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Opinião de Paulo Pires do Vale

O hóspede estrangeiro.

Onde se descreve o carácter transgressor de certas obras de arte, sem nunca se explicitar…

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Onde se descreve o carácter transgressor de certas obras de arte,

sem nunca se explicitar que é sobre arte que aqui se trata;

e onde se retomam, sem o dizer: a afirmação de Proust de que

os bons livros são escritos numa espécie de língua estrangeira

e a constatação de Rilke de que há obras de arte que clamam “Muda a tua vida!”

1.Teorema:

Um elemento estranho a um determinado organismo, depois de acolhido como hóspede, altera as qualidades, não apenas do conjunto, mas de cada um dos membros que o constituem. Essas alterações permanecerão, mesmo depois da retirada desse corpo estrangeiro.

2. Demonstração:

Uma família italiana da burguesia industrial abastada, mas “pobre em espessura e tonalidades”. Pai, mãe, filho, filha e empregada. Em tudo, membros de um grupo social que os enquadra, reconhece e classifica. Todos no seu lugar. Um dia, recebem em casa um hóspede. Parece esperado, já conhecido, mas há nele a dimensão do estrangeiro. Tem a estranheza da beleza excepcional: “Observando-o bem dir-se-ia, de facto, ser estrangeiro, não apenas pela sua estatura e pelo azul dos olhos, mas por ser totalmente desprovido de mediocridade, não existir qualquer possibilidade de identificação e de vulgaridade (...). Ele é, em suma, socialmente misterioso, embora ligue perfeitamente com todos os outros que estão à sua volta naquele salão (...). A sua presença ali, naquela festa absolutamente normal, é por isso quase escandalosa: mas de um indecoro ainda agradável e carregado de um suspense benévolo.”(...) “Enfim, dele não saberemos nada; e, aliás, não é necessário sabê-lo”[1].  O que ao fim saberemos é que os membros daquela família serão transformados pela sua presença, pela relação com aquele hóspede estrangeiro. Para todos tornar-se-à instrumento de reeducação: o que implica a desaprendizagem, a desordem e a reconstituição do horizonte de possibilidades, e do modo de nele se orientar. O amor e a entrega ao hóspede misterioso não deixarão pedra sobre pedra.

3. A ideia de si.

O hóspede vem destruir a ideia que tinham de si mesmo. E consegue-o porque, como lhe diz um dos membros, “tu te dás inteiro a cada um”. É uma estranha “presença consoladora” que destrói a lei dos papéis sociais para reconstituir a figuração que fazem de si, dos outros, da existência. Destrói sem maldade. Destrói porque a casa estava mal fundada sobre areia. A podridão escondia-se por detrás da fachada asseada, e ele revela a verdade. Sem sombra de mal. Ele não representa. Ele é, simplesmente, aquele que é. E parte como chegou, de repente. Não voltará. Deixa-os consigo mesmo. Tornam-se santos, artistas, promíscuos, doentes... Outros. O acolhido, afinal, revela-se como aquele que “estrangeira”. É o mediador que permite a cada um perceber o outro que transporta em si.

4. Testemunho:

“Estou destruído, ou pelo menos transformado

ao ponto de não me reconhecer, porque em mim

está destruída a lei, que

-até este momento-

me tornara irmão dos outros

(...).

É, portanto, através da destruição de tudo isso

que me tornava igual aos outros,

que eu me torno

-coisa inaudita e inaceitável – um DIFERENTE”[2].

5. Corpo.

Esta demonstração do Teorema foi realizada por Pier Paolo Pasolini em 1968. Era-lhe evidente – como aos estudantes nas ruas de Paris - que a mudança nunca poderia ser algo de mental ou pretensamente espiritual, desenraízada do corpo. A revolução da vida implica uma alteração da vivência incarnada. Uma relação nova com o mundo através da fragilidade e da força da sexualidade, da afectividade e do desejo. Experiência de nudez. As verdadeiras revoluções não alteram apenas a linguagem, mas também o corpo. Aliás, ele é a porta da alter-ação, pessoal e social. Corpo em abertura – que não nega um reduto de segredo, e que recusa a coisificação.

6. Presença.

O modo de presença do hóspede estrangeiro é hospitalidade. E nada mais sedutor e perturbador. Acolheu cada um e guiou-os para o deserto[3]. O lugar onde puderam sentir: “eu estou repleto de uma pergunta a que não sei responder”[4].


[1] Pier Paolo Pasolini, Teorema. trad. de Ana Tanque. Vila Nova de Famalicão: quasi edições, 2005, pp.21-22 (romance escrito durante a realização do filme com o mesmo nome).

[2] Ibidem, p.73

[3] e não por acaso, a citação que acompanha o filme e o livro é Êxodo 13, 18.

[4] Ibidem, p.141

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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