depende só dele. 

Nós temos hoje em dia um Parlamento que, nesse aspecto, é um bocado imperfeito, não é? Temos um governo que governa em minoria e que trata o Parlamento como se tivesse maioria. Primeiro problema. Os nossos políticos não estão habituados a trabalhar em minorias. Há países onde parlamentos são uns xadrez com peças e os governos resultam disso tudo. Em Portugal, não acontece isso. O PSD não está preparado para trabalhar em minoria, não sabe se há-de fazer acordos à direita se há-de fazer acordos à esquerda, e, portanto, a possibilidade de continuar até ao fim da legislatura parece-me difícil.

Aceito que será previsível que o PS venha a abster-se no próximo orçamento do estado, mesmo que o Chega vote contra… pronto, faz parte, mas eu acho que isso é muito difícil de aguentar. Se for assim, o que nós podemos ter, acho eu, mais evidente é uma divisão entre direita e esquerda, mais do que outra coisa qualquer.

Um extremar de posições, digamos assim?

Sim, sim, acho isso, entre direita e esquerda. Ou seja, pode haver uma tentativa do PS e do PSD falarem para o centro e, provavelmente, quem vai ganhar as eleições é quem o conseguir, mas os dois têm muita pressão para fugirem do centro. O PSD tem uma pressão,  - como em Espanha o PP tem - para não deixar fugir os eleitores para o Chega, (ou para o Vox). O PS tem uma pressão enorme para voltar a ser um partido de poder. 

Enfim, também não sei. Eu não sou, não sou bruxo, não é? Não é uma das minhas qualidades ser bruxo e, portanto, não sei o que é que vai acontecer. Estou apenas a dizer que a ideia de que vamos ter uma legislatura até ao fim, que é uma ideia interessante, nobre…

Pode não ser possível.

Quer dizer, não estou a ver qual o cenário em que é possível. Pronto. Só é possível se houver um entendimento entre o PSD e o PS. Não estou a ver que seja possível. Ou entendimento entre o PSD e o Chega. Não estou a ver que seja possível. Ou então uma taxa de popularidade tão grande, de apreciação tão grande do Primeiro-Ministro que não seja do interesse nenhum dos outros partidos provocar uma crise. O que também não me parece possível.

Até tendo em conta…É óbvio que isto irá passar e durante três anos muita coisa irá mudar, mas neste momento…

Um milagre de Fátima. Com um milagre de Fátima, as coisas podem acontecer assim.

Ia referir a questão do mau tempo e das cheias…

Qualquer questão: a dos fogos… o que quiser. Digamos que a imagem de que o governo não é popular, no sentido em que é difícil encontrar méritos no governo. É uma perceção que os portugueses todos têm. Na saúde, por exemplo. Nós já nos esquecemos dos dois ou três meses anteriores a este, em que a crise era na saúde e não era provocada por nenhuma calamidade. Era provocada pelo próprio exercício da atividade governamental, não é? Portanto, vejo muito como difícil.

A própria comunicação do governo tem falhado nesta situação de crise?

Sim, é mais um elemento. 

Eu acho que o problema do governo não é de cada um dos ministros, caso a caso. É um problema de liderança. Enfim, há um problema de liderança, de pessoa, Luís Montenegro, prático. Não, estou a fazer nenhuma qualificação, se é bom ou se é mau. É assim. 

Já se descobriu que Luís Montenegro só funciona empurrado. Ou seja: que não tem nenhum plano, que não faz nada antecipadamente e que demora muito tempo a responder. Este caso [das cheias] não é único. Foi sempre assim. Portanto, não é um primeiro-ministro proativo, nem responsivo. Só muito tardiamente é que acaba por responder. E até lhe dou o mérito de que depois as coisas até funcionam melhor. 

Eu gostei da comunicação que Luís Montenegro fez três ou quatro dias antes das eleições presidenciais. Achei que era perfeita e que produziu resultados nas eleições contra André Ventura. 

Sobre que assunto, em específico?

Sobre as calamidades. [Uma comunicação] que ele fez três ou quatro dias antes das eleições. Ele fez uma comunicação às sete e meia da tarde perfeita. Aceito que havia muita gente que estava abstencionista por causa daquilo que André Ventura tinha dito em relação à inépcia e à inércia e à incapacidade do governo em relação à calamidade e com aquela imagem de timoneiro que Luís Montenegro criou naquela noite, há pessoas que podem ter ido votar em António José Seguro para votar contra André Ventura.

Portanto, acho que ele depois, quando responde, acaba por responder com alguma qualidade, algum mérito. Mas, além disso, tem outro problema que é, falta-lhe uma estrutura, aquilo a que se chama o núcleo duro. Era preciso que houvesse três ou quatro pessoas que o rodeassem e que fossem de confiança, proativas, responsáveis e tivessem poder político. E isso falta-lhe. Portanto [o governo] tem um problema de liderança, tem o problema de não ser uma equipa e isso torna-se muito evidente nas situações que chamamos de crise, porque há ali uma falta de capacidade de resposta, realmente. A culpa não é da Ministra da Administração Interna, é de um conjunto [de pessoas], não é? 

Portanto, eu acho que, como provavelmente nós vamos ter todos os verões uma crise de incêndios e todos os invernos uma crise de cheias - coisa que parece-me absolutamente realista -, e no meio disto, outras - a da Ucrânia, ou da NATO, ou outras nacionais, de imigração, seja o que for -, o governo está muito pouco preparado para isto, para uma governação que não seja tão simples como o governo gostaria que fosse. 

Portanto, como é que se leva três anos e meio assim? Não sei. Podem mudar. Sabe que as pessoas mudam, não é? As pessoas, as organizações… têm essa vantagem.

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