Ao longo das últimas semanas, muitas pessoas têm expressado choque e indignação perante o documentário Inside the Manosphere, de Louis Theroux, que convida o espectador a mergulhar na “manosfera”. Quando falamos de “manosfera”, referimo-nos ao universo – enorme, violento, assustador e frequentemente contraditório – de conteúdos dirigidos a jovens rapazes que procuram saber como recuperar a sua masculinidade (alegadamente) perdida, fazer dinheiro fácil por meio de esquemas e seduzir mulheres.
Theroux leva-nos a conhecer uma mão-cheia de influencers e podcasters deste submundo de masculinidade violenta (uma redundância?) e a impressão com que ficamos quando o documentário termina é de angústia profunda, de impotência face à dimensão da rede de jovens afetados por este conteúdo e de raiva para com os homens que produzem estes conteúdos.
Entre as diferentes figuras que nos são apresentadas e que Theroux entrevista, podemos encontrar algumas traves mestras do seu pensamento: é preciso ganhar muito dinheiro para nos safarmos neste mundo e quebrar a “matrix”; as mulheres servem para ser utilizadas pelos homens (no documentário assistimos mesmo a apelos à violação); o mundo ocidental está a atacar o homem, branco, cishetero e é necessário responder; é importante mantermos uma dieta e regime de exercício rígido para sermos homens verdadeiros. Todos eles estão, de alguma forma, ligados a Andrew Tate (o influencer já condenado por tráfico de pessoas) e ao movimento MAGA de Donald Trump, ou à extrema-direita. A maior parte diz-se abertamente machista, racista e homofóbico. A violência física é a expressão máxima da masculinidade: um dos TikTokers que nos é dado a conhecer tem por hábito filmar-se a espancar homens homossexuais.
No meio de tudo o que poderíamos discutir com base neste sinistro documentário, duas ideias parecem-me particularmente pertinentes. Em primeiro lugar, a gritante e inexplicável hipocrisia face às mulheres que apresentam estes autoproclamados “machos alfa”. Vários afirmam que as mulheres devem ficar em casa, não se devem mostrar, devem ser mães de família e, preferivelmente, ficar virgens até ao casamento. Simultaneamente, relacionam-se diariamente com atrizes pornográficas, têm sexo sem compromisso com mulheres em discotecas e muitos deles gerem redes de mulheres que trabalham no OnlyFans (uma aplicação de pornografia). Enquanto dizem que espancariam uma filha que fosse trabalhadora sexual, têm como profissão promover atrizes pornográficas para enriquecer. Ao mesmo tempo que dizem querer casar com uma virgem, procuram ativamente sexo com mulheres experientes e livres. O binómio santa / prostituta – um clássico já bem conhecido das dinâmicas patriarcais que governam a nossa sociedade – não podia ser mais gritante do que neste documentário. Na sua ótica, uma mulher ou é uma mãe de família recatada e silenciosa ou, literalmente, uma prostituta para ser usada pelo homem.
Em segundo lugar, não me deixou de surpreender a forma como este mundo tóxico funciona como um espelho das contradições e dinâmicas da fase do capitalismo em que vivemos. A atomização e individualização extremas promovidas pela cultura neoliberal encontram aqui a sua expressão máxima. Salvam-se os mais fortes, “só quero saber de mim próprio” (como vários afirmam), “quero fazer muito dinheiro” (mesmo sabendo que estou a burlar outros) e, tudo isto, com a ideia subjacente de que ser pobre é ser um homem falhado, pouco másculo e incapaz de providenciar para a sua família. É o absoluto darwinismo social. Não há nenhum interesse pelo bem comum, por um sentido ético ou moral face ao mundo e a solidariedade é uma característica indesejável. Por isso, estes influencers vendem esquemas (casinos online, forex e semelhantes) para que jovens pobres, convencendo-os de que podem ficar milionários de um dia para o outro, apostando o pouco dinheiro que têm e, invariavelmente, perdendo-o.
Mas há algo aqui de real: há milhões de jovens por todo o mundo que, desesperados por não terem casa ou salário dignos, estão dispostos a apostar dinheiro, a acreditar em palhaços da internet e a sucumbir à ideologia do ódio e do preconceito. Tudo por uma vida melhor, ou apenas a promessa dela. Tudo para recuperar o orgulho e a autoestima. Theroux entrevista rapazes assim: pobres, desesperados, a suprimir a depressão e a tristeza e a tentar fazer algum dinheiro, acreditando nas histórias destes influencers. O que cria o sucesso destes TikTokers da Manosfera é precisamente o estado de desamparo total em que vivem milhões de pessoas (jovens rapazes, neste caso) e que abre terreno fértil para esta ideologia individualizante e violenta.
Finalmente, termino com um apelo simples. Muitas de nós ficámos incrédulas com o conteúdo machista que circula livremente pela internet. Ademais, ficámos chocadas ao saber que o público-alvo deste conteúdo é, na maior parte dos casos, composto por rapazes pré-adolescentes (com doze, treze ou catorze anos). Precisamos de olhar para e por eles. O que estão a ver os nossos irmãos, filhos, sobrinhos, primos na internet? Quem são os seus ídolos? Como e com quem estão eles a aprender sobre a relação entre géneros? Não está tudo perdido. Mas é o nosso dever criar uma geração de rapazes que não repita nem agrave as violências dos homens do passado. O feminismo também é para eles e para a sua libertação. Façamos deles feministas, então.