Sentem no peito um batimento forte, um palpitar de revolução e resistência. Existe nelas a herança de um passado de desigualdades sociais, que se transporta para o presente como uma sombra que teima em perseguir. Há um fio da vida que une os seus corações, que as chama a transformar o mundo à sua volta. Esta é a história das “rainhas do agora”.

O filme “Mulheres do Meu País”, publicado em 2019 pela realizadora portuguesa Raquel Freire, deu origem à trilogia “Histórias das Mulheres do meu País”, que estreou este ano na RTP, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Na seleção criteriosa que levou à montagem dos três capítulos estiveram mais três mulheres, Maria Inês Gonçalves, Clara Jost e Rita M. Pestana. A série-filme conta ainda com a colaboração da jornalista Sofia Branco, a animação corealizada por Tainá Maneschy , a criativa Ana Neves e a música de Joana D Água, entre outros envolvidos no projeto.

Uma produção da Associação Espaços com o apoio da Secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade, Rosa Monteiro, a minissérie documental é um retrato diversificado de 12 mulheres que habitam o nosso país, onde histórias individuais se cruzam com múltiplas opressões e determinações sociais. São, no seu conjunto, um retrato das desigualdades estruturais do país e um exemplo de emancipação, coragem e luta pela felicidade. Todos os capítulos já se encontram disponíveis na RTP Play.

”Não vou deixar que nos apaguem da história”: as mulheres mudam, o país é o mesmo

A inspiração do projeto de Raquel Freire reside na obra homónima “As Mulheres do meu País”, de Maria Lamas, uma das primeiras mulheres jornalistas que construiu a sua carreira em plena ditadura. Publicado entre os anos de 1948 e 1950, o livro acompanha a realizadora há várias décadas, sobretudo pela “visão profundamente feminista de igualdade e de liberdade” da autora.

“Olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras mulheres: umas resignadas e heroicas na sua coragem silenciosa; outras indiferentes, entorpecidas.
Procurei conhecer e sentir as suas vidas (…) as suas aspirações ou a sua falta de aspirações, sintoma alarmante de ignorância, desinteresse e derrota.”
Maria Lamas (1948)

Durante o Estado Novo, mulheres portuguesas foram retratadas no trabalho de investigação de Maria Lamas, numa análise imersiva das condições económicas, sociais, culturais e políticas dos rostos femininos que compunham o país. Da camponesa à operária, da doméstica à artista, eram histórias reais pela primeira vez contadas por escrito. Cerca de 70 anos separam a obra de Maria Lamas e o filme de Raquel Freire. O que mudou?

“Não vou deixar que nos apaguem da história. Mas mais importante: estas pessoas existem hoje, lutam por uma vida mais digna para as suas famílias, comunidades, para todas. Escolheram viver aqui, como eu, e muitas nem direito à cidadania conseguem, apesar de trabalharem como novas escravas, da limpeza à arte.
São heroínas anónimas.”
Raquel Freire (2021)

Adelaide Costa, mulher da Equipa de Salvamento dos Bombeiros de Ponta Delgada - Capítulo 3

“Nossas horas são histórias, quem quiser pode ver”

Há nas “Histórias das Mulheres do meu País” uma vontade incessante de não deixar esmorecer uma narrativa de luta pela justiça social, pelo fim da opressão e desigualdade, que vai muito para além do universo feminino — é uma história da humanidade.

O país é nomeado neste projeto como o lugar a reclamar, o espaço de liberdade, solidariedade, onde milhares de pessoas deram a vida para que as gerações futuras possam estar aqui, hoje. “Eu reclamo este país, é meu. Quanto mais eu viajei e me apaixonei por outros, mais eu ganhei a consciência da necessidade fundamental de, como cidadã e artista, reclamar o direito ao meu país”, confessa Raquel Freire.

“Fui ouvir o que têm para contar as pessoas que, historicamente, como eu, nunca foram ouvidas: as mulheres que escolheram viver neste território físico e simbólico. Com essa vontade de escuta ativa e de diálogo, criando pensamento crítico”, afirma a realizadora, a propósito do percurso do filme, agora transformado em trilogia documental.

Trailer da trilogia de Raquel Freire, "Histórias das Mulheres do Meu País"

12 testemunhos cruzados: os retratos vencedores da desigualdade

Pescadoras e escritoras, bailarinas e empregadas de limpeza, agricultoras e bombeiras, empresárias e estudantes, líderes comunitárias, jovens a conquistar espaço no universo do rap e ativistas ambientais, mulheres trans, lésbicas, mulheres com diferentes capacidades físicas e motoras, mulheres brancas, negras, ciganas. Todas elas são retratos vencedores, na simplicidade de quem sobrevive em tempos de profunda desigualdade social.

Existe algo comum a todas, “uma força e capacidade de olhar o mundo à volta, de o compreender e de o transformar”, explica Raquel Freire, realizadora da trilogia “Histórias das Mulheres do Meu País”. Na voz de cada uma destas mulheres encontramos uma riqueza de vivências, que nos concede a oportunidade de reconhecer um “legado de confiança, justiça, perseverança, respeito e liberdade.” É através delas que o mundo se altera, através da sua coragem, perspicácia, inteligência e resiliência na luta contra as desigualdades. São mulheres vencedoras.

Clara Queiroz, mulher ativista antifascista que viveu o ditadura e lutou por abril - Capítulo 1

No primeiro capítulo conhecemos Maria José Neto, Clara Queiroz, Maria João Pereira e Toya Prudêncio. Seguem-se mais quatro mulheres, as histórias de Leonor Freitas, Maria do Mar Pereira, Márcia Sousa e Lúcia Vaz, que preenchem o segundo capítulo da trilogia “Histórias das Mulheres do Meu País”. No terceiro e último capítulo visitamos a vida de Alice Azevedo, Adelaide Costa, Ângela Pica e Mynda Guevara.

Exploremos a síntese das histórias de quatro destas mulheres ao longo dos três capítulos, Toya Prudêncio, Maria do Mar Pereira, Alice Azevedo e Mynda Guevara, numa aproximação às suas lutas individuais, características singulares e sonhos.

Os milagres que elas fazem sem dizer

Mãe, mulher de etnia cigana e estudante da Licenciatura em Educação, na Universidade Aberta do Porto. “Sou muita coisa ao mesmo tempo”, reconhece Toya Prudêncio. A dificuldade no acesso ao trabalho é um reflexo da dupla discriminação a que está sujeita, sendo mulher e cigana.

Toya ganhou o Prémio Letras Nómadas em 2017 e trabalha atualmente como Dinamizadora Comunitária do Programa Escolhas, onde promove a inclusão social junto de crianças. A educação é o elemento chave na mudança que quer ver no mundo.

“A educação é um fator empoderador das mulheres. Conhecendo aquilo que nos rodeia, também conhecemos os nossos direitos e já podemos lutar por eles” Toya Prudêncio

Toya Prudêncio recorre a um livro sobre a juventude cigana para explorar com as crianças do projeto - Capítulo 1

Emigrante portuguesa em Inglaterra, é socióloga e diretora adjunta do Centre for the Study of Women and Gender. Maria do Mar Pereira é uma crítica atenta dos estereótipos que se sentem no ambiente do ensino superior, identificando a falta de oportunidades nacionais para a área de investigação do Género e Sexualidade. A mesma área que lhe valeu três prémios internacionais em 2017, 2018 e 2019.

Maria confessa que “Portugal é um país extraordinário, mas é um país onde é muito difícil, como mulher, encontrar um espaço para transformar as coisas.” Apesar de não conseguir trabalhar no seu país como investigadora, continua a dar palestras em universidades portuguesas.

“O feminismo é não existir em piloto automático, não aceitar o mundo como ele é e tentar fazer as coisas de uma maneira diferente. É fazer perguntas: porque é que fazemos isto? E depois, na base destas perguntas, dizer: como é que podemos fazer diferente?” Maria do Mar Pereira

Maria do Mar Pereira fala-nos do sonho de um mundo livre de estereótipos - Capítulo 2

- “Sou transfeminista porque quero lutar por uma sociedade que respeite toda a gente.”, diz Alice Azevedo, mulher trans, ativista e estudante de Artes de Espetáculo na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

É na descoberta de si própria que se encontra com o ativismo, através do coletivo Panteras Rosa, que lhe deu as ferramentas necessárias para pensar e defender os seus valores. Referências como Jo Bernardo, Lara Crespo e Eduarda Santos, pautam o caminho em construção contra a transfobia, que Alice continua a desbravar enquanto projeta a sua voz na Marcha de Orgulho LGBT+ de Lisboa.

“Falhar neste sistema pode ser um sinal de sucesso, porque falhas num sistema que não está feito para ti, logo mostra que não vendeste os teus valores e continuas a tentar mudar o mundo todos os dias” Alice Azevedo

Alice Azevedo a agradecer a homenagem dos amigos "Fado Bicha" - Capítulo 3

- “Guevara é a minha atitude no que faço, vou atrás de coisas que muitas de nós não têm coragem de dizer.” É a garra de Mynda Guevara, mulher africana e rapper. LBC foi o seu primeiro contacto, o impulso para chegar ao estúdio do Bairro da Cova da Moura e começar a gravar.

É uma sonhadora que deseja não ser esquecida. Escreveu “Ken Ki Fla”, uma música inteiramente feminista que fala sobre mulheres no universo do rap, e que é o segundo single oficial do EP “Mudjer Na Rap”. Quer manter-se exemplo para todas e todos, “com força, foco e fé, de rima a rima”, há de parar o país.

“Eu faço rap como eu quero e digo o que eu quero. Escrevem-me a dizer que sou a voz das mulheres. Sou mulher, sou negra e sou de um bairro. O meu maior sonho é deixarem-me sonhar.” Mynda Guevara

Mynda Guevara no estúdio do Bairro da Cova da Moura, onde se iniciou no rap - Capítulo 3

Sororidade: a palavra transversal que une as mulheres

No presente, são permanentemente acrescentados significados aos diálogos sociais. Esses novos conceitos acompanham a mudança dos tempos, a necessidade de nomear coisas que, muitas vezes, já conhecíamos sem saber que existiriam nomes para elas.

No artigo “Dicionário Feminista”, da jornalista Beatriz Lourenço, uma publicação da revista Galileu do ano passado, encontramos a palavra transversal a todas as intervenientes das “Histórias das Mulheres do Meu País” – sororidade.

A sororidade é a empatia e solidariedade feminina, significa a união entre as mulheres. “Não estamos sozinhas na vida. É o equivalente à fraternidade, que vem dos fraternos, os irmãos. As irmãs, «sorelas», é sororidade. Todas por uma e uma por todas”, ilucida-nos a realizadora, ao constatar que, de facto, é a sororidade que sustenta e une estas “heroínas anónimas”.

Ângela Pica (à direita), abraça a sua amiga da Casa Abrigo, após o julgamento de violência doméstica - Capítulo 3

Há neste retrato tão humano e real um fator que nos interpela a olhar em volta, a identificar a desigualdade social no que nos rodeia. Os testemunhos de resistência destas mulheres, habitantes do nosso país e parte da sociedade, conduzem o espectador por uma viagem de emoções, que nos faz sorrir e, momentos depois, nos dá um valente murro no estômago.

É inevitável observar que as histórias destas 12 mulheres se entrelaçam e complementam, como linhas de vida que entram em diálogo e se direcionam, juntas, para um único sentido – a felicidade. Afinal as “Histórias das Mulheres do Meu País” são as histórias de tantas outras mulheres que, mesmo sem saberem, são “rainhas do agora” e do futuro.

Texto de Ana Mendes
Fotografias da cortesia de Raquel Freire

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