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Opinião de Tiago Sigorelho

Tiago Sigorelho é Presidente e Diretor Editorial do Gerador, plataforma que cruza arte, jornalismo e educação como ferramentas de pensamento e transformação social. Depois de uma carreira de 15 anos nas telecomunicações, onde foi gestor estratégico de marcas e coordenador de estudos de opinião, decidiu fundar o Gerador, movido pela convicção de que é necessário construir uma comunidade mais exigente, criativa e participativa. Ao longo desse percurso, tem desenvolvido projetos culturais, jornalísticos e educativos que procuram alargar públicos, combater desigualdades, estimular o pensamento crítico e reforçar a participação coletiva, com destaque para a Revista Gerador, o festival Uncover e os vários estudos dedicados a temas centrais da atualidade. É frequentemente convidado a lecionar em escolas e universidades e publica regularmente uma coluna de opinião no Gerador, onde reflete sobre as questões marcantes da contemporaneidade.

Valério e Gonçalo vão à luta

Nas Gargantas Soltas de hoje, Tiago Sigorelho fala-nos sobre a escrita de Valério Romão e Gonçalo M. Tavares.

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Valério Romão e Gonçalo M. Tavares escrevem contra a ideia de livro. Não lhes basta contar uma história, abordar um tema ou ser original. Querem pôr a literatura em risco, obrigá-la a sair do trilho, a procurar um ritmo e uma forma que estejam à altura da desordem do nosso tempo.

Isso sente-se com nitidez nos seus livros mais recentes. O Desfufador avança pela sátira, pela epidemia e pela acumulação delirante de sintomas contemporâneos. O Fim dos Estados Unidos da América escolhe a peste, a iminência de guerra civil e uma espécie de epopeia para pensar o império, a pobreza, a violência e a deriva política da sociedade. Em ambos, a literatura não surge como refúgio. Surge como campo de batalha.

A proximidade entre os dois talvez não esteja apenas nas abordagens, mas na suspeita que parecem partilhar: a realidade já não pode ser descrita por uma literatura demasiado obediente, demasiado realista, demasiado domesticada. Para escrever este tempo, já não basta descrevê-lo. É preciso deformá-lo o suficiente para que espelhe o real.

Os Estados Unidos, presentes nas duas obras, aparecem não como cenário exótico, mas como o grande laboratório dramático do presente, onde a desigualdade se torna obscenamente visível e onde a ideologia se transforma em espetáculo. Os Estados Unidos são uma versão aumentada do nosso tempo.

Também é curioso que ambos recorram ao contágio. Não falo apenas da epidemia ou da peste, mas da ideia de que o presente é contagioso no pior sentido. Contagiam-se discursos, impulsos, medos, radicalismos, fantasias de poder, masculinidades, conspirações, gentrificações. Já não vivemos apenas num mundo em crise. Vivemos num mundo em propagação.

Mas o que os torna verdadeiramente extraordinários não é apenas a leitura do zeitgeist. É a ambição literária. Os dois dão prioridade à linguagem em fricção, ao excesso que não pede desculpa, ao humor no fio da navalha, ao palavrão e ao erudito. Há muitos livros que parecem querer apenas acompanhar o tempo. Estes dois querem enfrentá-lo. E sabem que, para isso, é preciso escrever de outro modo.

O que estes dois livros têm em comum é uma recusa. A recusa de escrever como se o mundo ainda fosse legível da mesma maneira. A recusa de tratar a contemporaneidade como uma gaveta certinha. A recusa de aceitar que a literatura deva responder ao caos com compostura.

Num momento histórico em que a realidade parece disputar à ficção o monopólio do absurdo, Valério e Gonçalo tomam a decisão de não encolher a literatura para a tornar mais manejável, antes expandem-na para que ela consiga equiparar-se a este novo planeta. Ao contrário da política, da economia, da sociedade, a literatura têm a responsabilidade de se reinventar para continuar viva.

Ainda bem. Porque há tempos em que escrever bem é pouco. E este é um deles.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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