Luís Formiga

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode ou não atrapalhar? A música exige uma rendição total para as notas entrarem pele adentro?

No meu caso não atrapalha. Como compositor obrigo-me, a priori, a esse lado racional — é dessa forma que me aproximo e me esclareço.
Isso acontece porque, em certa medida, para lidar com as emoções, eu preciso de as dissecar — o que está em mim é o que procuro sossegar. Só depois desse processo é que consigo libertar-me e trabalhar a música de uma forma mais intuitiva e livre.

O facto da música ser imaterial, não palpável, não visível, ajuda ou não nessa transgressão e intuição?

Não sei se estão relacionadas. O facto de ser imaterial permite que dê azo a muitas interpretações, mas não sei se é, somente, essa característica que lhe oferece essa capacidade.
Não penso que seja uma coisa essencial para a transgressão, mas deduzo que a falta de uma definição a ajuda a entrar mais facilmente nas artérias de quem a ouve.

Há na música uma “dimensão musical ‘que é muito difícil de capturar em palavras, algo que só pode existir na sua imediação. Acho que essa sensação de imaterialidade advém do facto de haver algo na música que apenas pode ser expresso através de ou como música. No momento em que a linguagem tenta localizar esse algo, dissolve-se e perde-se.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer? Aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Iggy Pop – Some weird sin e Lust for life , como banda sonora do despertar. Essas músicas não me fazem acordar para existir, fazem-me levantar para viver. Embora não seja claro em que ordem é que isto se sucede!
De resto, até com o blues danço. Paradoxalmente, só não sinto o mesmo com a música de dança.

Já te aconteceu pensares numa imagem ou espaço específico enquanto compões?

Sempre, as músicas têm uma imagética muito clara para mim, mas é algo que existe, principalmente, na parte da escrita. Na composição instrumental nem sempre obrigo a que a música obedeça ou transporte, directamente, para esses espaços sobre os quais escrevo, embora procure que a mesma contenha um pouco do sentimento associado a essas imagens, ainda que a imagética inicial acabe por se diluir.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Eu vejo a minha música como nevoeiro nocturno. Seria pintada em escala de cinzentos. Os elementos visuais que a comporiam — baços e indefinidos. Penso que seria necessária uma aproximação física para perceber o todo. Nada seria oferecido ao campo visual sem algum esforço.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Não faço qualquer ligação entre a música e o paladar. É um tipo de sinestesia que não existe em mim.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Associo a um silêncio calmo.

Quando a música invade toda a tua sensibilidade e mente, de que forma te faz imaginar?

Não sei se consigo transcrever, exactamente, o que acontece nesse tempo. Não há mais nada. Só existe aquele momento, sobram os arrepios como vestígios de que algo aconteceu.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto – Joana Mendes