Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Governo português desde 2015 e secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior antes disso (entre 2005 e 2011), Manuel Heitor é professor catedrático no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, na área da Engenharia Mecânica. Fez o doutoramento no Imperial College em Londres e o pós-doutoramento na Universidade da Califórnia.
Depois de construir a sua carreira académica no Instituto Superior Técnico, onde voltou à investigação nas áreas da energia e do ambiente, começou a dedicar-se, desde o início dos anos 90, às políticas de ciência, tecnologia e inovação, o que inclui políticas e gestão do ensino superior.
Como ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior foi entrevistado para a reportagem “Ciência Cidadã: que forma é esta de participar na ciência?”. Manuel Heitor reconhece, não só, a relevância da ciência cidadã como forma de contacto entre a ciência, os cientistas e a sociedade, como de todas as atividades que hoje são reconhecidamente importantes para a ciência como a comunicação de ciência ou o envolvimento do público na mesma.
Gerador (G.) – O que considera ser a ciência cidadã no sentido de relação entre ciência e sociedade?
Manuel Heitor (M. H.) – Considero que a questão crítica a que o termo “ciência cidadã” se refere diz respeito à participação ativa das pessoas, em geral, no desenvolvimento de agendas científicas, que, depois, têm de ser os cientistas a desenvolver (i.e., naquilo que se chama na gíria anglo-saxónica de agenda-setting), assim como à apropriação social dos resultados da atividade científica. Ou seja, refere-se ao diálogo entre as pessoas e os cientistas para a elaboração de atividades científicas que tenham por base os desafios, as preocupações e as ambições populares, assim como para a divulgação e popularização do conhecimento científico.
Mas, antes de mais, gostaria de começar por notar que considero que o termo “ciência cidadã” está muito mal inventado e/ou usado. Sobretudo porque não deve levar as pessoas a pensar que é possível fazer ciência sem cientistas (i.e., profissionais de ciência, altamente especializados e com carreiras próprias), ou que qualquer pessoa pode substituir os cientistas.
De facto, o contexto histórico deve ser clarificado. A especialização do conhecimento ao longo dos últimos séculos, e sobretudo desde a afirmação da Ciência no século XVII, levou os cientistas a isolarem-se progressivamente do “mundo real” e de muitas das preocupações das pessoas. Este processo, naturalmente associado a outros tipos de especialização profissional, viria a ter como resultado uma série de movimentos de aproximação dos cientistas à sociedade. Por exemplo, no pós-Segunda Guerra Mundial e depois do lançamento das primeiras bombas atómicas, assistimos a uma série de movimentos de ligação à sociedade para tentar explicar que a ciência não servia apenas para produzir bombas. Esse movimento foi muito importante e levou à construção do termo Public Understanding of Science, sendo de nomear o papel de, entre outros, John Ziman, da Universidade de Cambridge. Em Science is Real, Ziman mostra que a ciência é, de facto, uma construção social complexa e que, obviamente, o reconhecimento daquilo que são as carreiras científicas, que são independentes e que têm de ter uma própria natureza, não deve ser feito sem haver processos de ligação à sociedade.
Paralelamente, Oppenheimer cria nos Estados Unidos o célebre Museu da Ciência de São Francisco, para explicar às pessoas o que era fazer ciência e a necessidade de procurar novos conhecimentos, assim como “popularizar” a ciência. Esse movimento expande-se muito na Europa e é também nesse contexto que, na França, surgiram outros movimentos parecidos, como o La main a la pâte, e, em Portugal, anos mais tarde, surge o movimento Ciência Viva, liderado por José Mariano Gago. Na Finlândia, surge o movimento Eureka. Estes movimentos baseiam-se na promoção da cultura científica em associação com a difusão do ensino experimental das ciências para estimular a compreensão pública do que é a ciência.
Mas, hoje, estamos em 2021 [ano em que foi realizada a entrevista], e devo notar que acaba de ser publicado pelo Eurobarómetro um survey [questionário] muito importante sobre os índices de cultura científica na Europa. E percebemos que, antes de mais, são muito diversificados, de região para região, de país para país e há um leque muito distinto e diversificado de situações. É importante notar que países como Portugal ou a Estónia estão particularmente bem colocados, sendo de referir que Portugal é o país onde há uma maior fração de cidadãos que visita regularmente centros de ciência. Neste caso, os centros Ciência Viva, que hoje inclui uma rede de 20 centros, a adicionar a cerca de 11 escolas Ciência Viva e a mais de 530 Clubes Ciência Viva em escolas por todo o país.
Mas o que mostrou este Eurobarómetro é que não é assim em toda a Europa e até nos países ditos mais desenvolvidos economicamente, incluindo a Alemanha ou o Reino Unido, os níveis de cultura científica são particularmente baixos e preocupantes. Sabemos também que a situação nos Estados Unidos é muito diversificada e também sabemos que, hoje, coexistem elites científicas, em algumas zonas, com movimentos muito fortes anticiência, incluindo movimentos xenófobos, ou movimentos contra o uso de vacinas.
Ou seja, precisamos de reforçar muito as relações entre a ciência e a sociedade. E há várias razões para que assim seja e gostaria de notar, principalmente, quatro dessas razões.
Primeiro, há um aspeto particularmente importante que mostra que temos de atuar rapidamente nessa relação e que diz respeito à necessidade cada vez mais importante de aumentar o nível do investimento de recursos públicos e privados disponibilizados à ciência.
Hoje já sabemos que temos Ciência e que a produção científica nos permite acumular conhecimentos suficientes que nos possibilitam exportar produtos e serviços com mais valor económico, assim como tratarmos doentes nos hospitais e prevenir, tratar e reabilitar doenças com base na ciência que aprendemos e naquela que nós mesmos produzimos. Sabemos também que, por outro lado, as atividades económicas e sociais de maior valor acrescentado levantam novas questões científicas e estimulam novas fronteiras do conhecimento. Precisamos, portanto, de continuar a evoluir no reforço de agendas colaborativas com mais ciência e mais economia, para garantirmos um futuro sustentável às próximas gerações.
Ou seja, hoje sabemos bem que a “ciência cura” e que a “ciência cria empregos”, ou seja, que a ciência é crítica para o desenvolvimento social e económico, para a qualidade de vida ou para o bem-estar coletivo, mas devemos questionar porque é que, por exemplo, na Europa, nos últimos 20 anos, o investimento global em ciência está estagnado. E quando olhamos para os Estados Unidos, a não ser o crescimento em investimentos, sobretudo pela defesa, também está estagnado. Neste momento, também sabemos que os países que estão a crescer mais no investimento em ciência, incluindo Israel, a China, ou a Coreia, estão a financiá-la sobretudo para fins militares.
Na Europa, no ano 2000, foi definido um objetivo de atingir um nível de investimento em investigação e desenvolvimento (I&D) de 3 % do PIB, com um terço desse investimento a ser executado por instituições públicas e dois terços pelas empresas. Sabemos hoje que a Europa não atingiu esse valor e que continua em termos médios com um nível de investimento de cerca 2 % do PIB. Os Estados Unidos estagnaram em cerca de 2.8 % do PIB, não tendo também crescido. E estes dados levam à necessidade crítica de estimular a relação entre a ciência e a sociedade, porque, nas nossas sociedades democráticas, têm de ser as pessoas a exigir que os governos que elegem democraticamente invistam mais em ciência.
O caso português é um caso paradigmático. Nós já crescemos até 2010, quando atingimos um nível de investimento em I&D de 1,5 % do PIB e depois diminuímos até 2015 (quando atingimos 1,2 % do PIB) e nos últimos anos voltámos a crescer muito e atingimos 1,6 % do PIB, em 2020. Mas estamos ainda a meio daquele que é o objetivo europeu.
Portanto, a situação atual em Portugal, na Europa ou no mundo, deve preocupar-nos e só pode evoluir com mais cultura científica da população. Apesar de hoje haver uma consciência crescente do interesse na ciência, vemos que os cidadãos não estão, de forma alguma, nem envolvidos nem disponibilizados para que os seus recursos, através dos impostos que pagam, sejam alocados mais à ciência. Porquê?
Nunca haverá investimento na ciência se as pessoas não pedirem para que esse investimento seja feito de forma sistemática. Ou seja, é cada vez mais essencial fazer ou garantir que os cidadãos de uma forma geral, pequenos, novos, velhos, graúdos, gordos e magros, mulheres e homens, sejam parte integrante dos novos desenvolvimentos científicos para perceberem o valor da ciência. Isto é aquilo a que eu chamo os movimentos de cultura científica, que têm sido muitas vezes adotados sob o termo “ciência cidadã”.
Em segundo lugar, e para além das questões do nível de investimento em ciência, temos de ser claros e perceber que a atividade científica requer uma grande especificidade e rigor. As pessoas não podem ser todas cientistas, nem devem, porque fazer ciência é uma atividade altamente profissionalizada e é, sobretudo, para os cientistas. E, por isso, repito que o termo “ciência cidadã” pode ser mal interpretado, se for levado ao extremo de qualquer pessoa poder ser cientista! Alguns podem e devem. Outros não podem ou não têm mérito para o fazer. E, portanto, a atividade científica é uma atividade também ela com uma tendência de segregação muito grande, porque é fortemente baseada no mérito, exigindo uma atitude própria e, geralmente, um voluntarismo muito grande.
Neste contexto, é absolutamente crítico que se desenvolvam e estimulem carreiras científicas que são diferentes de outro tipo de carreiras profissionais. Temos de ter uma sociedade plural. O que nos deve fazer mover é que todos possamos ter as mais variadas atividades, mas que também haja cientistas e que os cientistas não tenham de ser apenas voluntários e que tenham carreiras científicas, em que devem progredir pelo mérito.
Portanto, o desenvolvimento das carreiras científicas e da atividade científica tem de ser feito em paralelo com atividades de comunicação e divulgação da ciência para que as pessoas, de uma forma geral, compreendam o que se faz com a ciência. Este é um movimento complexo que tem muito que ver com a “ciência cidadã”, no que respeita à promoção e divulgação da cultura científica.
Por isso, considero que a questão crítica da ciência cidadã é que as pessoas participem no desenvolvimento de agendas científicas, que depois têm de ser os cientistas a desenvolver. Ou seja, a ciência cidadã tem esta característica muito interessante que consiste na participação das pessoas na formulação das perguntas de investigação e/ou de agendas científicas, em diálogo com os cientistas. Adicionalmente, em alguns casos, sobretudo de âmbito social ou nas ciências naturais, é ainda benéfico que as pessoas participem no processo científico, por exemplo na obtenção de dados e na recolha de informação. Não na resolução dos problemas científicos, que é para ser feita por cientistas.
Por exemplo, considere os sistemas espaciais. Se nos limitarmos a dizer que precisamos de investir em sistemas espaciais, as pessoas não conseguem perceber. Mas se tentarmos envolver as pessoas na conceção de agendas de sistemas espaciais que levem a prever desastres naturais, a prevenir fogos, a facilitar a vida segura das pessoas, talvez seja possível acreditar numa formulação que as pessoas começam a perceber.
Em terceiro lugar, repito que tudo isto tem muito que ver, certamente, com um esforço de comunicação e participação cívica, e sobretudo com o envolvimento das pessoas na definição das agendas para que depois as pessoas estejam disponíveis para também, parte dos impostos que pagam, sejam usados para fazer mais e melhor ciência. Exige, claramente, do lado dos cientistas, um esforço muito grande para não se fecharem e para interagir com as pessoas.
Esta é outra questão complexa, pois uma grande maioria, não digo a totalidade, mas uma fração de cientistas não gosta nem de comunicar nem de interagir com as pessoas. E o que ao longo dos anos se sabe é que nunca haverá ciência cidadã sem a interação com os cientistas, pelo que tem de haver, pelo menos, uma fração de cientistas que esteja disponível para interagir com as pessoas e para comunicar.
Em quarto lugar e por último, noto que este processo resultou na profissionalização crescente da comunicação da ciência. Ou seja, a profissionalização e especialização da ciência levou à criação de uma profissão, que não havia há 50 anos, que são os comunicadores de ciência. Como disse, não evita os cientistas nem evita os cidadãos. Mas são profissionais que facilitam mecanismos de interface e meios de intermediação. E, portanto, os profissionais de ciência cidadã, ou os profissionais de comunicação de ciência, ou os profissionais de cultura científica, são agentes que fazem essa intermediação, a qual, por si, é muito importante e uma profissão muito nobre. Por exemplo, os centros de ciência têm profissionais de intermediação de cultura científica, de comunicação de ciência, de envolvimento dos cidadãos e sabemos, hoje, que exige um conjunto vasto de competências.
Finalmente, em termos estatísticos, noto que o número de investigadores na população ativa cresceu para um máximo também histórico de 10,3 investigadores por mil ativos em 2020 (i.e., quando medidos em tempo integral, enquanto era 7,4 %, em 2015). Foram registados mais de 53 mil investigadores em equivalente a tempo integral (ETI), mostrando um crescimento de 14,5 mil investigadores ETI desde 2015, ou seja, um aumento de 36 % nos últimos cinco anos. O número de investigadores nas empresas
atinge cerca de 22 mil ETI, representando um aumento de 87 % desde 2015 (quando eram 12 mil ETI).
Simultaneamente, o total de recursos humanos em atividades de I&D (i.e., total de investigadores, técnicos e outros profissionais) atinge 12,8 pessoas (ETI) por cada mil habitantes ativos, atingindo 66 mil ETI em 2020 (enquanto eram 48 mil ETI, em 2015).
Ou seja, temos cerca de cem mil pessoas a trabalhar em atividades de I&D, pelo que temos de garantir que pelo menos 20 % delas dedicam uma parte do seu tempo a processos de interação com a sociedade. E esta é uma meta difícil de conseguir!
G. – Por ser uma prática científica em que os cidadãos podem ajudar os cientistas a monitorizar e a recolher dados – em várias situações –, mas também que pretende envolver outras partes interessadas como a indústria, as empresas, os decisores políticos ou o setor público, considera que os projetos de ciência cidadã podem ser uma mais-valia no momento que vivemos atualmente de pandemia?
M. H. – Vivemos tempos inéditos, em Portugal e no mundo, sobretudo no contexto da crise internacional emergente associada à situação epidemiológica provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2 e pela doença covid-19, em sobreposição com os desafios globais da transição ecológica e as oportunidades da transição digital emergente. Se é verdade que a incerteza e o desconhecimento sobre o futuro inundaram as nossas rotinas diárias, não será menos verdade admitir que de forma também inédita em Portugal, em tempos de crise, presenciamos um momento extraordinário de confiança dos jovens e das suas famílias na formação científica e académica e nas suas instituições, bem como nas vantagens decorrentes da investigação científica e da qualificação superior.
Em 2020, a despesa total em I&D, em Portugal, atingiu um novo máximo histórico de mais de três mil e duzentos milhões de euros, representando agora 1,62 % do PIB (quando eram 1,2 %, em 2015) e mostrando um aumento pelo quinto ano consecutivo, num total anual superior a mil milhões de euros face a 2015. Mas pela primeira vez em Portugal, metade dos jovens de 20 anos estão a estudar no ensino superior (enquanto eram 40 % em 2015 e menos de 30 % em 2000) e mais de 46 % da população residente na faixa etária dos 30–34 anos tem qualificações superiores (enquanto menos de 35 %, em 2015).
Em 2015, tínhamos oferta de ensino superior em cerca de 40 localidades no país. Hoje, temos em 134, e isso fez muita diferença, sobretudo nas populações mais vulneráveis, fora dos principais centros urbanos, particularmente ao nível de formações curtas. E esse movimento de facilitar uma oferta de “ensino superior de proximidade” facilitou e estimulou um aumento muito grande do número de estudantes a quererem estudar. E este é um sinal importante porque o ensino superior é, porventura, um dos processos mais bem concretizados de aproximação das pessoas à ciência: é através do estudo avançado.
E hoje temos uma população, sobretudo jovem, em Portugal e no mundo, que está particularmente atenta, muito resultado da educação ao longo dos últimos 30 anos. Os manuais de ensino básico e secundário foram inundados com as questões de sustentabilidade – e bem! –, e hoje temos, obviamente, uma emergência climática e o envolvimento crescente das pessoas para evitar o desastre climático, que só se faz com mais ciência e mais conhecimento. Requer mais ciência e mais participação dos cidadãos nos processos de procura pelo conhecimento e, por isso, penso que estamos perante tempos novos, muito decisivos, mais porventura do que a pandemia.
E a “ciência cidadã” é muito relevante, pois aprender a questionar mais é a melhor forma de aprender a lidar com a incerteza e o desconhecimento sobre o futuro, como o novo coronavírus SARS-CoV-2 tão prontamente nos veio alertar.
Aprofundar esta problemática é cada vez mais relevante, pois este novo coronavírus passou de animais para homens e, embora esse processo esteja longe de estar conhecido, sabemos que as doenças zoonóticas têm vindo a aumentar devido à pressão que as nossas sociedades e o seu desenvolvimento económico exercem sobre a natureza. É uma clara manifestação da falta de equilíbrio da influência dos seres humanos na Terra, que se manifesta também através das alterações climáticas. Ora, a eventual demonstração científica dessas relações com a pandemia com que agora vivemos exige fazer perguntas mais difíceis para melhor percebermos os riscos que corremos.
Aprender a viver e a conviver com o risco é, de facto, o desígnio de todas as sociedades modernas e o melhor que podemos passar às futuras gerações. Exige investigar mais, aprender mais, com mais solidariedade e debate intergeracional, compreendendo o respeito pelo próximo, independentemente do seu género, idade, raça ou orientações sexuais. É oportuno fazer esse exercício, pois hoje vivemos um quadro novo para pensar a evolução das qualificações, assim como da ciência e do ensino superior em Portugal no contexto europeu, sobretudo em termos da exigência crescente de melhor articular políticas e estratégias para a coesão e para a competitividade, para garantir um processo efetivo de convergência europeia até 2030. Este processo só terá sucesso com mais conhecimento, remetendo para a opção pública e para o pensamento político respetivo, a garantia de considerar a aprendizagem e o conhecimento como “bens públicos”, reforçando o seu papel de criação de mais e melhores empregos.
G. – Existe um conjunto de pessoas interessadas, entre as quais cientistas, representantes de ONG e empresas, que estão neste momento empenhadas em criar a Rede Portuguesa de Ciência Cidadã, que é algo que já existe a nível europeu com a European Citizen Science Association e existe em vários outros países europeus. Considera que seria uma iniciativa importante, termos esta Rede em Portugal para que se tornasse uma prática mais reconhecida pelo público e pelos próprios cientistas?
M. H. – Todos os movimentos de participação dos cientistas com a sociedade são bem-vindos, desde que sejam efetivamente para valorizar a ciência, para valorizar as carreiras científicas e para aproximar as pessoas da ciência. Se for com esses objetivos, sim.
Neste sentido, espero que se construa como um movimento claro para valorizar os cientistas, que têm uma valorização social relativamente reduzida, mas mais do que isso, que seja para mobilizar as pessoas para este processo.
Acho, contudo, que estes movimentos não se fazem no abstrato. Há uma autora, cientista social muito conhecida, da Universidade de Harvard, a Sheila Jasanoff, que tem trabalhado muito sobre esta área e que tem afirmado, sobretudo no contexto norte americano, que a questão crítica do défice de cultura científica tem muito que ver com um défice de autoridade. As pessoas não acreditam na autoridade e como a ciência é sempre vista como uma forma de autoridade, as pessoas, sobretudo referindo-se às zonas interiores dos Estados Unidos, não acreditam na ciência porque, de uma forma geral, desacreditam todos os movimentos de autoridade.
A ciência sempre foi e sempre será a procura da verdade e quem tem a verdade, tem autoridade. E, por isso, muitos dos movimentos anticiência, como os movimentos antivacinas, têm muito que ver com a degradação sociocultural da noção de autoridade num contexto democrático.
Não estamos a valorizar regimes autoritários, não é isso. Mas sim a autoridade pela verdade científica, num contexto democrático. Mais uma vez, segundo John Ziman, é uma construção social que exige a participação das pessoas e é por isso que não haverá ciência, ou não haverá mais ou melhor ciência, se não houver a participação ativa das pessoas.
E a lição para os cientistas é que também não se podem isolar. E é um desafio para as pessoas se aproximarem dos cientistas e os cientistas das pessoas.
G. —Um dos problemas mais comuns verificados nestes projetos de ciência cidadã é o de que são feitos normalmente por cientistas, nos seus tempos livres e sem dedicação exclusiva, sem recursos alocados ao projeto. O que acontece normalmente é que o feedback que têm para dar aos cidadãos acaba por se perder porque não têm tempo. Seria, nesse sentido, talvez importante haver algum financiamento para projetos de ciência cidadã em Portugal, o que ainda não acontece. Considera que seria importante haver financiamento nesta área?
M. H. – Não necessariamente. Mais uma vez, a ciência cidadã só faz sentido se houver ciência. Portanto, o financiamento deve ser da ciência. O que se deve estimular é que todos os projetos e todas as atividades científicas dediquem uma percentagem do seu financiamento para a divulgação da cultura científica.
Esta é uma prática adotada em Portugal desde a criação da FCT, em que se dá uma orientação para que 5 % do financiamento de todos os projetos devam ser para questões de divulgação. A FCT, por exemplo, considera elegíveis todas as despesas que os cientistas dedicam à cultura científica. Sendo que isto não quer dizer que todos os cientistas o façam.
Ou seja, penso ser preferível financiar a atividade de ciência e estimular que todas as atividades científicas têm de estar associadas a um movimento de cultura científica. Também ao nível do financiamento das instituições científicas, sobretudo das unidades de I&D e dos Laboratórios Associados, pois o financiamento de base a estas instituições científicas tem uma orientação para parte ser usado na promoção da cultura científica.
E, em Portugal, temos um caso excelente, a Agência Nacional de Cultura Científica Ciência Viva, que resultou da associação entre a FCT e 11 dos nossos principais laboratórios científicos. Portanto, a FCT colabora com laboratórios e financia a Agência Ciência Viva para promover a cultura científica.
Em súmula, por um lado, financiam-se projetos de I&D e recomenda-se que os projetos usem uma fração de 5 % do seu financiamento na divulgação científica; por outro lado, financiam-se instituições e recomenda-se que as instituições usem parte desse financiamento para a promoção da cultura científica; adicionalmente, a própria FCT criou a Ciência Viva para ter um conjunto de profissionais que gerem centros de ciência e gerem estas atividades.
Mas em todos estes processos é essencial dar autonomia aos cientistas e às suas instituições. São as instituições científicas que devem decidir o que fazer. E, por isso, no financiamento de base às instituições é dito que as instituições podem contratar, com estes financiamentos, profissionais de ciência cidadã ou profissionais de comunicação de ciência. Hoje, os grandes laboratórios portugueses, sobretudo os Laboratórios Associados, tem todos profissionais de cultura científica e agentes de interface científica ou comunicadores de ciência. Isso começa a ser uma prática muito bem aceite.
G. – Normalmente o financiamento da maioria destes projetos, que lhes permite avançar, são pequenas verbas que têm de projetos da FCT aos quais concorrem, ou seja, o que tentam fazer é colocar os projetos de ciência cidadã dentro das suas atividades e na realidade tem uma verba para o fazer.
M. H. – E é isso que eu acho que deve ser feito para não haver a tentação de haver só projetos de ciência cidadã que não tenham ciência.
G. – Na realidade, para ser um projeto de ciência cidadã, tem de ter ciência. A próxima questão prende-se novamente com o financiamento, especialmente quando comparamos Portugal com Espanha, por exemplo, onde existe uma linha de financiamento para projetos de ciência cidadã, de alguns milhões de euros por ano. O que falta a Portugal para podermos fazer de uma prática científica onde os cidadãos participam, numa política pública que possa constituir financiamento?
M. H. – Nós temos uma política pública de ciência que inclui a ciência cidadã. E dedicamos muitos milhões do nosso orçamento de ciência à cultura científica. Tanto que, volto a repetir, todos os projetos de investigação, que representam cerca de 120 milhões de euros por ano, se apenas considerarmos aqueles financiados pela FCT, deviam dedicar 5 % desse orçamento às questões de cultura científica.
Portanto, a ciência cidadã ou a promoção da cultura científica ou a divulgação científica é um elemento crítico da política científica desde, pelo menos, os últimos 25 anos, e sempre foi e sempre deve continuar a sê-lo. O exemplo mais relevante diz respeito à Agência Ciência Viva, incluindo as iniciativas Ciência Viva nas férias, como a Ciência e Astronomia, que são tudo atividades cofinanciadas pelo Estado. Portanto, há um orçamento e investimento públicos nesta área. Podemos sempre dizer que não é suficiente, mas isso é como tudo. Os recursos são limitados. Pessoalmente, considero que não deve haver um concurso exclusivamente de “ciência cidadã”, pois penso ser preferível financiar projetos de investigação que têm uma componente de comunicação e de participação cívica.
G. – Portugal tem um dos números mais elevados de participação da sociedade, por exemplo, em relação à vacinação. Os portugueses vão aos centros de ciência e aos museus, temos o caso dos orçamentos participativos que têm alguma história em Portugal e somos dos únicos países da Europa onde existe esta prática. O que poderíamos fazer mais, enquanto cientistas e enquanto cidadãos, para que a ciência fosse mais divulgada e mais conhecida?
M. H. – Este movimento tem de exigir muito mais do que atingir metas quantitativas, tal como alargar os níveis das qualificações formais de toda a população, os quais devem continuar a aumentar para que se atinja uma taxa média de frequência no ensino superior de 6 em cada 10 jovens com 20 anos até 2030 e garantir 50% de graduados de educação terciária na faixa etária dos 30-34 anos, juntamente com uma despesa global em I&D de 3% do PIB até 2030. Exige garantir a qualificação ativa e efetiva da população, investigando mais, aprendendo mais, questionando mais e melhor e, sobretudo, abordando os principais desafios e oportunidades que, no atual contexto de Portugal na Europa, se colocam aos portugueses na próxima década.
Incluo, neste debate, a necessidade de aprendermos mais para diversificarmos e complexificarmos a estrutura da economia, impulsionando os jovens a aprender, apreender e empreender, densificando rotinas de articulação entre a produção e difusão de novos conhecimentos. Incluo, também, a exigência de garantir padrões adequados de coesão territorial em articulação com a evolução para uma economia mais sustentável e equilibrada em termos ambientais, valorizando as oportunidades da digitalização das nossas rotinas pessoais e profissionais. E incluo também, necessariamente, a necessidade de aprendermos mais para construirmos uma sociedade mais coesa, com vidas mais longas e mais felizes, partilhando melhor a distribuição da riqueza gerada e combatendo as desigualdades que persistem nas nossas sociedades, nomeadamente entre jovens e idosos, ricos e pobres.
Noto que esta discussão na Europa nos últimos três a quatro anos levou ao conceito de“missão”, seguindo a experiência norte-americana da “missão à Lua”. O novo quadro de financiamento plurianual, o chamado Horizonte Europa (2021–2027) inclui cinco missões, que têm muito que ver com o envolvimento dos cidadãos: i) a saúde dos oceanos; ii) as cidades neutras em carbono; iii) a redução em 50 % de mortes por cancro; iv) a produtividade dos solos europeus; e v) contribuir de uma forma geral para a neutralidade carbónica. Consiste em focar a comunicação de ciência em cinco grandes objetivos que são fáceis de explicar às pessoas.
Por exemplo, sabemos que cerca de 50 % das pessoas que têm cancro acabam por morrer e por isso vamos reduzir esses valores para metade e garantir que 75 % dos doentes com cancro têm pelo menos uma esperança de 10 anos de vida. E agora que ciência é que nós temos de fazer para chegar a esse objetivo? Estas missões têm muito esta ideia de facilitar a compreensão pública das pessoas.
Esta ideia de concentrar esforços em missões que facilitem a explicação às pessoas daquilo que está a ser feito estimula a interação com a sociedade.
E nós também temos bons exemplos, por exemplo, na seleção das exposições da Ciência Viva, as quais resultam de tentar identificar questões que sejam possíveis e minimamente fáceis de explicar e de ser compreendidas pelas pessoas. E essa é grande parte do trabalho dos profissionais que trabalham em centros de ciência em Portugal e pelo mundo: identificar alguns tópicos que sejam fáceis de compreender. Um dos exemplos muito usado hoje nos centros de ciência em Portugal é a questão da “cozinha é um laboratório”. Através das questões alimentares e da produção de alimentos, explicar o valor nutricional, o que é que se deve comer e o que é que não se deve comer, são formas de explicar ciência, pelo que cada vez mais os centros de ciência são sempre equipados com cozinhas que servem para explicar ciência através da atividade da culinária que todos conhecemos.
Identificar temas que motivem as pessoas a aprender mais. Exige saber fazer perguntas mais difíceis para melhor percebermos os riscos que corremos e a ciência que precisamos.