Ando em negociações com o medo há anos. O medo de não estar à altura; o medo de não conseguir cumprir determinado objetivo; o medo de não ser gostada; o medo de não ter tempo; o medo de não ser produtiva; o medo de parar; o medo de não conseguir dar mais do que me pedem em tudo o que faço; o medo de parecer ridícula… quantos medos cabem numa pessoa com pouco mais de metro e meio? Tantos quanto aqueles a que decidir dar espaço.

Durante a adolescência, fui-me apercebendo de que, o medo que sentia e que me paralisava, era amigo próximo da insegurança, da timidez ou da inércia face àquilo que desejava para a minha vida. Quantas vezes tinha decidido não falar com alguém que admirava por medo-timidez? Ou quantas vezes teria fugido dos lugares que mais almejava ocupar por medo-insegurança? Nessa altura, fiz um pacto com o medo: quando defrontada com uma oportunidade que me fizesse sentido e automaticamente esboçasse um sorriso na minha cara, a resposta seria SIM. Depois, lidava com os medos-insegurança-timidez-inércia. Foi assim que consegui cumprir vários objetivos, porque, depois de me comprometer com um sim, descubro o que há fora do meu cantinho seguro. Nunca me arrependi desse acordo. Diria até que, de cada vez que o materializei, cresci, descobri mais sobre mim, surgiram surpresas dignas de filmes nada verosímeis e fui feliz. Fui feliz até no erro. Percebi que os medos que me paralisam não tinham ligação com a realidade, que identificá-los é recuperar o poder sobre o curso da minha vida e que sou amor.

Não quero com isto dizer que já não tenho medos. O confronto continua a ser uma batalha diária. Desde o final de 2020 que vi outro medo ganhar muita força dentro de mim: morrer antes de me cumprir. Pensei várias vezes: se morresse subitamente amanhã, iria descansada? Sempre que essa pergunta surgia na minha cabeça a minha ansiedade disparava, porque a resposta era não. Ainda não tinha tido tempo para ser verdadeiramente feliz, porque, muito do que fiz, adiou-me para confortar as vontades de outras pessoas. Muito do que me faz voar é também aquilo a que me nego, por medos vários. Posso, efetivamente, morrer amanhã. E ganhar essa consciência fez com que a minha negociação com o medo ganhasse ainda mais força. Não é este sacaninha que me vai parar! Se morrer amanhã, quero ir descansada, que também o mereço.

Em 2021, dei saltos que nunca imaginei serem possíveis, para mim. Arrisquei, expus-me, dei-me a conhecer, abri o meu coração, decidi aceitar o amor que me queriam dar, dei a volta a padrões e relações tóxicas que ainda mantinha, desafiei-me a mostrar que tenho uma voz, comecei a criar para projetos meus, aprendi a dizer não, aprendi que não tenho de ser a super mulher que chega a todo o lado 24h/24h, porque o mundo não acaba se eu não for a pessoa mais produtiva do milénio, aprendi que o meu valor vive muito para além do meu trabalho, aprendi que vulnerabilidade é força, aprendi que sou feliz quando vivo no amor ao invés do medo (aqui não falo do medo que pode ser útil por nos deixar alerta, mas sim daquele que nos leva a escondermo-nos). Tenho medos? MUITOS! Mas, em 2022, continuarei a ir com medo. É esse o desejo que te deixo: onde puderes amar(-te), vai com medo!

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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