Escrevo este texto recém-chegado a casa de uma fugaz passagem pela feira do livro de Lisboa. A decorrer nos próximos dias, este é, muito provavelmente, o encontro nacional relacionado com a literatura que mais pessoas move. Neste domingo com temperaturas estivais, eram milhares de pessoas que se deixavam arrastar pelos corredores organizados do Parque Eduardo VII, de olhos postos nas diferentes bancas. Como mais um fantasma, também eu me deixei levar, prometendo-me que a próxima seria mesmo a última banca.
Apesar da sua dimensão, a Feira do livro de Lisboa está longe de ser a única no país. Com uma ou outra definição, de feira a festival, passando por festa, é a leitura que se celebra em cada um destes encontros que surgem com cada vez mais frequência de Norte a Sul; celebra-se a leitura, sim, mas também o livro, os autores, os livreiros, os bons negócios e o encontro entre autores e leitores. Talvez resida aí o sucesso (comercial) destes eventos, mas há algo mais profundo.
Penso em mim. Sou frequentador de livrarias, sempre independentes, daquelas que, nos dias que correm, quase se tornaram lugares de resistência. Onde os livreiros nos conhecem, onde conhecem os nossos gostos, e nos aconselham e recomendam alguma leitura. Onde sabem o que já lemos e nos perguntam se gostámos. Onde se tornam próximos, amigos até, numa amizade emocional que une os apaixonados por livros. Por isso ali nos sentimos confortáveis, numa segunda casa, onde sabemos ser bem vindos e, como tal, podendo deixar o tempo passar sem que nunca sintamos pressa em sair.
Mas é o oposto que vemos nestes grandes encontros, longe da solidão e compenetração das livrarias, onde o espírito se parece separar do corpo enquanto os olhos percorrem contracapas e índices. Ali, não há isolamento e a ausência é complicada. Mas há uma pulsão que a muitos de nós leva a nunca faltar a estes encontros. E neles encontramos todo o tipo de leitores, dos assíduos das livrarias, aqueles que apenas na feira anual compram algo para ler, pais que são arrastados pelos filhos, curiosos que passam vez e vez em frente às bancas sem nada levar.
O que nos levará a todos, afinal tão diferentes, a querer partilhar a mesma experiência? Parte da resposta está no prazer do palpável num mundo cada vez mais virtual. Certamente também no sentimento de comunidade e de pertença, com uns laivos de necessidade de se dizer que esteve presente. Nestes encontros, todos somos irmãos da comunidade de leitores e haverá sempre algum livro, pelo menos um livro, que ali esteja para nós. Talvez seja essa a grande razão, a necessidade de uma experiência partilhada numa época onde elas cada vez mais escasseiam.
Podemos ainda ser empurrados pelas tradições que nós próprios criamos, seja comer uma fartura, como descobri ser hábito entre muitos dos frequentadores da feira em Lisboa, seja outra coisa qualquer. Foi, em boa medida, uma “tradição” e um “livro do dia” que me levaram hoje à feira. Depois de ter comprado o primeiro tomo da dita “trilogia do Cairo” de Naguib Mahfouz na feira do livro de Lisboa de 2024 e o segundo volume na feira do livro do Porto do ano passado, fui hoje à procura do terceiro tomo que agora folheio. Uma tradição pessoal que hoje termina, certamente à espera de uma nova a ser criada.
Regressemos a este domingo de final de maio de 2026 na feira do livro de Lisboa. Está tudo lá. Desde logo, é um retrato do próprio mercado livreiro em Portugal, com os (poucos) grandes grupos de edição representados a uma escala desproporcional, com uma oferta que tudo parece abarcar, com corredores inteiros para si, belos, limpos, operacionais, uma pequena linha de produção industrial com um pequeno exército de trabalhadores trajados a rigor. Não se pense que esta concentração – e os desafios que isso representa – é um exclusivo português. Hoje mesmo foi publicada uma entrevista com a presidente do sindicato das livrarias francesas (representante das livrarias independentes no país) onde esta alertava para os perigos da concentração do mercado livreiro em poucas mãos, aos quais se somavam outras dinâmicas: a inflação, o menor número de leitores, a situação internacional, os aumentos das rendas nos centros das cidades e os aumentos salariais.
E no entanto, ali logo ao lado das grandes editoras, estão livrarias e editoras independentes, algumas partilhando a mesma banca, com os livros encavalitados sempre tentando deixar à vista algum detalhe que chame à atenção um leitor motivado. Nessas bancas, invariavelmente mais desorganizadas, com aquela confusão saudável que é mais força que fraqueza, podemos ainda trocar algumas impressões com quem vende, muitas das vezes uma peça-chave do processo de publicação dos livros expostos e muito mais que apenas um vendedor.
Em boa medida, estas feiras são também uma oportunidade única para expor a milhares de pessoas editores e obras que, de outro modo, nunca conheceriam. E num momento em que temos em Portugal várias pequenas editoras a publicar obras das mais originais e belas que saem no nosso país, esse conhecimento transforma-se em causa pública. Um retrato condensado do mercado livreiro em Portugal, com todas as suas dificuldades, mas também com provas de toda a sua vivacidade e capacidade de reinvenção.
Hoje, vi também um retrato distinto de autores e leitores, com longas filas para autógrafos em alguns casos e, noutros, mais numerosos, autores solitários que com os olhos ansiosos procuravam algum leitor que se pudesse interessar pela sua obra. Já estive nessa situação, vendo passar dezenas, centenas de pessoas, sem que quase ninguém parasse, num misto de tristeza e resignação. Mas mesmo nessas alturas, volto a casa com a certeza de sempre: o livro será sempre uma festa.