— Mãezinha — disse a mulher enorme —, olha estas prateleiras para as nossas coisinhas. Não são lindas?
Umas sobras de senhora davam-lhe pela cintura. Ainda que se pertencessem, não se irmanavam: ela grandessíssima, a mãezinha minúscula, formavam um desconjunto como talheres em casa dum idoso. As prateleiras, lenientes, permitiam-se ser assombradas pelos imaginares de coisas-coisinhas que ali caberiam como jóias da coroa.
A mulher grande com a pequena mãe pela mão chegara cerca de quarenta minutos depois da hora. Se tivera a oportunidade de entornar as sombras dos seus pertences sobre as nossas estantes embutidas, fora porque a sua chegada coincidira com a partida do prospector das quatro da tarde. Isto porque a agente insistira em deixar meia hora de intervalo entre cada um. Não se pode apressar estas coisas, trauteara. Se ela desejava perder a tarde a dar visitas guiadas da nossa casa, era com ela — sempre era paga para o serviço. O que me era de árdua mordedura era que eu também tivesse de ficar (a minha namorada tinha horário de trabalho fixo e logo se escusara).
Não — o dono prévio não vinha com a casa. A minha presença não passava de intrusão na fantasia imobiliária de terceiros. Pessoas que viviam na mesma cidade que eu e que teria de adicionar ao inventário de gente a cumprimentar na rua pelo resto da vida. Já conseguia imaginar o aceno cúmplice no Largo do Mercado, as feições estirando-se mudas, e eu implorando mentalmente «quem és?», até recolher a memória inútil da tarde em que mostrara as costuras do meu apartamento a toda a estirpe de estranhos.
De início, os prospectores mostraram-se mansos. Seria um prazer transmitir-lhes o meu apartamento e olvidar o seu nome. Até a mulher munida de mãezinha aparecer.
— Olá! Boa tarde! Desculpem o atraso! Como está? O meu nome é Paula Tavares Brito. Boa tarde, boa tarde. Olhe, desculpe lá o atraso. Como está?
A agente escusou-a às desculpas, impeliu-a a que entrasse, arrancasse de si o casaco volumoso e peloso, e a mãezinha também, minha-senhora-faça-o-favor-de-tirar-o-casaco, mas a mãezinha não disse uma palavra e não tirou. É-que-sabe-ela-é-muito-friorenta, desculpou-a a grande filha, ainda volumosa, ainda pelosa, com um colar medalhado cobrindo-lhe o peito cheio.
Paula Tavares Brito deu um passo com o pé direito e inaugurou a sua casa — isto é, minha e da minha namorada, mas relembrar o pormenor não me enaltece e é até revelador de alguma ruindade moral.
— Consigo sentir as boas energias deste espaço. Que amplo que é! Fizeram aqui um óptimo trabalho de remodelação. Parece maior do que nas fotos.
Embora ela não o soubesse, a sua massa corporal diminuía o tamanho do apartamento. Era uma prospectora generosa, dedicando um comentário a cada metro quadrado. O apartamento não era mais do que um modesto T1 de 62 m2, mas, julgando pela seriedade com que Paula Tavares Brito se entregava à prospecção, acreditei termos ali um palacete, um tesouro perdido do mundo imobiliário. Temi que a agente me tivesse enganado, que aquele pedaço de betão e estuque mal localizado valesse muito mais do que ela me indicara. Cheguei até a questionar-me se eu e a minha namorada nos teríamos precipitado ao vender a casa para fugir à prole dos vizinhos de cima.
— Ah, que linda vista para o parque de estacionamento! Os parques são lugares com tantas histórias. Tantos encontros, tantas despedidas… Um lugar onde amantes se encostam uns aos outros achando-se a sós. Como gosto de parques de estacionamento… São subvalorizados… Ah, mais um detalhe maravilhoso. Uma mini-despensa na sala de estar. Que delícia! Vês, mãezinha, aqui podias pôr a tua colecção de urnas fúnebres.
A agente e eu permutámos miradas. Ela arregaçou os globos oculares com intenção semiótica. Porém, em vez de encontrar nela a cumplicidade no terror, achei-lhe o êxtase do negócio fechado. Desvairada, lançou-se à prospectora:
— E mais! Dona Paula, veja este armário de madeira maciça. Veja só! Não, toque. Apalpe. Não, apalpe com força! O que é que acha? Não é de boa qualidade? É madeira de cerejeira. Apalpe outra vez!
Desviei-me para ao pé da janela para esconder o choque face ao assédio da mobília. Abri as portadas e pareceu-me que, lá fora, o ar engordara, como se enredado de trovoada. Quando recuperei controlo do movimento das fossas nasais, virei-me.
A mãezinha fixava-me. As suas pupilas eram rijas na cara amarrotada.
Acometido de penumbras brandas, arrecadei os olhos. Lá fora, uma nuvem espessa absorveu o céu. A cozinha enegreceu. Com um gesto estudado, a filha tomou os dedinhos da mãe.
— Pois, devo confessar que tenho algumas reticências… Algumas hesitações…
— Apalpe lá a madeira, dona Paula. Diga lá que não é de boa qualidade.
— Já apalpei, obrigada. Não. Acho que a madeira está deformada.
A grande filha mudara de voz. Onde há pouco as sílabas se encavalitavam, firmava-se agora um desinteresse pastoso.
— Deformada? — A agente descompreendia. — A madeira está impecável… Está em muito bom estado, dona Paula… Ora veja melhor…
— Não. Não gosto…
As medalhas do colar estacaram solenes sobre o busto de Paula Tavares Brito. Era como se aquele corpo descomunal albergasse duas mulheres de índoles opostas. Mais abaixo, a mãezinha conservava-se impávida.
— Bem, se não gosta, mais vale passarmos à frente — disse eu, que só queria despachar aquilo e ligar à minha namorada para me queixar.
— Venha ver a casa de banho, dona Paula. — O seu transtorno face à mutação da criatura dera em subserviência aflita. — É uma belíssima casa de banho. As torneiras têm tanta pressão que mais parecem as cataratas do Niágara. Experimente lá!
— Mas a casa de banho nem tem janela…
A agente concedeu; de facto, não tinha janela, mas, no fim de contas, tratava-se duma casa de banho. Decerto, haveria até uma certa vantagem na ausência de janela numa casa de banho, sugeriu. Não haveria acidentes nem atentados ao pudor, ah-ah.
— Não me parece. Cheira a mofo.
Ofendida, a minha casa de banho mandou-nos embora. Prospectora e agente arrastaram a mãezinha de volta à sala. A ínfima senhora parecia cada vez mais encolhida entre as duas mulheres contrariadas.
No fim daquilo, esperei que a mulher se despedisse e nos aliviasse da sua presença. Ao invés, Paula Tavares Brito pôs-se a reavaliar as divisões iniciais.
— Esta casa tem falta de luz.
— O tempo é que se pôs neste estado. Não viu como estava quando chegou?
— Também lhe faz falta mais arrumação. E estas prateleiras são baixas de mais. Acho que não dão para as nossas coisinhas, mãe. Não nos consigo imaginar aqui. O que é que dizes? Esta casa não é a nossa casa, pois não?
As prateleiras vazias bocejaram.
— Dona Paula, reconsidere. Ainda há pouco dizia que a casa era tão jeitosa…
— É que, sabe, é muito velha. Foi construída quando? Na década de sessenta?
— Qual quê. Foi construída nos anos noventa. Está novinha.
— É muito antiga… Muito velha… Acabada… Não achas, mãezinha?
Felizmente, por essa altura, chegou o prospector das quatro e meia. A agente desinteressou-se da mulher-com-mãe e afeiçoou-se do novo anónimo com sonhos prediais. Todavia, Paula Tavares Brito não desertou. Seguiu-os em nova excursão aos breves 62 m2. Encostei-me às estantes embutidas e mandei um gif à minha namorada.
Sobressaltei-me ao dar com a mãezinha esquecida junto à entrada. Estava de pé e de olhos fechados, como se tivesse adormecido. Examinei-a à distância com alguma preocupação, tentando perceber pelo cheiro se morrera.
Um ressonar tectónico brotou da esfarelada senhora. Inspirei até aos ossos.
Um mês e pouco depois, assinámos o contrato de promessa de compra e venda com o prospector das quatro da tarde. Por essa altura, enlouquecido pelas múltiplas intervenções e cirurgias ao nosso novo apartamento, já fizera por esquecer o nome e cara dos visitantes daquela tarde nublada. Por isso, quando atendi o telemóvel a um número desconhecido, custou-me etiquetar a voz descarnada.
— Estou? Boa tarde? Daqui fala Paula Tavares Brito.
— Sim? Quem? — Fiz por saber, ainda com a broca na mão.
— A pessoa que tinha direito ao apartamento da Rua Elias Furtado.
A memória eclodiu. A voz grandiosa parecia amputada, como se aquela pessoa não pudesse ocorrer desprovida de mãe. Não sabia como conseguira o meu número.
— O que você fez não se faz. A casa era para mim. Para a minha mãe. Quem é que acha que é? Como é que se atreve? Com que direito é que inflige uma decepção destas a uma octogenária? Seu canalha.
Imaginei-lhe a boca enorme. A saliva atirada ao telemóvel a queima-roupa, as gotículas espalmadas como nenúfares sobre o ecrã.
— Minha senhora, que quer que lhe faça? Para a próxima, ofereça mais.
— Deus castiga quem faz o mal. Hás-de as pagar, rapazinho ganancioso. E a tua namorada também. Vermes. Lixo humano. Vão para o inferno.
Desliguei a chamada e pousei a broca.
As paredes recém-pintadas, os dentes dos cabides, os ralos e suas teias capilares de habitantes prévios — tudo me pareceu infectado de malvadez e mãezinhas secas.
Levantei-me e fui verificar o trinco da porta.
Ilustração de Frederico Pompeu