Às 6 horas da manhã, as cadeiras dispostas numa das áreas exteriores do Seminário Carmelita, no Monte do Sameiro, em Braga, eram manifestamente insuficientes para o público que se juntara para assistir ao concerto de Calcutá. O chão e os bancos laterais acomodaram quem não conseguiu lugar à frente.
A escolha parecia inevitável para o momento: Soon After Dawn, lançado no início do ano, é o trabalho que estamos prestes a ouvir no seminário. Antes disso, a artista já tinha lançado o EP Over Night e integrado bandas como Mighty Sands e Savage Ohms. Com este trabalho, apresenta-nos “uma paisagem mais interior e emocional”, como a própria descreveu em entrevista à Playback.
Da paisagem emocional, passamos à local em apenas alguns minutos. Findo o concerto, inicia-se a caminhada que liga o Sameiro à Falperra, ponto de encontro para a restante programação. Mas não sem um desvio: numa clareira, esperava-nos um palco montado num tanque ao serviço do clube de parkour local, onde a baterista Valentina Magaletti, cujo trabalho a solo percorre texturas e identidades, exploraria a sonoridade da água e da estrutura do palco, antes de passar ao vibrafone e à bateria. O concerto, marcado para as 8 horas, foi pensado para acompanhar o gradual aumento da incidência solar que se faz sentir na clareira.
Todo o festival é, aliás, idealizado para aquele lugar. A ideia passava por trabalhar as dimensões “do território, do património construído e da arte sonora”, conforme contextualiza Samuel Silva, da Capivara Azul, associação organizadora do evento, ao Gerador. A escolha de Braga como Capital Portuguesa da Cultura em 2025 materializou a oportunidade para arrancar com a ideia. “Independentemente dos locais que encontrássemos, [o objetivo] era esta questão de jogar com a noção de extremo, de fronteira entre Braga e Guimarães, mas também de fronteira entre linguagens artísticas”, acrescenta o programador do festival. Acresce a estas dimensões a própria fronteira entre o dia e a noite, num evento pensado para acompanhar o sol, desde que nasce até que se põe. Foi esse conceito que atraiu Beatriz Moreira e Marta Oliveira, ambas de 23 anos, vindas do Porto para desfrutar da experiência completa. Passaram a palavra a Maria Coutinho, 25 anos, e José Martins, 23, que viajaram de Ovar atraídos pelo espaço, pela dinâmica de todo o festival e pela curiosidade de acompanhar o percurso do nascer ao pôr do sol.
O som e as pedras
Após o concerto de Valentina Magaletti, seria tempo de dar à palavra “percurso” uma leitura literal. Era altura de deixar o Monte do Sameiro, o ponto mais alto da cidade de Braga, essencialmente conhecido pela sua basílica, rumo à Falperra. O destino, a cerca de 3,5 quilómetros, é outro ponto religioso importante, a que se juntam vestígios do período suevo-visigótico e níveis datados do Bronze Final. Mas o património construído fora já o foco da primeira edição do Extremo; desta vez, o objetivo era lançar o olhar sobre o património natural, conforme explicou Samuel Silva ao Gerador. Por isso, a caminhada não se fez apenas de passos, mas de um enquadramento no território. “Deriva das Pedras” foi a proposta trazida pelo músico, produtor e investigador Pedro Augusto, num paralelo entre o som e a pedra, matérias-primas a partir das quais se extraem inúmeras possibilidades. Formado em Escultura, esse não foi, para Pedro Augusto, o aspeto mais relevante na atenção que decidiu dar à relação entre som e elementos naturais, conforme explicou ao Gerador. “Interessa-me esse lado também bastante pragmático, simples, objectivo, das coisas simples”, sublinha. O percurso culminaria num concerto na capela de Santa Maria Madalena, a mesma que, já ao entardecer, receberia os concertos de Shane Parish e Joana de Sá.
Da Amazónia à Falperra num sintetizador
Se a proposta de Pedro Augusto foi feita para dialogar com a realidade local, a do músico venezuelano Molero traz influências à distância de um oceano. Destellos del Éxtasis traça uma continuidade, como o próprio descreveu ao Gerador, com o disco de estreia Ficciones del Trópico, lançado em 2020. No primeiro caso, Alexander Molero explorou o olhar europeu sobre a floresta da Amazónia. A descoberta, em casa de um casal amigo, na Venezuela, de um livro do naturalista alemão Anton Goering confrontou-o com o romanticismo e a estética “muito marcada” com que as paisagens eram representadas. “Tu cresces num determinado ambiente, mas depois encontras uma pessoa que vê aquilo de outra maneira, com a [influência da] sua bagagem cultural”, conta ao Gerador, sobre o impacto que a obra produziu.
Depois de uma viagem complicada entre a Venezuela e Barcelona (onde reside desde 2009), durante a qual lhe foram colocadas dificuldades e suspeitas em torno do transporte do seu sintetizador por via marítima, começou uma nova viagem, desta vez de exploração sonora, durante a qual deu forma às imagens com que se havia cruzado. A interseção entre imagem e som é, para Molero, um processo natural, a que se juntou a necessidade de investigar o exotismo, o encontro de alguém com um organismo ou uma paisagem que lhe é alheia. “Era esse primeiro choque que queria plasmar a nível sonoro”, resume.

Concerto de Molero. Fotografia de Lais Pereira / Extremo
No seu processo de investigação, interessou-o igualmente a forma como o cineasta alemão Werner Herzog retratou a colonização, e as descrições tribais que foi encontrando dos colonizadores, acerca de mulheres que viviam na selva e de animais com rostos humanos.
O mito e o fantástico já o interessavam, mas foi em Destellos Del Éxtasis que se tornaram protagonistas. “Foi um trabalho que começou a desenvolver-se no processo da pandemia, durante o qual questionamos muitas coisas”, relembra. Em cima do trabalho de investigação de Ficciones Del Trópico, mergulhou a fundo na dimensão do mito e do religioso. O contacto com a natureza resultante do facto de ter passado a residir numa zona de bosque também ajudou a consolidar ideias, e o resultado é um trabalho onde as visões e a epifania assumem destaque. E, à semelhança do que acontece no Extremo, também o sol tem lugar dedicado. Azul Dorado en la Zona Intermedia, uma das faixas do novo álbum, é exatamente sobre o entardecer, o momento em que o sol se vai fundindo na paisagem à medida que se põe, sem que haja um princípio ou um fim.
A relação com o espaço também é valorizada por Alessandro Cortini, figura de destaque da música eletrónica e membro de longa data dos Nine Inch Nails, a que junta uma consistente carreira a solo. Numa entrevista concedida ao Gerador alguns dias antes da sua atuação junto à Capela de Santa Marta do Leão, na Falperra, Cortini contava estar habituado a tocar em igrejas e salas de espetáculo na Europa, mas tocar num espaço “com tanto significado do ponto de vista visual potencia ainda mais o que estou a fazer, porque o contextualiza não só do ponto de vista sónico, mas também visual e local”, explica ao Gerador.
Apesar da sua prolífica carreira, onde se incluem colaborações para desfiles de moda e séries de televisão como Twin Peaks: The Return ou The Bear, Alessandro dizia à Blitz, em 2022, gostar de “abordar novos desafios musicais como uma criança que descobre um novo brinquedo”. Ao Gerador, conta que se trata sobretudo de deixar as expectativas à porta do processo criativo. O objetivo não é retirar importância ao que está a fazer, ou esquecer a responsabilidade profissional, mas não perder a curiosidade ou a vertente exploratória. Com Nati Infiniti, o seu mais recente trabalho, baseado numa instalação imersiva feita para o festival Sónar, de Lisboa, afirma divertir-se com o que está a fazer. E Cortini já percebeu que o público reage a isso. “Não se trata de agradar à audiência, mas de agradar à minha própria estética e ao meu próprio gosto e, como consequência, as pessoas parecem gostar disso”, observa.

Concerto de Alessandro Cortini. Fotografia de Lais Pereira / Extremo
A sustentabilidade para lá do chavão
O olhar que a organização quis dedicar à paisagem natural materializou-se na exploração e na preservação. Se a proposta de Pedro Augusto se debruçava sobre as pedras, a de Adriana Sá e John Klima misturava o som e a luz. Em Habitat, instalação sonora nascida a partir de uma residência artística na Falperra, os artistas instalaram um sistema onde cada coluna está equipada com sensores de luz, pelo que o som reproduzido vai reagindo à incidência solar. A este dispositivo foram-se juntando baloiços, mantas e almofadas, transformando o local da instalação num local de fruição da paisagem, da vista sobre a cidade e também de descanso, ou não fosse este um festival para um dia inteiro. Os testes começaram ainda em casa do casal, que descreve este tipo de processos como “uma aventura”, porque depois não se sabe como as coisas vão funcionar in loco.

John Klima na instalação Habitat. Fotografia de Lais Pereira / Extremo
Adriana e John trabalham juntos há cerca de 20 anos, mas individualmente, cada um acumula cerca de 30 anos de experiência. Para Adriana, trata-se de uma mistura de universos, de um “aperfeiçoamento progressivo da fronteira entre a obra e o que já lá está”. Há uma integração, mas também um aumento da intensidade do lugar, descreve. Para John, os desafios da logística e da tecnologia estão sempre presentes, mas o artista e professor procura sempre abordagens criativas para solucionar esta vertente mais prática.
Embora afastem o peso da arte enquanto ferramenta de mudança do mundo, Adriana e John acreditam que, em casos como este, em que se cria um ambiente que convida à fruição, as pessoas possam tornar-se mais sensíveis ao lugar onde estão e, indiretamente, dar um contributo para a importância de o preservar. A arte pode não mudar mentes, mas “revitaliza mentes”, nas palavras de Adriana, pela sua capacidade de nos convocar a experimentar o mundo de formas pouco usuais.
Independentemente das sensações provocadas pela instalação, a preocupação com o lugar estava presente em Sara Lopes, 33 anos, e Ricardo Barros, 31, que chegaram ao Extremo logo de manhã e permaneceram, pelo menos, até à hora do almoço. Atraiu-os o horário não convencional (começa à hora a que os festivais normalmente terminam, nota Sara), mas também a preocupação com a sustentabilidade, materializada na oferta de ligação por autocarro entre o local do festival e o centro de Braga e de Guimarães. Ricardo valoriza também a preocupação de trazer centralidade para este tipo de espaço “nesta altura dos incêndios”, e de não dar tanta importância à vertente comercial, que entende já ter contaminado outros festivais.
Na parte da tarde, a vertente ambiental materializar-se-ia numa abordagem pedagógica: Ana Pinheira e Viriato Oliveira, do Laboratório da Paisagem, um centro de investigação na área ambiental fundado pelo município de Guimarães, orientaram uma visita à fauna e flora local, chamando a atenção não só para as espécies que povoam o local, as também para as suas implicações. Para isso, foram feitos registos de temperatura ao longo do percurso, comparando-se os locais à sombra e ao sol. Logo na primeira paragem, a temperatura do solo marcava 56 ºC ao sol e 31 ºC à sombra, a forma mais direta e inequívoca de alertar para a importância das árvores que há décadas definem aquela paisagem. Mas nem só de espécies autóctones se faz a paisagem arbórea da Falperra, com os eucaliptos a merecer destaque pelos seus efeitos nefastos. Sem demonizar uma espécie com valor económico, Ana e Viriato chamaram a atenção para os riscos da monocultura, que podem ser mitigados com a criação de faixas de contenção. No incêndio de Pedrógão, lembrou Viriato, o fogo diminuiu de intensidade ao chegar a áreas de floresta autóctone. E isto acontece porque o calor intenso favorece a expansão da espécie: “o eucalipto arde como estratégia para conquistar mais território”, explica Viriato, formado em arboricultura. A explicação é simples: é precisamente o calor intenso que leva a que a cápsula do eucalipto liberte as sementes, um processo que, no clima da Austrália, acontece naturalmente, mas em Portugal é propiciado pelos incêndios.
Apesar da rapidez com que os efeitos das alterações climáticas se estão a fazer sentir, Ana e Viriato não perdem o otimismo, já que, segundo conta Viriato ao Gerador, a consciencialização é visível, ainda que não acompanhe a urgência de um problema “para ontem”. Para Ana Pinheira, o facto de o laboratório desenvolver um trabalho de recolha de dados que permita ao município tomar decisões informadas confere uma robustez ao processo que se reflete na confiança depositada pelo público. “Tenho visto que as pessoas estão muito mais conscientes, participam muito mais. Com o ano de [Guimarães] Capital Verde Europeia, as pessoas propuseram imensas atividades da comunidade, ou seja, todos os fins-de-semana temos uma atividade proposta pela comunidade, e isso mostra que as pessoas estão sensíveis, querem fazer mais”, resume a bióloga.
Já noite dentro, e após as performances de Debit e Alessandro Cortini, o Extremo encerraria com Carlos Afonso, mais conhecido como Helviofox, um DJ que, aos 15 anos (e já dois anos depois de ter lançado as primeiras faixas) fundou a TLS produções, em conjunto com outros artistas da Quinta do Mocho, o bairro de Loures de onde é oriundo. O seu percurso musical parecia uma inevitabilidade: irmão de Dadifox e Erycox, cresceu a ouvir as batidas dos irmãos e decidiu experimentar por curiosidade, como contou ao Gerador. Da curiosidade passou ao gosto, e aos 20 anos, depois de ter lançado, em 2025, o seu álbum de estreia, “Rodeado de Batida”, Helviofox já tem uma certeza: viver da música é o seu objetivo.