O Teatro Aberto estreia, esta quarta-feira, o espetáculo Os Filhos, de Lucy Kirkwood. A peça propõe uma reflexão sobre aquilo que cada indivíduo pode fazer para melhorar a vida dos outros e proteger o planeta dos perigos que o ameaçam destruir.
Com encenação de Álvaro Correia, o texto de Os Filhos reflete sobre o impacto que das escolhas do presente vão ter sobre as gerações futuras. A interpretação é de Custódia Gallego, João Lagarto e Maria José Pascoal. A energia nuclear e as alterações climáticas são o pano de fundo de um contexto pós-apocalíptico onde as personagens tentam manter a normalidade.
Lucy Kirkwood, numa entrevista à Science & Film, em 2018, explicou que a peça, em si, não é um debate sobre as vantagens e desvantagens da energia nuclear. “O que aconteceu é que eu andava já há algum tempo a tentar escrever sobre o ambiente, num sentido mais lato, e à procura da forma e do dispositivo dramático para isso. Depois aconteceu Fukushima, em 2013, e li sobre a task force nuclear que voltou para lá para ajudar. De repente, tornou-se-me muito claro que estava ali uma maneira de falar sobre a intervenção humana no ambiente, sobre as invenções brilhantes que os nossos cérebros criaram ao longo da história humana, sobre as consequências, as responsabilidades e os resultados que são esperados e o modo de lidar com tudo isso”, partilha a autora. “Penso que é um assunto com o qual estamos a lidar de um modo muito mais amplo, neste preciso momento, na nossa cultura. Foi assim que a central nuclear se tornou uma metáfora para todas essas coisas.”
Estreada em Londres, em 2016, a peça Os Filhos problematiza a responsabilidade de cada indivíduo pelas escolhas que faz na sua vida pessoal, familiar e profissional e propõe uma reflexão sobre aquilo que cada um pode fazer para melhorar a vida dos outros e proteger o planeta dos perigos que o ameaçam destruir.
O enredo gira em torno de Hazel e Robin, um casal de físicos nucleares reformados que se mudam para uma pequena casa, depois de um acidente, na central nuclear onde trabalhavam, ter contaminado a área circundante com radioatividade. Embora façam racionamento de água e eletricidade, procuram manter as rotinas e levar uma vida tão normal quanto possível. Um dia recebem a visita de Rose, uma antiga colega, que lhes vem propor um regresso ao trabalho para repararem os danos causados pelo acidente. “Estarão Hazel e Robin dispostos a tanto? A que custo?”
“O que vemos e ouvimos é o desenrolar, em tempo real, de micro e macro conflitos entre três personagens que se conhecem muito bem e que se reencontram ao fim de uns anos”, explica o encenador Álvaro Correia, ao Gerador. “Não dá soluções, levanta possibilidades, mas deixa-nos inquietos, perante um futuro próximo e talvez mais imediato do que imaginamos, num momento em que a discussão sobre a energia nuclear voltou a estar na ordem do dia, quer pela tentativa de a considerar energia verde, quer pelo retorno do fantasma do colapso nuclear provocado por uma guerra insana”, continua. “Confronta-nos com a evidência de que não controlamos o impacto de uma catástrofe natural e que as suas consequências têm repercussões profundas na ordem mundial. E, ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre a morte, o envelhecimento e de como usar o tempo que nos resta da melhor maneira possível”, termina.
O espetáculo Os Filhos estará em cena, a partir de dia 20 de abril, no Teatro Aberto. Há sessões de quartas e quintas, às 19h; sextas e sábados, às 21h30; e domingos, às 16h, na Sala Vermelha, até ao dia 3 de julho.