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Sílvio Rosado, músico, e Tiago Pereira, documentarista, criam uma performance audiovisual a partir das gravações…

Texto de Andreia Monteiro

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Sílvio Rosado, músico, e Tiago Pereira, documentarista, criam uma performance audiovisual a partir das gravações de práticas musicais ou ambientes sonoros de um determinado local. Construindo, por um lado, um arquivo vivo de documentos de uma música/sonoridade identitária local, que pode ser consultado e que mantém a memória viva e, por outro lado, a desconstrução desse mesmo arquivo/memória, permitindo que a comunidade se reveja e se questione e, ao mesmo tempo, criando um espaço lúdico de fruição onde se pode dançar a memória ou seguir uma história.

No dia 3 de setembro lançaram o álbum Cavalo de Tróia. São doze músicas produzidas entre 2018 e 2019, misturadas por Bruno Lobato a.k.a. Beat Laden, lançadas, unicamente, no Bandcamp da MPAGDP - Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, no dia de aniversário de Tiago Pereira para que os 48 anos lhe corram bem.

Gostando de experimentar mundos e de estar permanentemente a mudar, numa procura de algo novo, este disco é uma homenagem ao projeto Megafone, de João Aguardela, e tem a premissa da ficção científica por ele lançada: e se de repente a música portuguesa fosse construída através da memória coletiva de um povo? E fosse misturada e proposta para que as pessoas a pudessem dançar? Como se dança com o poema do avô? Com a cantiga da avó?

Fica com a sua seleção de 10 músicas, aqui:

As escolhas do Tiago Pereira

Pop dell´Arte, "Querelle"

"João Peste e uma liberdade musical única dos anos 80. É um dos melhores discos portugueses de sempre, free pop, e um grande manifesto musical. Lembro-me da euforia da altura com este disco e do quanto ele foi importante nos 30 anos seguintes. Para mim, um marco da música feita em Portugal. Era muito solto, livre, misturado, sem preconceitos. Um manifesto de pura liberdade. E era preciso hoje algo assim."

B Fachada, "Prognósticos"

"Se há uma música que reflita totalmente o momento que vivemos, é esta. Lançada este ano, mostra o génio trabalhador da palavra, o manifesto do músico que aposta no trabalho, no escrever bem em português, na produção, em vez de apostar no marketing, no invólucro. O B Fachada mostra-nos que é possível uma outra alternativa musical a esta, muito marcada pela indústria em crise, que aposta muito no aparecer, no produzir outros produtos que já não são o cerne, já não são a música. A melhor música de 2020, para mim."

Armando Torrão, "Roubei-te um Beijo" OUVE AQUI

"As canções viajam, esta seguramente viaja muito, são muitos os que a cantam, Celina da Piedade, Buba Espinho, António Zambujo, mas eu gravei-a com o seu autor e o vento suão caiu em mim. A moda arrastada ficou, sentindo todo o Alentejo no esplendor. É bom que veja o mundo mas que nos faça sentir de ali. É claramente uma canção daquelas em que é preciso estudar muito, as relações da música com as emoções."

Meta, "Nós somos"

"Fazer música hoje respeitando o passado, as raízes, a memória, os afetos, sem regras, sem amarras. A tradição é uma prisão, mas para a Meta não. O que ela faz com esta música é um exemplo de como pode lá estar tudo, sem se estar preso."

Megafone, "Aboio"

"Ao João, devemos-lhe muito, ele lançou este repto para cima da mesa, e se tivéssemos cuidado, analisado, estudado a sério a nossa música de raiz mais popular para fazer uma grande biblioteca de memória coletiva, como seria a música portuguesa hoje. A pergunta continua em cima da mesa. E se o Fachada escreve e escreve e a Meta é livre, ainda há muito para fazer."

As escolhas do Sílvio Rosado

Carlos Paredes, "Verdes Anos"

"É uma música que me leva sempre para o momento em que deixei de ser adolescente. Esta música é uma espécie de poesia que me ajuda a cair... O Carlos Paredes e a sua guitarra portuguesa controlam tudo quando o seu som e a sua alma aparece e me leva... É uma obra prima."

Filho da Mãe, "Mali" OUVE AQUI

"Esta música é incrível, porque o guitarrista cria o seu discurso, a sua linguagem, é como se os seus sentimentos fossem todos aglomerados e transformados em pureza sonora. Para mim, é um guitarrista mundialmente incontornável. Já o ouvi ao vivo e é uma cascata da natureza."

Bernardo Sassetti, "Noite"

"Música extraída da banda sonora do filme 'Alice'. Música que tenho por hábito ouvir como remédio para o coração. Na minha perspetiva, é uma fuga, termo do universo da música clássica."

Dead Combo, "Povo Que Cais Descalço"

"A primeira vez que os ouvi e vi foi numa reunião que fui ter com o poeta e mentor da revista Bíblia, Tiago Gomes, por volta de 2005. Esse encontro foi na fundição de obras à noite dentro de um andar gigantesco. Nesse hangar, tinham uma tenda e no interior dessa tenda um pequeno palco com velas e algumas cadeiras para o público. Foi mágico. Esta música tem esse lado espiritual que eu tanto gosto, música mágica com ferrugem e patine que nos faz acreditar e andar em frente."

Allen Halloween, "Zé Maluco"

"Esta canção é incrível e a letra toca-me. A voz do Allen é incrível e estranha, gosto deste caráter de estranheza. Parece que está sempre uma oitava abaixo. E as letras são pura alucinação, remete sempre para o universo “Sin City”."

Fotografia da cortesia de Sampladélicos

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