Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Prospecção Imobiliária

Um conto da autoria de Carolina Fidalgo, aluna do curso da Academia Gerador “Desarrumar a escrita: oficina prática”. Este conto foi selecionado para publicação nos canais digitais do Gerador pelo formador do curso, Samuel F. Pimenta

Texto de Carolina Fidalgo

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

— Mãezinha — disse a mulher enorme —, olha estas prateleiras para as nossas coisinhas. Não são lindas?

Umas sobras de senhora davam-lhe pela cintura. Ainda que se pertencessem, não se irmanavam: ela grandessíssima, a mãezinha minúscula, formavam um desconjunto como talheres em casa dum idoso. As prateleiras, lenientes, permitiam-se ser assombradas pelos imaginares de coisas-coisinhas que ali caberiam como jóias da coroa.

A mulher grande com a pequena mãe pela mão chegara cerca de quarenta minutos depois da hora. Se tivera a oportunidade de entornar as sombras dos seus pertences sobre as nossas estantes embutidas, fora porque a sua chegada coincidira com a partida do prospector das quatro da tarde. Isto porque a agente insistira em deixar meia hora de intervalo entre cada um. Não se pode apressar estas coisas, trauteara. Se ela desejava perder a tarde a dar visitas guiadas da nossa casa, era com ela — sempre era paga para o serviço. O que me era de árdua mordedura era que eu também tivesse de ficar (a minha namorada tinha horário de trabalho fixo e logo se escusara). 

Não — o dono prévio não vinha com a casa. A minha presença não passava de intrusão na fantasia imobiliária de terceiros. Pessoas que viviam na mesma cidade que eu e que teria de adicionar ao inventário de gente a cumprimentar na rua pelo resto da vida. Já conseguia imaginar o aceno cúmplice no Largo do Mercado, as feições estirando-se mudas, e eu implorando mentalmente «quem és?», até recolher a memória inútil da tarde em que mostrara as costuras do meu apartamento a toda a estirpe de estranhos.

De início, os prospectores mostraram-se mansos. Seria um prazer transmitir-lhes o meu apartamento e olvidar o seu nome. Até a mulher munida de mãezinha aparecer.

— Olá! Boa tarde! Desculpem o atraso! Como está? O meu nome é Paula Tavares Brito. Boa tarde, boa tarde. Olhe, desculpe lá o atraso. Como está?

A agente escusou-a às desculpas, impeliu-a a que entrasse, arrancasse de si o casaco volumoso e peloso, e a mãezinha também, minha-senhora-faça-o-favor-de-tirar-o-casaco, mas a mãezinha não disse uma palavra e não tirou. É-que-sabe-ela-é-muito-friorenta, desculpou-a a grande filha, ainda volumosa, ainda pelosa, com um colar medalhado cobrindo-lhe o peito cheio.

Paula Tavares Brito deu um passo com o pé direito e inaugurou a sua casa — isto é, minha e da minha namorada, mas relembrar o pormenor não me enaltece e é até revelador de alguma ruindade moral.

— Consigo sentir as boas energias deste espaço. Que amplo que é! Fizeram aqui um óptimo trabalho de remodelação. Parece maior do que nas fotos.

Embora ela não o soubesse, a sua massa corporal diminuía o tamanho do apartamento. Era uma prospectora generosa, dedicando um comentário a cada metro quadrado. O apartamento não era mais do que um modesto T1 de 62 m2, mas, julgando pela seriedade com que Paula Tavares Brito se entregava à prospecção, acreditei termos ali um palacete, um tesouro perdido do mundo imobiliário. Temi que a agente me tivesse enganado, que aquele pedaço de betão e estuque mal localizado valesse muito mais do que ela me indicara. Cheguei até a questionar-me se eu e a minha namorada nos teríamos precipitado ao vender a casa para fugir à prole dos vizinhos de cima.

— Ah, que linda vista para o parque de estacionamento! Os parques são lugares com tantas histórias. Tantos encontros, tantas despedidas… Um lugar onde amantes se encostam uns aos outros achando-se a sós. Como gosto de parques de estacionamento… São subvalorizados… Ah, mais um detalhe maravilhoso. Uma mini-despensa na sala de estar. Que delícia! Vês, mãezinha, aqui podias pôr a tua colecção de urnas fúnebres.

A agente e eu permutámos miradas. Ela arregaçou os globos oculares com intenção semiótica. Porém, em vez de encontrar nela a cumplicidade no terror, achei-lhe o êxtase do negócio fechado. Desvairada, lançou-se à prospectora:

— E mais! Dona Paula, veja este armário de madeira maciça. Veja só! Não, toque. Apalpe. Não, apalpe com força! O que é que acha? Não é de boa qualidade? É madeira de cerejeira. Apalpe outra vez!

Desviei-me para ao pé da janela para esconder o choque face ao assédio da mobília. Abri as portadas e pareceu-me que, lá fora, o ar engordara, como se enredado de trovoada. Quando recuperei controlo do movimento das fossas nasais, virei-me. 

A mãezinha fixava-me. As suas pupilas eram rijas na cara amarrotada. 

Acometido de penumbras brandas, arrecadei os olhos. Lá fora, uma nuvem espessa absorveu o céu. A cozinha enegreceu. Com um gesto estudado, a filha tomou os dedinhos da mãe.

— Pois, devo confessar que tenho algumas reticências… Algumas hesitações…

— Apalpe lá a madeira, dona Paula. Diga lá que não é de boa qualidade.

— Já apalpei, obrigada. Não. Acho que a madeira está deformada.

A grande filha mudara de voz. Onde há pouco as sílabas se encavalitavam, firmava-se agora um desinteresse pastoso.

— Deformada? — A agente descompreendia. — A madeira está impecável… Está em muito bom estado, dona Paula… Ora veja melhor…

— Não. Não gosto…

As medalhas do colar estacaram solenes sobre o busto de Paula Tavares Brito. Era como se aquele corpo descomunal albergasse duas mulheres de índoles opostas. Mais abaixo, a mãezinha conservava-se impávida.

— Bem, se não gosta, mais vale passarmos à frente — disse eu, que só queria despachar aquilo e ligar à minha namorada para me queixar.

— Venha ver a casa de banho, dona Paula. — O seu transtorno face à mutação da criatura dera em subserviência aflita. — É uma belíssima casa de banho. As torneiras têm tanta pressão que mais parecem as cataratas do Niágara. Experimente lá!

— Mas a casa de banho nem tem janela…

A agente concedeu; de facto, não tinha janela, mas, no fim de contas, tratava-se duma casa de banho. Decerto, haveria até uma certa vantagem na ausência de janela numa casa de banho, sugeriu. Não haveria acidentes nem atentados ao pudor, ah-ah.

— Não me parece. Cheira a mofo.

Ofendida, a minha casa de banho mandou-nos embora. Prospectora e agente arrastaram a mãezinha de volta à sala. A ínfima senhora parecia cada vez mais encolhida entre as duas mulheres contrariadas.

No fim daquilo, esperei que a mulher se despedisse e nos aliviasse da sua presença. Ao invés, Paula Tavares Brito pôs-se a reavaliar as divisões iniciais.

— Esta casa tem falta de luz.

— O tempo é que se pôs neste estado. Não viu como estava quando chegou?

— Também lhe faz falta mais arrumação. E estas prateleiras são baixas de mais. Acho que não dão para as nossas coisinhas, mãe. Não nos consigo imaginar aqui. O que é que dizes? Esta casa não é a nossa casa, pois não?

As prateleiras vazias bocejaram.

— Dona Paula, reconsidere. Ainda há pouco dizia que a casa era tão jeitosa…

— É que, sabe, é muito velha. Foi construída quando? Na década de sessenta?

— Qual quê. Foi construída nos anos noventa. Está novinha.

— É muito antiga… Muito velha… Acabada… Não achas, mãezinha?

Felizmente, por essa altura, chegou o prospector das quatro e meia. A agente desinteressou-se da mulher-com-mãe e afeiçoou-se do novo anónimo com sonhos prediais. Todavia, Paula Tavares Brito não desertou. Seguiu-os em nova excursão aos breves 62 m2. Encostei-me às estantes embutidas e mandei um gif à minha namorada. 

Sobressaltei-me ao dar com a mãezinha esquecida junto à entrada. Estava de pé e de olhos fechados, como se tivesse adormecido. Examinei-a à distância com alguma preocupação, tentando perceber pelo cheiro se morrera.

Um ressonar tectónico brotou da esfarelada senhora. Inspirei até aos ossos.

Um mês e pouco depois, assinámos o contrato de promessa de compra e venda com o prospector das quatro da tarde. Por essa altura, enlouquecido pelas múltiplas intervenções e cirurgias ao nosso novo apartamento, já fizera por esquecer o nome e cara dos visitantes daquela tarde nublada. Por isso, quando atendi o telemóvel a um número desconhecido, custou-me etiquetar a voz descarnada.

— Estou? Boa tarde? Daqui fala Paula Tavares Brito.

— Sim? Quem? — Fiz por saber, ainda com a broca na mão.

— A pessoa que tinha direito ao apartamento da Rua Elias Furtado.

A memória eclodiu. A voz grandiosa parecia amputada, como se aquela pessoa não pudesse ocorrer desprovida de mãe. Não sabia como conseguira o meu número.

— O que você fez não se faz. A casa era para mim. Para a minha mãe. Quem é que acha que é? Como é que se atreve? Com que direito é que inflige uma decepção destas a uma octogenária? Seu canalha.

Imaginei-lhe a boca enorme. A saliva atirada ao telemóvel a queima-roupa, as gotículas espalmadas como nenúfares sobre o ecrã.

— Minha senhora, que quer que lhe faça? Para a próxima, ofereça mais.

— Deus castiga quem faz o mal. Hás-de as pagar, rapazinho ganancioso. E a tua namorada também. Vermes. Lixo humano. Vão para o inferno.

Desliguei a chamada e pousei a broca.

As paredes recém-pintadas, os dentes dos cabides, os ralos e suas teias capilares de habitantes prévios — tudo me pareceu infectado de malvadez e mãezinhas secas.

Levantei-me e fui verificar o trinco da porta. 

Ilustração de Frederico Pompeu

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

17 Julho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

14 Julho 2026

A insustentável leveza de um violador

13 Julho 2026

«A Albânia não está à venda» — como a Revolução dos Flamingos deu à juventude albanesa uma razão para ficar

10 Julho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

6 Julho 2026

“Por um fio”, ou os desafios ambientais e sociais da Contextile 2026

3 Julho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

30 Junho 2026

Uma mesquita digna para o Porto

29 Junho 2026

Em Beco sem Saída, a arte de um grupo de mulheres mistura-se com as suas dores

26 Junho 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

22 Junho 2026

Diogo Vasconcelos: “Quando as pessoas sentem medo, começam a procurar respostas simples para problemas muito complexos”

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0