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Festa do Livro da Amadora: diferentes identidades dialogam através da arte e literatura

Os autores e artistas presentes na Festa do Livro da Amadora de 2026 levaram os visitantes numa caminhada onde a literatura e a arte são portas abertas para entender a complexidade do mundo.

Texto de Leonor Viegas

Edição de Tiago Sigorelho

Fotografia de Rita Costa

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A 11ª edição da Festa do Livro da Amadora teve início numa tarde escaldante, mas o calor não impediu os visitantes de celebrar a literatura nas suas mais diversas formas e linguagens. Entre os dias 11 e 13 de setembro, vários foram os nomes que preencheram o cartaz de workshops, debates e espetáculos, que pintaram a programação da Biblioteca Fernando Piteira Santos. Dos livros ao Hip-Hop, da fotografia à pintura, diferentes escritores, músicos e artistas visuais foram convidados a refletir sobre o cruzamento de realidades, identidades e territórios nos seus projetos.

“Qualquer ato artístico é político. Envolve-nos a nós e ao mundo”

Pato Bravo, fundador da Péssima Editora, e o autor e ilustrador António Jorge Gonçalves inauguraram o primeiro de três dias de programação com um debate sobre Banda Desenhada (BD). A tímida plateia cresceu, ao longo da conversa que uniu os dois editores numa reflexão em torno dos bastidores da edição independente em Portugal. Em entrevista ao Gerador, permitiram-se viajar sobre a atualidade da produção de BD, quem a faz e os assuntos que esta tem, ou não, a capacidade de evocar. 

António Jorge Gonçalves revela dificuldade em identificar um fio condutor nos temas que transporta em mais de 30 obras publicadas. Acredita que traz nas suas publicações um bocadinho de todas as realidades, numa mistura entre o seu universo e o de todos os escritores com quem já trabalhou. Na sua maioria, as temáticas que veicula nos seus projetos não surgem de forma propositada. “As ideias, personagens e acontecimentos aparecem, e o livro constrói-se”, muitas vezes sem se conhecer o seu verdadeiro ponto de partida. É nos leitores, e nas respetivas críticas, que encontra ferramentas para interpretar as próprias histórias.

Na ótica de Pato Bravo, apesar de ser um meio barato, fácil de produzir e próximo do público, a BD ainda está longe de conseguir representar a pluralidade de contextos que têm lugar no mundo. Acredita que esse caminho apenas é traçado quando se dá voz “às pessoas fora do status quo”. Mesmo assim acredita que “a Banda Desenhada portuguesa está finalmente a chegar à maioridade”, com novos leitores, conteúdos e métodos de produção.

Na mesma linha de pensamento, António Jorge Gonçalves destaca o crescimento da representatividade feminina no setor. Acredita que as novas autoras vêm combater “a cristalização de temas e a visão estereotipada da mulher”, presentes num meio que sempre se pautou pela forte presença masculina. Hoje em dia, observa que o desenvolvimento da BD permite experiências mais sofisticadas que articulam narrativas paralelas e múltiplos pontos de vista.

Conversa: BD entre Amigos, com Pato Bravo e António Jorge Gonçalves

Fotografia de Rita Costa

Numa reflexão em torno de uma possível função política da arte, o ilustrador considera que há momentos na história em que os artistas podem sentir uma maior necessidade de ter uma voz mais ativa. No caso da BD, Persépolis, é uma das obras que tem como referência na discussão de fatores políticos de forma direta. A autobiografia gráfica de Marjane Satrapi chegou a integrar o currículo da Academia Militar dos Estados Unidos, em West Point, onde era estudada num curso que abordava literatura e cinema iranianos. No que toca aos seus projetos, António Jorge Gonçalves revela que está a desenvolver um trabalho sobre a Cova da Moura, com a intenção de mostrar o que é vivido no local.

Por outro lado, Pato Bravo sublinha que a arte não tem de ser submissa ao moralismo e que tudo depende da perspetiva dos seus autores. “A arte e a cultura são expressões pessoais”, justifica. Já António Jorge Gonçalves não tem dúvidas: “Qualquer ato artístico é político. Envolve-nos a nós e ao mundo.” O ser humano é “um bicho eminentemente simbólico”, que quer atribuir significado a tudo, comenta. No entanto, assevera que a arte tem mais camadas e não deve ser reduzida ao seu teor político. Para o autor, “ter uma música apenas para dançar ou para nos acompanhar no fim de uma relação” é uma necessidade humana.

A arte também conta o que o mundo não vê

“O Hip-Hop é um dos géneros musicais que mais reflete a sociedade”, remata Ricardo Farinha. O jornalista estudou e documentou o rap português, e é uma voz ativa no que diz respeito a culturas musicais e urbanas. Foi chamado a moderar o debate “Poetas do Hip-Hop”, com  Mynda Guevara e Nerve. 

Descreve o nascimento do rap nos EUA como uma forma de relatar a realidade de quem está a escrever. O objetivo era mostrar os acontecimentos que não cabiam na televisão ou os lugares onde a comunicação social não chegava, explica. De acordo com o jornalista, são estas particularidades que tornam o género musical num reflexo da sociedade, ou pelo menos de uma parte dela.

Em Portugal, o Hip-Hop também foi absorvido como um espelho do que as diferentes comunidades pensam e observam, contextualiza Ricardo Farinha. Do racismo às desigualdades sociais, ou à intervenção policial, os problemas não mudaram e, para o jornalista, são intemporais. Explica assim que a génese do rap está sempre ligada a um sentido de denúncia ou de crítica.

Existe hoje em dia uma geração de artistas que cresceram em bairros sociais, enfrentaram os problemas dessas comunidades e revolucionaram a sua vida através da música, descreve o jornalista. Começam assim a rimar sobre esse crescimento e a refletir a sua trajetória, sublinha. No fundo, Ricardo Farinha considera que o rap é um reflexo da vida como um todo, não só quando vem de um ponto de vista crítico e interventivo, mas também quando parte de um lugar de festa e ostentação. 

Para a rapper Mynda Guevara, a ligação ao Hip-Hop é quase umbilical. “Faço parte de uma comunidade que é consequentemente hostilizada e vivo aquilo que eu canto”, ilustra. A grande utilidade que a artista encontra no rap é como este estilo lhe permite relatar a sua realidade, como as diferentes entidades tratam os seus e a inquietude de sentir que estão constantemente a ser inseridos em caixas estereotipadas.

“Eu expresso no rap o que eu sinto, mas também é como se bebesse um bocadinho do outro para poder contar a sua história”, reflete. A artista espera conseguir representar quem não tem voz no espaço público. Quer que essas pessoas se possam identificar com a sua música, numa dinâmica que acredita enriquecer não só o seu trabalho, mas também a sua experiência pessoal.

Espetáculo: Mynda Guevara / Conversa: Poetas de Hip-Hop, com Mynda Guevara, Nerve e o moderador Ricardo Farinha.

Fotografias de Rita Costa

A biblioteca da Amadora recebeu ainda o rapper Maze, na dinamização de um workshop de escrita criativa. Apesar de nem sempre escrever a partir de uma perspetiva pessoal, o músico analisa a sociedade e tenta absorver e perceber o outro, numa observação que considera indissociável da sua existência. Depois, reflete no seu trabalho a visão que constrói em torno dessas vivências. Apesar dos inúmeros desafios que o mundo enfrenta atualmente, apresenta uma perspetiva mais positiva em relação ao papel da música.

Para o rapper, “este é um bom momento para se estar vivo”, mesmo com todas as incertezas que o futuro possa despertar. “Também cabe à arte e à cultura entregar esse pedaço de esperança às pessoas”, remata. Na visão de Maze, “vivemos tempos em que estamos uns contra os outros”. Mesmo assim, considera que a arte pode diminuir as distâncias entre as pessoas e criar pontes onde visões opostas encontram um ponto de encontro. Acredita que a palavra pode transformar realidades sem emitir julgamentos ou preconceitos, ao deixar que o outro se descubra e tire as suas próprias conclusões.

Oficina: Escrita Criativa, com Maze

Fotografia de Rita Costa

Dar a conhecer os problemas a partir dos olhos de quem os vive

No segundo dia de Festa do Livro, o jardim em frente à biblioteca cobriu-se de bancos improvisados, mantas brancas e almofadas amarelas e vermelhas. O público sentou-se e ficou a aguardar o início do Parlamento das Palavras. Integrado num projeto europeu, o Parlamento das Palavras convida os jovens a pensar em temas que os preocupam e estão presentes no seu dia a dia. Em Portugal, a iniciativa foi elaborada numa colaboração entre o Gerador, a CoolBrave e o Moinho da Juventude, estas últimas associações que atuam na Amadora. 

Ao longo de vários meses que antecederam este momento de apresentação, vários jovens da Amadora organizaram-se em grupos e produziram videos sobre as questões que os preocupam. Através de uma abordagem à discriminação, um dos grupos apelou ao respeito pela diferença, seja na cor da pele ou na orientação sexual. Ainda na linha do preconceito, outro grupo decidiu relembrar o caso do Odair Moniz. O objetivo foi representar a violência policial motivada por comportamentos racistas e alertar para os abusos vividos pela sua comunidade.

A exposição voltou-se ainda para a luta das mulheres na conquista dos seus direitos. O coletivo de raparigas que apresentou este tema quis ressaltar que, apesar dos progressos sentidos, a mulher ainda não é vista da mesma forma que o homem em questões relacionadas com a empregabilidade e os salários. A violência doméstica, as suas consequências na saúde mental das vítimas e a necessidade de denúncia de casos de agressão foram também temáticas abrangidas.

Liedson Carvalho foi um elemento ativo na gravação dos diferentes vídeos. Agradece a oportunidade de realizar uma tarefa que normalmente “não é confiada a alguém do bairro”. O jovem, defende que devem ser a comunidade bairrista a contar a própria história, pois acredita que os media, ao tentar desmistificar estereótipos, muitas vezes os acentuam. “Nós temos de nos conformar com o que a supremacia branca faz, lamenta. Desta forma, ressalta que a comunidade negra deve ser incluída e ter um papel ativo no futuro do bairro, em vez de estar confinada a uma bolha.

Parlamento das Palavras

Fotografias de Rita Costa

“É violento ser mulher nos dias de hoje”

A Esplanada Literária, no exterior do edifício da biblioteca, foi palco de distintas performances poéticas que acompanharam também parte do segundo dia de Festa do Livro. Maria do Mar Neto e Maria Angélico contam como transformam experiências pessoais em manifestações artísticas, que ganham forma através da escrita e do corpo. 

Maria Angélico sente-se no direito de dizer que “é violento ser mulher nos dias de hoje, num país estruturalmente misógino”. Enquanto mulher, não consegue escrever sobre outra coisa. “Posso falar de como o sol é bonito, mas como o sol é bonito tenho de tirar a roupa, e não me sinto confortável”, justifica. Mas não fala apenas da sua realidade, já que ao discursar na primeira pessoa e usar os pronomes femininos, espera englobar todas as mulheres e todos os seres que a quiserem ouvir.

Maria do Mar Neto partilha desta visão, mas com uma camada acrescida: “Identifico-me como uma pessoa não binária”. Apesar de não querer ser entendida como um homem, descreve que a sua aparência física já despertou mal-entendidos. Conta que uma vez ao entrar num automóvel do Uber, o motorista a confundiu com um rapaz e iniciou um discurso de ódio contra a mulher e minorias. “Foi assustador, mas é um papel que gosto de ter, porque uso isso na minha poesia”, confessa.

A escritora e pesquisadora Hilda de Paulo, com trabalhos desenvolvidos no âmbito das dissidências de género, foi mais uma convidada desta festa. Quando escreve, evoca as questões transfeministas numa perspetiva educativa. Descreve que ao longo da sua infância e adolescência, sentiu falta de boas referências, já que as representações de pessoas transexuais eram, na sua maioria, ridicularizadas ou pornográficas.

Durante a apresentação na Festa do Livro, Hilda de Paulo teve oportunidade de falar sobre o trabalho que desenvolveu em torno do Arquivo Gis. Gisberta Salce Júnior foi uma mulher transexual brasileira assassinada por 14 adolescentes em 2006, no Porto. A escritora alerta que não foi caso único, mas o acontecimento trouxe uma mudança para a comunidade transgénero em Portugal. No entanto, nas referências encontradas, Gisberta é despida de vida, numa ignorância acerca das várias camadas da sua identidade e das pessoas que a rodeiam, lamenta.

Na sequência da criação do Arquivo Gis, em 2022 dirigiu um espetáculo sobre a história da cultura transsexual em Portugal. “O que vem depois da esperança” esteve esgotado nas suas seis apresentações. Quando tentou abrir o espetáculo a outras entidades, como a DGArtes, Hilda de Paulo não conseguiu financiamento, com a justificação de que a performance não tinha relevância cultural. A FCT também negou o projeto, por ter sido desenvolvido por uma artista e não por uma investigadora.

Hilda de Paulo na Conversa: Territórios, Fronteira e Identidades / Maria do Mar Neto e Maria Angélico no Café Literário

Fotografias de Rita Costa

Ecos de um passado que se perpetua até aos dias de hoje

Hilda de Paulo debateu com Eliana Alves Cruz numa reflexão sobre territórios, fronteiras e identidades. A jornalista e escritora brasileira traz ao espaço público a representação negra e diferentes visões sobre o colonialismo. A convidada acredita que, mesmo que não se fale sobre isso, a sociedade ainda vive presa nos ecos de uma colonização, seja através da arquitetura, da cultura ou da própria língua.

Eliana Alves Cruz fala sobre a sua obra “O crime do cais do Valongo”, e contextualiza que este é o único lugar com vestígios físicos da chegada de pessoas escravizadas à América”, mas que não era descrito na literatura. Descreve a colonização como um processo extremamente violento, que deixa marcas ao longo de século. Este livro surge como uma materialização disso mesmo.

Para a jornalista, o pensamento colonial ainda está presente, mas mudou de roupa e agora transporta um iphone com uma aplicação na mão. Desta forma, encara os motoristas de TVDE ou que fazem entregas como “escravizados de bem”. Comenta que estes trabalhadores operam até ao fim da vida, sem direitos e remetem mais de metade do dinheiro ganho “ao senhor”.

Para Eliana Alves Cruz, durante muito tempo a comunidade negra aceitou a existência de uma só voz para falar da sua história. Defende que não é possível para um país composto por tantas identidades não ouvir toda a sua diversidade. “Somos uma sociedade complexa, precisamos de nos desviar de redes que a colocam em comentários agressivos de três linhas”, completa. A escritora acrescenta ainda: “Até a forma de falar é uma marca identitária. O falar brasileiro é uma língua que foi influenciada por muitas culturas indígenas. A ideia de pureza não existe.”

Para Eliana Alves Cruz, “a literatura é uma oportunidade enorme de elaborar vida e significados além de nós, do que somos e do nosso tempo.” Até quase metade do século XX pessoas negras estavam proibidas de ler, o que produziu uma lacuna educacional, comenta a escritora. Lamenta que as consequências sejam sentidas até hoje.

Eliana Alves Cruz não foi a única a debruçar-se sobre as problemáticas associadas ao colonialismo e à comunidade negra. Roberto Saraiva é um jovem escritor que acompanhou Maria do Mar Neto e Maria Angélico no Café Literário. As histórias que traduzem o percurso e as memórias das suas avós na guerra de Angola. “Não sou eu que escolho o que escrevo, é aquilo que a vida me obriga a escrever”, reflete.

Roberto Saraiva perspetiva a sua vida em torno de dois paradigmas, que se dividem entre Portugal e Angola. Tal como Eliana Alves Cruz, acredita que, ao escrever sobre o colonialismo português, permite uma reflexão sobre os impactos que este momento da história tem nos discursos que se perpetuam até ao dia de hoje. Ao refletir em relação à importância de ler sobre realidades que não são comuns a toda a gente, conclui: “É essencial para cada pessoa, independentemente da sua origem, porque permite pensar a nossa condição como seres humanos e sobre aquilo que podemos fazer para mudar o mundo”.

Roberto Saraiva no Café Literário / Eliana Alves Cruz após a Conversa: Territórios, Fronteira e Identidades

Fotografias de Rita Costa

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