A mãe chama-lhe “andorinha”, desde pequena. Na verdade, conhecemos Marta, a partir dos seus voos. Quando aterra, anda numa bicicleta com um fio de luzes, mas é por pouco tempo. O seu ar frágil e a sua caminhada leve não nos levariam a imaginar as histórias que lhe iluminam a rota, muitas das quais a países e países de distância. Com uma sensibilidade imensa, a sua escrita desce até ao lugar do disperso, do perdido, do silenciado. Para além de jornalista, trabalhou com organizações não-governamentais no Médio Oriente. Comprometida com os direitos humanos e a justiça social, deseja que as vozes que grava em palavras, chamem quem lê a procurar por elas, a puxar o fio até à fidelidade, quando a vida não sabe senão compreender-se em relação. Acredita que o reconhecimento da beleza, enquanto gesto de afecto, é a força para a reparação.

Os seus artigos já foram publicados no The Guardian, Al Jazeera, The Washington Post, Middle East Eye, The New Humanitarian, Qantara DW, Al Araby, News Deeply, Equal Times, Lomography Magazine, Latterly Magazine, Public Radio International, openDemocracy, The National, Al Monitor, AJ+Français, Buala, New Internationalist, Balkan Diskurs, Global Voices, Fumaça, Observador, Expresso, Público, entre outros.

Gerador (G.) – Quando te propus esta entrevista, apesar de nos conhecermos, reagiste com desconfiança e ressalvaste imediatamente que não querias que fosse focada em ti, mas nos problemas sobre os quais investigaste e escreveste. Porquê?

Marta Vidal (M.V.) – Acho que por um lado, me senti um bocado desconfortável por ser o foco das atenções. Acho que o mais importante são os temas com que trabalho, as pessoas que conheci, e não tanto eu, ou a minha experiência. Por outro lado tenho sempre bastante medo daquela tendência de criar representações de “salvadores brancos”, que valorizam mais a experiência de pessoas brancas, privilegiadas, que vão “ajudar” os outros noutras partes do mundo. Eu acho estas representações muito problemáticas, são imagens que acabam por reiterar as relações de poder e as desigualdades que existem, em vez de as questionar e desconstruir. Mas conhecendo-te bem, sei que terias cuidado para não perpetuar este tipo de imagens e estereótipos. Mas enfim, sinto-me sempre mais confortável a escrever e não a que escrevam sobre mim. Acaba por ser um bocadinho irónico, porque eu estou sempre a pedir às pessoas para escrever sobre elas, por isso é engraçado que me ponhas nessa posição. No fundo, acho também que senti que talvez não fosse uma pessoa assim tão interessante para entrevistar, e que há outras histórias que mereciam mais ser ouvidas, e que ainda sou nova e ainda tenho um caminho longo a percorrer…

G. – O que te levou a procurar histórias noutras geografias, sobretudo no Médio Oriente, preparando-te, para tal, com o estudo do árabe e o mestrado, que realizaste na Holanda, sobre esta região? Sei que o encontro com um refugiado palestiniano, quando chegaste a Lisboa, para estudar Ciências da Comunicação, foi um momento importante neste caminho…

M.V. – Eu quis questionar a forma como são vistas como representamos “outras” geografias. Uma das principais razões por que me interessei pelo Médio Oriente foi porque, quando comecei a estudar jornalismo, em 2012, o discurso à volta dos refugiados vindos do Médio Oriente estava muito presente na Europa e circulavam imagens muito negativas. O facto de serem representados como o “outro”, como uma ameaça, quase sempre de forma muito negativa. Eu queria desconstruir esse discurso, perceber melhor as histórias que estavam por detrás dessas notícias e representações.

Quando me mudei para Lisboa para estudar, uma das primeiras pessoa que conheci foi um refugiado palestiniano. Estavamos os dois deslocados, mas claro que eu escolhi deslocar-me, enquanto ele era apátrida, a família dele foi expulsa. Aperceber-me da profunda injustiça de ser apátrida e da violência do deslocamento forçado foi muito importante para mim, para de certa forma “acordar” para os meus vários privilégios.

Depois, por outro lado, há essa construção do árabe como o “outro”, e estando em Portugal, estamos num país que foi influenciado pelo mundo árabe, que tem uma história ligada à língua árabe, e que tem também um passado islâmico.

Queria pensar nestas questões, como forma de desconstruir essas narrativas do que é próximo ou distante. Já sentia uma certa proximidade afectiva por gostar muito da literatura árabe, da música, cinema e arte do Levante.

Por isso foram três coisas: primeiro, o momento político que vivíamos, de construção de um discurso contra os refugiados maioritariamente de regiões árabes e muçulmanas, pessoas que são construídas como diferentes e ameaçadoras, e do crescimento de discursos islamófobos e xenófobos na Europa. Por outro lado, os meus encontros com pessoas, livros, filmes, músicas e arte do Médio Oriente, especialmente do Levante, que me faziam sentir um grande interesse e admiração. E também, ainda a história portuguesa e o facto de sentir que há ligações muito fortes entre as duas margens do Mediterrâneo. É engraçado porque, enquanto estava a fazer pesquisa sobre o período Andalus português, descobri que a minha família tem herança judaica. Vidal tens origens judaicas, famílias que foram expulsas de Espanha e Portugal, ou que foram forçadas à conversão.

G. – Numa entrevista a “Ok, What’s The Next Step?”, referiste, que na Holanda, te sentias estrangeira e, no Médio Oriente, não. Como explicas esta sensação?

M.V. – Se calhar, exagerei um bocadinho. Mas, é esta ideia de desconstruir a forma onde pertences e não pertences. Algumas cidades onde estive, no Levante, parecem-me tão familiares e próximas, sinto um apego que não consegui sentir na Holanda, apesar de ter vivido lá bastante tempo. Há possibilidade de me sentir em casa num sítio que não tem necessariamente de ser próximo geográfica e culturalmente. É mais proximidade afectiva aos lugares. Posso sentir-me em casa num sítio que fica longe fisicamente, onde sinto maior proximidade afectiva.

G. – Que tipo de trabalho desenvolveste com as crianças na Palestina? De que forma o contexto sociopolítico deste território se manifesta nelas, no seu comportamento e no seu imaginário? Recordo o teu artigo “Palestinian children in Silwan ‘forced to grow up very quickly’” ….

M.V. – Primeiro, estive a trabalhar com uma ONG que, supostamente, iria trabalhar com crianças e jovens palestinianos. Mas, houve muitos problemas. A altura, em que estive lá, foi muito tensa. Morreu uma pessoa, abatida a tiro, num checkpoint, num posto de controlo do exército israelita, muito, muito próximo da organização onde trabalhávamos. Como essa senhora que foi abatida, houve outros casos de violência extrema contra palestinianos. Era preciso passar por esse posto de controlo para chegar à ONG e a maior parte dos pais não queria levar as crianças lá, porque tinha medo. Então, quase não havia trabalho. A maior parte dos programas recreativos e culturais foram adiados. Tive pouco contacto, pouco trabalho. Depois, escrevi essa reportagem sobre um bairro de Jerusalém, um dos mais tensos, onde há violência extrema para afastar os habitantes palestianos e instalar, no lugar deles, israelitas judeus, pessoas que sentem que têm mais direito àquela terra do que eles.  Tu sentes isso nas ruas, vês crianças a brincar perto de soldados. Depende da idade. Estive num centro onde as crianças eram muito pequenas e assustavam-se por terem soldados armados, lá fora, muito próximos. Mas, ao mesmo tempo, também vi crianças mais velhas, que cresceram neste ambiente, que já estão habituadas, a brincar como se não fosse nada, a jogar à bola, mesmo próximos de um sítio onde uns soldados estavam a revistar uma casa, a deixá-la em pantanas e as pessoas estavam muito preocupadas, à volta. Foi impressionante pensar no tipo de vida diária com que estas crianças crescem. Não só assistem aos abusos diários e sentem que podem ser expulsas das suas casas a qualquer momento, mas do tipo de futuro que vão ter, e a desigualdade de acesso aos serviços e recursos da cidade de Jerusalém. Apesar de ter só uma Câmara Municipal, os serviços são muito diferentes para israelitas judeus e palestinianos. As carências e desigualdades são muito óbvias entre as populações.

G. – A tua investigação de mestrado “Painting walls and sculpting barbed wire: Art in Palestinian refugee camps in Lebanon”, foi desenvolvida a partir do contacto directo com os habitantes e artistas destes. Que lugar a criação artística tem naqueles lugares? Como é vivida?

M.V. – Acho que, neste caso, o que me interessava mais era pensar nas diferentes formas que pessoas tão marginalizadas e subjugadas, como refugiados palestianos, que não só sofreram a perda das suas casas, uma perda gigantesca que é passada de geração em geração, porque não são reconhecidos como cidadãos em lugar nenhum, mas também a discriminação que vivem no Líbano por não serem reconhecidos como cidadãos, mesmo que tenham nascido lá. Então, interessava-me mais saber como é que estas pessoas que vivem estes abusos e privações diárias resistem, como transformam os seus lugares de residência. O que me apercebi foi que a arte tem um papel mesmo importante na causa palestianiana de, certa forma reiterar a memória da perda e da identidade palestiana como algo que não se silencia e não aceita ser apagada do território. Mesmo estando fora, estavam a afirmar a sua pertença, ao pintarem as aldeias de onde foram expulsos, símbolos do nacionalismo palestiniano…. Uma das pessoas mais interessantes que conheci, nesses campos, foi um escultor que pegava nos materiais do campo de refugiados. Explicou-me que, quando era muito novo, não tinha dinheiro para comprar materiais de arte, então usava basicamente o que estava no campo. Encontrava materiais, transformava-os e criava da forma que conseguia. Criava coisas mesmo bonitas com arame farpado, esses materiais que são hostis e duros, que não foram pensados para criar arte, objectos delicados e muito bonitos. Mas, eles fazem uso disso e transformam-nos, de maneira a que sirva as suas necessidades.

Foi por isso que me interessei tanto por este assunto. Faz parte daquela tentativa de não focar só o sofrimento, a privação, a violência, mas também a resiliência das pessoas lutam no seu dia-a-dia contra formas de opressão. No fundo, é o que me move mais, focar essas diferentes lutas e pensar como as apoiar, como mostrar solidariedade. O artista com quem falei não precisava, de todo, do meu reconhecimento, porque já era reconhecido internacionalmente e já tinha recibo prémios, mas há pessoas comuns, também, que no seu dia-a-dia faziam coisas parecidas, utilizam materiais do campo e pintavam, faziam pequenas esculturas, com símbolos da identidade palestiniana. Notei que estavam orgulhosos disso. Raramente as pessoas vão lá para focar os talentos do campo. Normalmente só se fala das coisas negativas, a violação dos direitos e a vitimização das pessoas que vivem lá. Para algumas pessoas, foi, de certa forma, mais positivo, esse foco no talento, na resiliência e na criatividade. São pessoas que não têm oportunidades nenhumas no Líbano. Estão proibidas de trabalhar em imensos empregos. Esse reconhecimento do talento, da capacidade, da criatividade e da resistência foi o que mais me interessou.

O jornalismo é poder. Ter o poder de decidir quem aparece nos jornais e como, nunca me deixa completamente confortável. Tentei que as pessoas que entrevistei sentissem que estavam a ser bem representadas, tentei não reproduzir as imagens e estereótipos que estavam cansados de ver sobre os campos de refugiados.

G. – Na Jordânia, onde estiveste até chegar a pandemia, trabalhaste com crianças iraquianas e sírias refugiadas e desenvolveste um projecto fotográfico, onde aprenderam a trabalhar com máquinas analógicas e a revelar. Como acolheram esta iniciativa?

M.V. – Foram duas fotógrafas jordanas-palestinianas que ficaram encarregues de ensinar. O meu papel foi coordenar a iniciativa. Acho que que gostaram do projeto, mas há tantas dificuldades para os refugiados na Jordânia. A vida é difícil, é mesmo difícil. As crianças que participaram no projecto nunca tinham ido a uma exposição, estavam quase sempre no bairro onde viviam raramente tinham oportunidade de ir para outros espaços. Ficaram bastante contentes por ir a uma exposição, aprender uma coisa nova, explorar a expressão artística e ver as fotografias delas publicadas. Fizemos uma exposição para os pais, também. Então, puderam convidar os pais e mostrar o trabalho deles. Ficaram contentes com o trabalho que fizeram. Infelizmente, por todas as dificuldades que há na Jordânia, não há oportunidade para demasiadas crianças. Havia crianças que não sabiam sequer ler e escrever. Já tinham faltado a tantos anos de escola, por causa da guerra na Síria ou conflitos no Iraque, que estavam mesmo atrasadas nos estudos, tinham mesmo perdido a oportunidade de continuar a estudar. Ao mesmo tempo, é aquela sensação de que um projeto destes é tão pouco… Estas crianças precisam mesmo de ir para a escola, de ter uma infância decente, de que os pais possam trabalhar, um sítio seguro e estável a que possam chamar casa…. Um projeto de fotografia não resolve nenhum problema. Mas claro que a ideia foi só criar uma actividade recreativa, um momento mais divertido, mas, ao mesmo tempo, tentar chamar a atenção para os problemas estruturias. A associação com que colaborei está a tentar, de certa forma, remediar alguns dos problemas dos refugiados. Mas, são problemas gigantescos. Há quase um milhão de refugiados lá e a Jordânia não tem a capacidade de apoiar todas estas pessoas, estão numa situação muito precária.

G. – Há algum traço comum nas imagens que procuravam captar?

M.V. – Um problema com o projecto foi que a organização tinha umas regras bastante rígidas, em relação à protecção das crianças. Então, não podíamos publicar retratos. Eles tiraram mesmo muitos retratos. A maioria das fotografias eram retratos ou auto-retratos. Uma das sessões fotográficas foi num parque muito bonito e eles queriam mesmo ser fotografados lá e capturar esses momentos de beleza.

G. – Procuras, muitas vezes, pela relação entre as comunidades mais esquecidas e sofridas e a arte. Que importância foste verificando que a expressão artística tem, particularmente, nestes casos?

M.V. – Está relacionado com os meus próprios interesses, o lugar onde a arte e a cultura encontram a política e preocupações com justiça social. Mas também se relaciona com o que procurei no campo de refugiados, no Líbano, ver a arte e a criatividade como uma forma de resistência, como uma forma de lutar pelos direitos e justiça social.

G. – Também na Jordânia observaste e escreveste sobre um encontro de homens refugiados, onde estes tinham lugar para expor a sua fragilidade, pois, geralmente, são vistos como o grupo emocionalmente mais resistente, inclusive pelas ONG’s, o que os coloca sob uma expectativa que é sufocante. Consideras que o apoio emocional é visto como algo secundário, pelas organizações e instituições que trabalham com pessoas que vêm deste tipo de contextos? O que viste acontecer nestes momentos?

M.V. – Quando me disseram que havia um grupo de homens que se reúne para falar dos seus problemas pessoas e íntimos, pensei que nunca me deixariam participar. Uma mulher estrangeira ali no meio, a ouvir histórias de homens sírios e iraquianos de meia-idade. Achei que a minha presença, ali, seria sempre muito estranha e pouco bem-vinda. Mas não foi. Fui muito bem acolhida. Eles disseram que gostavam de ter gente de fora e sentir que estavam lá para os ouvir. Essa ideia de ser ouvido, era muito importante. A pessoa que moderava os grupos fazia questão que as pessoas se sentissem ouvidas, criar um ambiente de confiança mútua, de respeito por todas as pessoas que participam. Fui só a uma sessão, mas eles já se estavam a reunir há anos. Foi interessante pensar nisso, de que há a ideia de que as mulheres e as crianças são sempre mais vulneráveis e os homens são mais fortes e resistentes. Mas, não é, necessariamente, assim. Em sociedades patriarcais há imensa pressão sobre os homens. O patriarcado também os afecta, com todas as expectativas que coloca sobre eles. Isso sentia-se muito claramente. Como os refugiados não podem trabalhar legalmente na Jordânia, há uma perda de identidade como aquela pessoa que trabalha e cuida da família. A perda dessa identidade é mesmo devastadora para muita gente. A ideia que tinham de si, como pai de família, marido, se se destabiliza, tudo se destabiliza na sua vida. Neste espaço, podiam partilhar as preocupações, mostrar-se vulneráveis, onde não seriam acusados de nada, nem se sentiriam menores por ser vulneráveis…. É um espaço aberto à vulnerabilidade, onde esta é cuidada, ouvida e respeitada.

Depois dessa sessão, falei com alguns dos homens que participavam. Foi mesmo chocante ouvir, por exemplo, um dos homens, que tinha cerca de 50 anos, dizer-me que aquele grupo tinha sido a primeira vez que falou dos seus sentimentos de uma forma aberta, sem se sentir constrangido. É um grupo que não seria apenas importante no contexto Médio Oriente e de refugiados, mas em todas as sociedades patriarcais.

Depois, juntei-me a umas amigas e fizemos um grupo para mulheres, nosso. Claro que a ideia é um bocadinho diferente, mais de partilhar as nossas preocupações como mulheres, os obstáculos nas nossas vidas, os problemas comuns. Se for um grupo organizado com boas intenções pode ser mesmo poderoso.

G. – É importante que um(a) jornalista de direitos humanos, que contacta com pessoas em situações de tanta fragilidade, não se desligue destas, depois de ter concluído o trabalho onde as envolveu?

M.V. – Sim. É uma questão mesmo difícil e que é uma coisa que me incomoda. Se escreves duas ou três reportagens por mês, falas com imensa gente e é difícil manter sempre contacto. Idealmente, seria importante manter contacto com as pessoas e criar uma relação além da profissional, não recolher as histórias e partir. Mas condições de trabalho que a maior parte de nós tem, de estar sempre a ter que escrever mais, é mesmo difícil estar a par de tudo e manter contacto com toda a gente.

G. – Já foste perseguida por causa de algum artigo?

M.V. – Até agora, não. A coisa mais negativa que aconteceu foi um artigo sobre Cashemira e os abusos que a Índia comete, em Cachemira. Não recebi directamente, mas uns amigos partilharam que comentários, tipo “que vergonha de jornalismo”, “só mentiras de propaganda anti-Índia”, basicamente de nacionalistas indianos e que não aceitam nenhum tipo de crítica às políticas ultranacionalistas indianas. Mas eu nem sequer prestei muita atenção.

G. – No artigo “«A língua do outro», escrito a partir de uma situação de discriminação, decorrente do desconhecimento da língua, podemos ler: “Lentamente, comecei a aprender algumas das particularidades da língua e a forma como é vivida no mundo árabe. Aprendi que no árabe há várias palavras para o verbo “amar”, dependendo da intensidade do sentimento, e que se diz “enterra-me” (يقبرني) , quando se ama tanto uma pessoa que não se suportaria viver mais tempo do que ela. Fui recebida em vários países, habibti “minha querida” (حبيبتي) de Marrocos ao Líbano, sempre com uma hospitalidade enternecedora. Fui “bem-vinda aos meus olhos”, (أهلا و سهلا في عيوني) e fui “luz” (نورتي). Uma mulher síria, refugiada na Turquia e a viver num apartamento minúsculo, deu-me as boas vindas dizendo que se não coubesse na sala podia deitar-me nos seus olhos. Amigos de Alepo ensinaram-me a perguntar “qual é a tua cor?” (شلونك) como quem pergunta como estás, e eu descobri que a minha cor é “como a tua cor” (مثل لونك). Aprender árabe é também aprender a abençoar a mão do outro (يسلمايدك) como quem diz obrigada, e que quando tenho fome “os pardais dentro da minha barriga estão a chilrear” (عصافير بطني تزقزق). É aprender que o que é dito com ênfase é multiplicado por mil, seja mil vezes obrigado, mil vezes de nada ou mil vezes bem-vinda.” Qual a tua percepção do estudo do árabe em Portugal e do interesse pela sua cultura?

M.V. – Escrevi um artigo [para a AlJazeera] sobre isso, sobre as pessoas que têm tentado, de certa forma, renovar o interesse nesse período da história e têm trabalhado nesse sentido, como o arqueólogo Cláudio Torres. Há pessoas que têm usado mais a cultura, a tradução, como Adalberto Alves, que é poeta e que traduziu poetas luso-árabes, do período Andaluz. Há um pouco mais de foco nesse período e uma tentativa de reavaliar a maneira como contamos a história, mas ainda continuamos muito apegados à narrativa da reconquista, de construir a identidade portuguesa em oposição ao mouro, de ver o período islâmico como um período de ocupação, de contar que fomos invadidos por exércitos islâmicos, que foram expulsos por cruzados e reis cristãos e que eles é que são os nossos antepassados. Essa narrativa é um mito, a de achar que estamos mais próximos dos reis cristãos, que vieram derrotar os muçulmanos, do que dos muçulmanos que viviam cá. Ainda estamos muito focados no mito da reconquista, pela perspectiva focada na identidade católica e de construir identidade nessa estrutura e ver o Islão como estrangeiro. A falta de mais interesse pela língua e pela cultura é mesmo uma falha aqui, em Portugal. Há poucos centros de estudo e poucas pessoas que estejam a trabalhar sobre isso.

O trabalho do Cláudio Torres, em Mértola, vem desmistificar essa ideia de que fomos invadidos e que depois, expulsamos os invasores. Ele vem mostrar que o Islão veio através das trocas comerciais, que não foi, simplesmente, expulso, que há um longo período de conversões. O trabalho que a arqueologia tem vindo a fazer tem mostrado que há várias camadas, que não se excluem umas às outras, necessariamente.

Havia um projecto de construção de um museu na Sé de Lisboa, que iria destruir os vestígios islâmicos que foram descobertos lá. É interessante pensar que a Sé de Lisboa foi uma mesquita, que o mesmo espaço foi partilhado por duas religiões, e, antes de ser mesquita, talvez teria sido igreja, e, antes dessa igreja, templo. É interessante pensar em todas essas camadas e como fazem todas parte da nossa arquitectura e da nossa história, como se sobrepõem. É mais interessante do que a narrativa nacionalista.

G. – Também não perdes Portugal de vista. Escreveste sobre os despejos e a gentrificação, no Porto, a falta de acolhimento dos refugiados, o preconceito em relação às comunidades ciganas, o passado muçulmano esquecido, por exemplo. Quais são os maiores problemas relacionados com os direitos humanos, que estão a ser marginalizados no debate público? E no que diz respeito ao passado, quais faltam desenterrar?

M.V. – O passado colonial e todas as relações de poder que estão relacionadas com isso. Acho que, cada vez mais, está a entrar no discurso público, mas ainda não é o suficiente, sobretudo quando tens os níveis de desigualdade que temos em Portugal, quando tens um país que foi a principal potência no tráfico de escravos… Vai haver, pela primeira vez, um memorial da escravatura, mas ainda não é suficiente. Com o crescimento da extrema-direita, isso tem-se tornado cada vez mais óbvio e urgente. Mas também o movimento negro anti-racista está a crescer e isso é muito importante focar.

G. – Já viste o fruto do teu trabalho. Depois de teres publicado, no Fumaça, a reportagem sobre o genocídio Yazidi, a deputada Maria Manuel Rola, do Bloco de Esquerda, a única que respondeu aos teus pedidos de entrevista, levou a proposta de reconhecimento deste crime ao parlamento, a qual foi aprovada por unanimidade. Há outro exemplo onde tenhas sentido que o que escreveste impulsionou uma mudança?

M.V. – Este reconhecimento devia ter sido feito antes, só que foi adiado ou tinha ficado esquecido. Sinto que o que permitiu que fosse reconhecido foi o trabalho feito antes, de pessoas como a Teresa Violante, responsável pelas Conferências do Estoril, que trouxe sobreviventes yazidis a Portugal e arranjou reuniões entre elas e os deputados portugueses. A reportagem só veio ajudar a lembrar que essa promessa tinha sido feita antes.

Às vezes não tem de ser algo óbvio e concreto, visível. Pode ser um e-mail de alguém que gostou de algo que escrevi. Isso aconteceu bastante com um artigo que escrevi sobre a herança islâmica em Portugal, na Al Jazeera. Pensei que estava a escrever para um nicho e que poucas pessoas se iriam interessar sobre o tema. Estava a escrever em inglês e era mais para uma audiência internacional. Sinto alguma dificuldade em conseguir encomendas de jornais internacionais de artigos sobre Portugal. Há muito interesse no Médio Oriente, por questões geopolíticas, mas Portugal normalmente não está na agenda mediática internacional. Fiquei mesmo surpreendida porque tive gente de diferentes partes do mundo a contactar-me, desde o Bangladesh até ao Canadá. Acho que tem que ver com o tema, o de uma herança partilhada e de escrever contra identidades fechadas e nacionalismos. É algo com que muita gente se identificou. Não foi tanto por ser sobre Portugal, mas pelos temas mais alargados que a reportagem explorava.

G. – No artigo “Reporting on Hope”, referes a falta de empatia no tratamento jornalístico de questões socio-políticas muito graves, o que, consequentemente, não contribui para gerar empatia nos leitores e nas leitoras, logo um envolvimento, essencial para uma mudança. Como se cultiva a solidariedade e a proximidade, através da escrita?

M.V. – O acto de ler é fundamental para desenvolver empatia, essa capacidade para se colocar no lugar do outro. Acho que a falta de empatia está relacionada com o modelo de jornalismo que temos. Temos notícias de última hora, muito focadas em acontecimentos isolados, como se não fizessem parte de estruturas. Sinto falta de um tipo de jornalismo que não deixa as pessoas a sentirem-se sobrecarregadas de informação, de notícias de última hora, mas permite espaço e tempo para perceber as histórias que estão a ser contadas, os contextos, as estruturas em que estes acontecimentos ocorrem.

Acho também que o tempo que passamos nas redes sociais afecta a nossa capacidade de sentir empatia e compreender o mundo à nossa volta. Acho que o acto de escrever com tempo para a reflexão e cuidado é muito importante.

G. – Há abertura da imprensa portuguesa para as tuas propostas?

M.V. – Não tenho tido uma oportunidade desenvolver uma relação maior com a imprensa portuguesa. Por um lado, deve-se ao facto de não ter estado em Portugal nos últimos cinco anos. Por isso, não tenho assim tantos contactos na imprensa portuguesa e não tenho acompanhado muito o que se tem feito cá. Mas também ainda não sei muito bem como encontrar um lugar para mim na imprensa portuguesa, agora que estou de volta a Portugal. Não sei se partirá só de mim procurá-lo.

G. – Mas, quando envias propostas, são aceites?

M.V. – Como tenho estado fora, raramente tenho enviado propostas para a imprensa portuguesa. Mas algumas, sim. Houve interesse do Fumaça, pelo projecto sobre o genocídio Yazidi, que para mim foi muito importante. E do Expresso, por uma reportagem sobre a herança islâmica, bem como algumas outras reportagens sobre outros temas e para outros jornais e plataformas.

G. – Neste momento, estás a trabalhar na área da produção de um projeto de arte relacionado com a Palestina e Israel, em Lisboa. De que projecto se trata?

M.V. – Estou a colaborar com um colectivo de artistas e curadores, que desenvolveu um projecto chamado Uncommon Ground, que explora a inscrição da arte sobre o território que é conhecido como Palestina ou Israel. É um projecto com financiamento da DGArtes e da Câmara Municipal, e que vai trazer a Lisboa artistas e autores palestinianos e israelitas. Fiquei muito entusiasmada com o projecto porque me identifiquei logo com a forma como trabalha algumas das questões que mais me interessam – o espaço onde a arte e a política se encontram, o arte ao serviço da luta pela justiça social e pela igualdade, a arte contra o colonialismo, a opressão e a desigualdade, a produção artística como forma de solidariedade. Tive imensa sorte por encontrar este projeto e poder trabalhar com estes curadores e artistas. E acho que vai ser um projeto muito especial em Portugal, porque há pouco conhecimento sobre a Palestina e Israel, em Portugal, e porque este debate é neste momento muito importante. Estamos a planear um conjunto de exposições, conferências e eventos sobre a Palestina/Israel que começam este mês com uma exposição de Ariella Azoulay no Arquivo Fotográfico, e que se vão prolongar ao longo de vários meses, em vários espaços culturais em Lisboa.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia da cortesia de Marta Vidal