Há uma ingenuidade boa em acreditar que se pode construir um festival internacional de cinema a partir de uma pequena vila. No BIOGRAF, essa disponibilidade revela-se nos gestos que sustentam o festival: a atenção aos convidados, o cuidado com o público, a presença constante de quem programa. Esta vontade de fazer acontecer levanta a questão de como transformar o investimento pessoal numa instituição duradoura.
A segunda edição decorreu entre 21 e 29 de agosto, no Palco das Artes, em Vila Nova de Cerveira. Com filmes de 40 países, o mote «Construir pontes, edificar ideias» encontrou na arquitetura uma forma de pensar os espaços que habitamos e as relações que os constituem. A circulação de obras de autores emergentes, particularmente curtas-metragens, deu substância a essa abertura internacional.
Esta orientação prolonga o trabalho de António Bernardes de Sá e Tiago Bastos Nunes, responsáveis pela Adversa Studio, que dirigem o festival com Magna Araújo Amorim. O estúdio cruza criação audiovisual, artes digitais e outras disciplinas. O BIOGRAF parece transportar essa curiosidade dos seus autores para a curadoria.

Cerveira oferece um contexto particular a este encontro. A Bienal, criada em 1978, tornou a arte contemporânea parte da identidade e da projeção exterior da vila. Em 2026, a articulação com a XXIV edição incluiu uma mostra de cinema e performances integradas na agenda do BIOGRAF, prolongando uma abertura à experimentação artística que encontra também expressão na programação do festival.
As secções Novas Narrativas e Primeiras Biografias revelaram alguns dos sinais mais promissores dessa abertura, pelo espaço dado a novas linguagens e a autores em início de percurso. Destacam-se Feitos de Betão, de Canivete, que cruza documentário e ficção num retrato de Algueirão-Mem Martins, e Night of Passage, de Reza Rasouli, sobre três amigos de Teerão à espera de prosseguir uma travessia clandestina junto à fronteira austríaca. Dois filmes que permitem pensar o território através das vidas que nele procuram lugar.
As Primeiras Biografias aproximaram escolas internacionais do Instituto Politécnico de Viana do Castelo e da Universidade da Beira Interior. A conversa com Carlos Lobo e Luís Martinho Urbano, ambos cineastas e docentes, acrescentou uma dimensão de reflexão ao encontro com os filmes. Esta ligação entre criação, ensino e debate ajuda a definir a utilidade cultural do festival.
O Minho tem uma geografia cinematográfica desigual. Braga e Guimarães mantêm oferta comercial; Viana viu encerrar, em janeiro, as salas da Cineplace, mas conserva as sessões da AO NORTE no Cinema Verde Viana. Os ENCONTROS, em Viana, e o Close-Up, em Famalicão, mostram a vitalidade da programação. Já a interrupção do MDOC, em Melgaço, após a retirada do apoio municipal para 2026, expõe a fragilidade da continuidade. O BIOGRAF inscreve-se neste tecido de iniciativas e vulnerabilidades.

Segundo a organização, a mostra da Bienal e os nove dias principais somaram 1.338 lugares ocupados. Com a atividade anual, incluindo o Programa Educativo, foram 2.007 participações. São presenças, não pessoas distintas, mas apontam para uma relação que ultrapassa o evento. O orçamento rondou os 34 mil euros: 21 mil do Município e 13 mil da Fundação Bienal, no âmbito da XXIV BIAC. Estes apoios tornam possível uma oferta cuja importância não cabe apenas na bilheteira.
Para 2027, a organização pondera setembro, procurando maior proximidade ao calendário universitário e uma posição anterior a festivais consagrados do outono. A hipótese permanece em discussão. Mais decisivo será garantir condições de trabalho, continuidade educativa e tempo para construir públicos. O cuidado que caracteriza o BIOGRAF permite acreditar no seu futuro. Cabe às instituições ajudar a dar duração a essa vontade.
Créditos fotográficos: Guilherme Pacheco e Patrick Esteves
O Gerador viajou a convite do Biograf.