Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Ó LEITOR – AUTISMO

Comprei este livro numa livraria lisboeta. Não foi numa dessas que toda a gente conhece….

Texto de Margarida Marques

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Comprei este livro numa livraria lisboeta. Não foi numa dessas que toda a gente conhece. Os preços dos livros, na loja a que me refiro, estão estampados nas primeiras páginas. No entanto, quando comecei a folhear, não encontrei o preço. Quanto custa?, perguntei ao livreiro. Respondeu-me que não havia escrito o valor nas primeiras páginas para não estragar as ilustrações que dão início à história. De alguma forma, senti que existia ali um cuidado especial com o objecto livro, que a livraria não se resumia a um lugar que deve beber lucro, mas que olha para as páginas como parte de um todo muito importante. Saramago dizia que temos a mania de romantizar tudo, talvez seja o que estou a fazer.

Não vou aqui escrever sobre o autismo. Sou ignorante nesse aspecto. Além disso, este livro é muito mais, embora o tema central seja esse. Começo por lembrar uma expressão muito utilizada quando alguém questiona o sexo de um bebé que, eventualmente, vai nascer: “é menino ou menina? O que interessa é vir com saúde!”

Espera-se sempre que, do nascimento, venha um ser humano quase perfeito, sem limitações, pronto a crescer, forte, preparado para dar cabeçadas à vida. Rogério e Marta, pais de Henrique, não tiveram essa sorte. Aperceberam-se de que aquela era uma criança diferente das outras. Dessa condição, surge um mundo novo, duro, cruel. O casamento é colocado constantemente à prova, as relações humanas transformam-se de dia para dia, como se descessem uma escada sem retorno.

Valério Romão destapa, nestas 353 páginas, a condição humana. O egoísmo, sobretudo, comum a pessoas tão diferentes, que aqui se lê como uma farpa que se crava na realidade. A nossa realidade.

Convido-vos a ler este excerto da página 20 e 21, que vive na voz de Abílio, avô de Henrique:

“Nós somos assim, cheios de pressa de barrar a manteiga, de dar conselhos, de mudar uma porta de sítio para reconfigurar a geometria doméstica. Como toda a gente, temos planos, e são eles as âncoras que jogamos rente ao futuro, para nos movermos à força de braços para lá. Os mais novos, é claro, têm planos feitos da mesma imprestável merda, mas envernizam-nos com uma camada sonhada de grandiosidade que consiste em chegar a chefe de repartição ou em comprar uma casa maior. Na verdade, todos os sonhos são ridículos e é o ridículo que nos move, mas os velhos riem dos novos e os novos riem das crianças, e o riso é intergeracionalmente estanque, e é isso que mantém o circo a funcionar em contínuo (...)”

A narrativa conta-nos os pontos de vista das várias personagens. Todas elas me levaram, enquanto leitor, a olhar o problema de diferentes perspectivas. O amor que se sente pelo Henrique existe, é genuíno, penso que essa força se aplica a toda a família. No entanto, como vamos aprendendo ao longo da vida, os afectos mais fortes também nos podem trazer tristeza, luta, frustração, desejo de morrer.

O autismo não é o único problema de uma casa. É esclarecedor pensar que essa é uma condição que, enfim, não se pode decidir ter ou não ter. Se assim fosse, não existia. No entanto, aquilo que somos para os outros, aquilo que fazemos a respeito das nossas vidas, dependerá da nossa bondade, da nossa maldade, do nosso egoísmo, da nossa esperança. Não deve existir culpa na inocência.

Dário Moreira

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

29 Setembro 2026

“O Livro Obrigatório”: Nuno Artur Silva é o próximo convidado do ciclo de conversas na Amadora

25 Setembro 2026

Indignação

25 Setembro 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

24 Setembro 2026

Dar uma volta com Joaquim Pinheiro

24 Setembro 2026

Mariana Alvim convida Margarida Damião Ferreira para clube de leitura ao vivo na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora

24 Setembro 2026

EMAP lança candidaturas para residências artísticas em 2027 com apoios de 8.000 euros cada 

22 Setembro 2026

Festa do Livro da Amadora: diferentes identidades dialogam através da arte e literatura

18 Setembro 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

17 Setembro 2026

Estamos a perder direitos? Recorda a última edição das Residências Insubmissas Gerador

17 Setembro 2026

OASis Lisboa: inaugura a 7 de outubro a exposição Matéria Comum, no Goethe-Institut, em Lisboa

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0