A indignação é condição de mudança. Apenas quando nos indignamos, tomamos a iniciativa de agir; e, agindo, esperamos mudar a situação que nos indigna. Mas as condições, as práticas e as próprias definições de indignação são múltiplas. Há, ainda assim, um ponto que é obrigatório: a indignação é o oposto da apatia. Mesmo quando não exprimida, a indignação ativa-nos, agita-nos, questiona-nos e acompanha-nos. Onde a apatia nos apaga e extingue, a indignação ativa-nos. Condição de mudança, a indignação pode, no limite, bloquear ou atrasar a mudança. Vejamos como.
Comecemos por tentar definir a ideia de indignação como um sentimento mais ou menos difuso em resposta a algo entendido como uma (ou um conjunto) de injustiças. Perante uma injustiça, indigno-me, saio da apatia onde me pudesse encontrar. Mas esta indignação não implica forçosamente ação e podemos assim definir dois níveis de indignação: expressa ou reprimida. A indignação expressa é visível: exprimo-a verbalmente, saio à rua numa manifestação, ajo de alguma forma para mostrar que estou indignado. Mas a indignação, embora tenda sempre para a sua expressão, pode ser reprimida; ou seja, embora me sinta indignado e independentemente do grau de indignação que sinto, ela não é expressa de nenhuma forma. Na língua coreana existe uma expressão para a indignação perante uma situação percebida como injusta e que, mesmo podendo não nos dizer respeito diretamente, também nos afeta: Hwabyeong 화병 (doença do fogo). Fogo porque a repressão da expressão da indignação – muitas vezes causadas pelas regras sociais que punem essa expressão, como é o caso coreano – nos queima por dentro, numa sensação física que se assemelha a uma queimadura real.
Podemos ainda definir dois níveis de indignação: individual e coletivo ou societal - também aqui, pode ou não implicar ação e expressão da indignação (e em diferentes escalas), sendo a sobreposição entre estes dois níveis uma possibilidade. A indignação individual deve-se a questões que nos dizem diretamente respeito: ficar doente, a perda de emprego, ver um familiar ser injustiçado, entre tantas outras situações. A indignação coletiva prende-se a algo que muitas pessoas entendem como injusto, num sentimento partilhado. Também aqui os exemplos abundam e podem ter várias escalas, de uma doença causada numa determinada zona devido a uma fábrica poluente ao desemprego em massa, passando pelo aumento do custo de vida ou a vida sob o jugo de um líder autoritário.
Finalmente, há ainda uma terceira distinção de indignação que podemos fazer e que diz respeito ao seu grau: concreta ou difusa. A indignação concreta tem a causa ou causas da injustiça sentida bem identificadas. Se perguntarmos por que razão a pessoa está indignada imediatamente teremos resposta. A indignação difusa é mais complexa. Podemos suspeitar da razão da nossa indignação mas não conseguimos identificar exatamente o que nos indigna. Esta indignação difusa é particularmente relevante quando falamos de indignação a nível societal; sabemos que estamos indignados, sabemos que a nossa família, a nossa comunidade, sente também um sentimento de indignação cuja origem não consegue forçosamente identificar.
Não é exagerado dizer que vivemos atualmente numa época onde a indignação marca as nossas vidas, mas esta não é uma realidade constante. Relembremos o pequeno ensaio “Indignez vous!” de Stéphane Hessel, publicado em 2010, onde apelava à indignação. Resistente anti-nazi, Hessel via nos seus concidadãos um estado de apatia que os impedia de agir contra as injustiças que os afetavam. O texto foi recebido com entusiasmo em vários países, contribuindo para que a apatia se fosse tornando em indignação. Foi, aliás, nessa sequência, onde a indignação se transformou em ações de rua e concentrações, que surgiu um partido em Espanha chamado precisamente “Indignados”; ali, a a indignação difusa e coletiva transformou-se em ação comum na forma de um partido político.
E onde estamos agora? Onde há uns anos havia falta de indignação talvez hoje haja excesso.
Não estaremos viciados em indignação? Não a indignação como mobilizadora mas, na prática, como forma de fazer exatamente o contrário. Exagerando nas indignações, a ação coletiva bloqueia-se e elimina-se. Penso num episódio dos Simpsons onde Mr. Burns vai ao médico e este lhe diz que ele não morre porque tem tantas doenças que elas se bloqueiam mutuamente. Com a indignação, talvez o mesmo esteja a acontecer.
Impõe-se então a pergunta: como transformar apatia em indignação e ter a indignação ao serviço de uma luta progressista? Um bom ponto de partida, seria não reagirmos imediatamente a toda e qualquer provocação da extrema direita.