O ator Mário Coelho é o vencedor da 2ª edição do Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II, um galardão de caráter anual que pretende reconhecer e promover os talentos emergentes no panorama teatral.

Ator, encenador, dramaturgo e também produtor dos seus próprios espetáculos, Mário Coelho entrou no mundo do teatro impulsionado pelo sonho de ser realizador de cinema. Ingressou na Escola Superior de Teatro e Cinema, em 2012 e estreou a sua primeira criação, É possível respirar debaixo de água, em 2015, na galeria Manteigaria Lisboa. Desde aí, encenou já seis criações próprias e em 2020, durante o primeiro confinamento, criou, a partir de casa, a websérie de oito episódios, Vai Ficar Tudo Bem!. Movendo-se pelo panorama independente de Lisboa, motiva-o a vontade de encontrar um lugar onde se possa expressar livremente.

No dia 21 de maio, subiu ao palco da Sala Garret no Teatro Dona Maria II para receber a segunda lágrima de cristal a ser atribuída nesta parceria entre o Teatro e o Grupo Ageas Portugal - juntando-se assim à atriz, encenadora e dramaturga Sara Barros Leitão, vencedora da 1ª edição do Prémio, entregue em 2020.

Eleito por um júri composto por treze profissionais representativos de diversas áreas associadas ao meio artístico e cultural português, como Álvaro Correia, Cristina Carvalhal, Cucha Carvalheiro, Inês Barahona, Isabél Zuaa, John Romão, José António Tenente, Marta Carreiras, Mónica Garnel, Rui Horta, Rui Pina Coelho, Sara Barros Leitão e Tónan Quito, Mário Coelho relembrou o seu percurso e frisou a importância de celebrar a individualidade.  

Em entrevista ao Gerador, Mário Coelho, contou os seus primeiros passos no mundo do teatro, o seu trabalho em projetos independentes, que sonhos este prémio vem trazer e como o teatro é um caminho de sinergias.

Gerador (G.) – Tens memória do primeiro filme ou peça de teatro que idealizaste?

Mário Coelho (M.C.) – Há dois filmes questão muito presentes na minha memória, o Corcunda de Notre Dame e o Beleza Americana. Apesar de não perceber a totalidade daquilo que ouvia, marcaram-me muito, despertavam-me alguma sensação e emoção que não percebia o que era, mas sentia muita vida circular. Comecei a escrever, desde muito novo, uma espécie de guiões, pedaços de papel com algumas histórias, e eu chamava a minha família, construía as personagens e contava essas mesmas histórias. Contar histórias sempre foi algo que fez parte de mim. Em termos de espetáculo, o primeiro que senti vontade de fazer acabou por acontecer. Como tinha tirado o curso de ator, sentia que o meu caminho era por aí, e comecei a encenar porque tinha colegas no meu curso que eu sentia que não estavam a ser aproveitados, dentro da minha ótica. Sentia que o trabalho um a um se estava a perder, então escrevi um texto em que a única regra que era, que tinha de ser feito para aquelas pessoas, mas eu não iria encenar. No entanto, as pessoas começaram a dizer-me que sentiam que a história era tão minha, que devia ser eu a encenar, e voltei ao ponto inicial de querer ser eu a criar, juntar pessoas, mas tinha muito medo dessa responsabilidade, era uma questão de assumir algum em mim que ainda tinha receio, porque ainda vivia muito com aquela questão de quase pedir desculpa por existir. Foi a primeira vez que escrevi algo para teatro, e avancei. Olhando para trás, é um espetáculo em que vejo muitas fragilidades, mas é engraçado porque essa inocência, que ainda hoje permanece, eu identifico quase como havendo umas pedrinhas de conteúdo e de temáticas, que já estavam a acontecer de alguma forma. Olho para esse espetáculo com carinho, vejo como o início de algo.

G. – Antes de teres entrado no curso, já tinhas contacto com o mundo do teatro?

M.C.  Não, só o Auto da Barca do Inferno no 6º ano. Tanto que, sempre tive uma crença de que queria fazer teatro, mas não tinha experiência, então era um pouco limitador na minha cabeça. Correu bem, mas agora penso que podia ter corrido mal.  Queria muito fazer o curso normal, o ensino básico e secundário, e iniciar o teatro com uma outra maturidade. Quando fiz as provas para a escola de teatro, com 17 anos, não tinha experiência, mas queria perceber como funcionava tudo. Então, ao mesmo tempo, inscrevi-me num curso de teatro da Universidade de Psicologia e estava nos dois ao mesmo tempo. Foi um ano com muita coisa a acontecer, também porque tinha um pouco o Síndrome do Impostor.

G. – Mas tens noção do porquê de teres recebido este prémio, ou esse Síndrome do Impostor ainda te acompanha?

M.C. – Acompanha sempre um pouco. Costumo dizer que, em qualquer espetáculo que faça, quer como ator ou criador, e alguém me dá os parabéns ou manda uma mensagem a dizer que se identifica, eu fico sempre surpreendido. O prémio não estava nada há espera, de todo. Tinha consciência do prémio, gostava de receber, mas o caminho não foi feito nesse sentido. Consigo identificar o porquê de ter recebido, porque tem sido um caminho feito com muita luta e dificuldade. Antes de anunciarem o prémio, disseram que é fácil desistirmos durante o caminho, porque ficamos cansados, é uma profissão muito dura e estás sempre em comparação - tem esse lado, e eu não gosto disso. Eu não gosto da comparação e de comparar casos, progressos e trabalhos. Eu tento fazer o meu trabalho à minha maneira, com os meus, e tentar oferecer as melhores condições para que o trabalho aconteça, que nem sempre acontece. Mas o caminho tem sido constante. Tem sido com algumas pessoas com quem me tenho cruzado e muitas que me acompanham desde o início, e que agora estão a apresentar os seus espetáculos também. Acima de tudo, sei que o meu caminho tem sido com muita luta e o mais justo possível comigo, e com quem trabalha comigo. Eu não acho que o que faço é a melhor coisa do mundo, mas é aquilo em que acredito, se não, não o faria. E isso é tão sagrado e sério, que é o o caminho que quero continuar a percorrer, com responsabilidade, mas também com alegria. Se deixar de ser bom, de haver brincadeira e alegria, deixa de fazer sentido. Vamos beber uns dos outros, porque é disso que o teatro é feito.

G. – Quando recebeste o prémio, recordaste a primeira vez em que te dirigiste a uma agência e te disseram que tinhas três características que te limitavam, as costas tortas, o facto de não dizeres a letra L e não teres uma aparência considerada de homem. Como é que um adolescente de 16 anos encara a situação e lhe dá a volta?

M.C.– Ser adolescente por si só é duro.  Com 16 anos, somos um embrião humanoide que acha que sabe tudo, mas estamos em construção. É quase como se te batessem, é violento. Na altura consegui identificar o porquê de ter as costas tortas ser um problema, mas há outra voz por dentro que se continua a questionar, mas só percebi a gravidade da situação quando comecei a ouvir outras experiências muito piores. Basicamente, apontam que tu, na tua existência, não és suficiente, quer seja pela etnia ou sotaque. As pessoas têm de perder um bocado da sua identidade para serem aceites, e isso deixa-me aflito. É quase como se as pessoas tivessem de perder a sua humanidade, e têm de se conformar para ser algo que não o que elas são. Isso é tão violento que percebi que não me interessava, principalmente trabalhar com pessoas que não querem trabalhar com o que eu sou. Sou uma imensidão de coisas, e não quero ser algo mais para além de mim próprio. Temos de ter muito cuidado com o que dizemos a um adolescente. Temos todos sensibilidade, e alguém dizer que não és suficiente é pobre e perigoso.

G. – Foi por isso que começaste também a agarrar em projetos independentes e criar também os teus?

M.C. – Sim, sem dúvida. Claro que também tem muito das condições em que trabalhamos. O ano passado foi a primeira vez que recebi um apoio para um espetáculo que vai ser apresentado este ano, e até agora temos estado a trabalhar a bilheteira. É muito complicado em termos de espaço e salas também. O primeiro espetáculo foi no Martim Moniz, numa espécie de atelier, o único que aceitava que o espetáculo fosse feito. Isso condiciona muito. Mas também porque celebro um teatro que é feito em liberdade, e o teatro independente tem esse lado, ali não tens de obedecer a nenhuma estrutura. Por exemplo, paralelamente ao teatro, trabalho numa loja e ontem, para poder receber o prémio, tive de trocar com um colega. Recebi um prémio, mas tive de fazer uma troca, a vida é assim. E trabalho na loja e de noite vou ensaiar. Claro que às tantas pensamos que é duro não viver só disto, mas ao mesmo tempo traz outras coisas. Eu sinto que olhando para o meu caminho, é inevitável não pensar nas condições em que trabalhamos, por isso cada vitória é mais um passo, mas amanhã a luta continua.

G. – Consegues nomear a peça mais desafiante ao longo do teu caminho?

M.C. – Como encenador, “É difícil para mim dançar”. Foi a única vez que trabalhei a partir de um texto de outro autor, é um espetáculo que adorava continuar a desenvolver, mas foi muito duro. Tinha muita coreografia, uma corrida durante 1h30 e um certo primor que me tirava o tapete. Eram 12 atores sempre em cena e eles estavam sempre em círculo, e eu não sabia como me pronunciar sobre a corrida, porque há dias em que as pessoas estão mais cansadas, eu próprio enquanto ser humano parecia-me violento dizer a alguém que não estava a correr bem. Era uma coisa estranha e difícil de falar. Esse espetáculo deixa-me, mas olho para ele e penso que consegui, tanto que o repusemos no ano seguinte. Como ator, o Pedro Batista tem sido uma pessoa com quem tenho trabalhado muito, e que me traz fé e vontade de trabalhar, trabalhamos em sintonia. É a pessoa com quem me fez sentido, enquanto ator, continuar esta caminhada.

G. – Começaste pelo cinema... Esta vontade de trabalhar em cinema perdeu-se ou ainda podemos esperar uma fusão entre o cinema e o teatro?

M.C. – Eu acho que todo o trabalho que tenho feito procura essa fusão. O cinema está muito presente, é aí que vou beber e buscar as minhas referências. Gosto de esbater a ideia de separar as duas linguagens, acredito na possibilidade de ligação e esbater códigos que associamos a cada um, criar algo híbrido, uma nova forma. Por isso, sem dúvida e quero muito, irei fazer um filme, em princípio para o ano, e será uma junção multidisciplinar.

G. – O que é que este prémio te vai permitir fazer?

M.C. – Será para um projeto que tenho idealizado para o ano, está na fase inicial por isso vou canalizar para aí. Vejo este prémio numa ótica de que este caminho foi reconhecido e estou com garra para continuar, e prosseguir. Vêm aí espetáculos, certamente, e tenho muita vontade de fazer, há muita história por contar e muitas pessoas que quero encontrar. Se alguém me disser que se quer cruzar comigo, é só isso que interessa. Cada projeto que idealizo é pensado com cuidado, e dou sempre tempo para perceber se as ideias permanecem.

G. – Há algo que gostasses de dizer aos ‘Mários’ de 16 anos que querem fazer do teatro a sua casa?

M.C. – Cada pessoa que decide iniciar a sua jornada e contar as suas histórias, é tão delicada e tão especial que tem de ser respeitada e escutada com atenção. Gostava que as pessoas procurassem o teatro fora das grandes salas e que o desconhecido seja motivo para ir ver, porque isso promove o alargamento. Para as pessoas que estão a começar, acho que ninguém pode contar a história melhor do elas. É dura a ideia de não nos encaixarmos, mas é importante seguir e manter a humildade e força, nunca deixando de olhar para o lado, para aqueles que estão desde o início. Se em algum ponto eu poder ajudar, dentro das minhas limitações, seja quem for, eu estou aqui. O teatro não é um caminho uno, é um caminho de sinergias.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Filipe Ferreira

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