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Opinião de João Teixeira Lopes

Os pobres na praia

Não é só no Rio de Janeiro que existe uma sociedade de praia, recheada de…

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Não é só no Rio de Janeiro que existe uma sociedade de praia, recheada de modos de estar, rituais e distinções, que vão do lugar que se ocupa no areal, às indumentárias de veraneio, posturas corporais, artefactos mobilizados para o culto do corpo e estilos de ocupação do tempo de lazer. Se olharmos os nossos areais de hoje facilmente constaremos que as classes sociais se relacionam com a praia de maneiras assaz desiguais, marcando territórios, estabelecendo distâncias e urdindo silenciosos fechamentos.

Lembro-me bem das praias do Norte, na minha adolescência (anos 80). Muito cedo, antes dos demais, camponeses e operários (e operários que eram camponeses), em carros velhos ou, sobretudo, transportados pelas carreiras de autocarros, ocupavam o areal com os seus pertences. Não possuíam roupa de praia; as vestimentas eram as de um dia normal de trabalho e estabeleciam uma continuidade com o quotidiano de sempre. Muitas das mulheres mais velhas usavam ainda um lenço preto à cabeça. Conforme se despiam (alguns mantinham parte da roupa, a camisa ou a saia) mostravam a pele alva, em contraste com os braços e pescoços torrados de Sol da jorna laboriosa. Desajeitados, como que revelando falta de à-vontade num espaço que não lhes pertencia, soltavam as crianças que corriam no areal, detendo-se à beira-mar por não saberem nadar. Ao almoço, pelo meio-dia, montava-se a mesa e respetivas cadeiras, com copos e talheres, e servia-se a comida, adaptada à praia: panados, croquetes, rissóis, arroz frio e vinho corrente. Algumas famílias, mais exigentes, traziam um pequeno fogão a gás e confecionavam comida quente. Pela tarde, sob os guarda-sóis, dormiam-se faustosas sestas, afastando o bulício dos mais pequenos. Nas idas coletivas ao mar, muitas vezes com as saias vestidas, soltavam-se os gritos das mulheres perante a investida das ondas, entre o divertido e o temeroso.

Como é sabido, nas praias do Norte há em julho e agosto um vento inclemente que inferniza as melhores expetativas de uma praia agradável. Não raras vezes, as longas neblinas matinais são acompanhadas de uma chuva miudinha que massacra os ossos e as almas. Mas eles, indiferentes, resistentes, permaneciam no areal, abriam os toldos e os guarda-sóis e faziam como se nada fosse. Um dia de férias não se desperdiça, pois o trabalho é duro, o dinheiro parco e o investimento feito não é para ser desperdiçado.

Eles eram os outros, aqueles que todos queriam esquecer e ostracizar o mais depressa possível, pois havia um país que sonhava com os emergentes shopping centres, o rock tardio, as roupas catitas, a casa própria, as férias no Algarve e a mobilidade automóvel – o passado seria rural, operário e pobre, mas isso era o passado, o morto -  e os mortos, é sabido, são de um outro reino.

Vistos de longe, assim agarrados uns aos outros para caberem no amparo do guarda-sol-guarda-chuva, escapando do alcance da água miudinha (que, todavia, açoitada pelo vento, chegava de todo o lado e ao mais ínfimo recanto), pareciam uma estátua, escultura de gente viva que resistia contra o mundo e que, quando o Sol era generoso, espalhava na praia as gargalhadas altas, a correria livre das crianças e o esquecimento que o vinho traz das agruras da vida. Bem podiam os outros soltar o seu escárnio: eles eram um navio que desafiava para sempre o mar agreste e o esquecimento.

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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