“É por isto que dançamos:
Porque gritar não é gratuito.
Digam-me, por favor:
Porque será a raiva – até a raiva – um luxo
para mim?”
A chegada à vida do poeta destes versos Mohammed El-Kurd, a 15 de maio de 1998,coincide com o dia da comemoração da Nakba, a catástrofe palestiniana de 1948, ano em que a sua avó Rifqa foi expulsa pela ocupação israelita da sua cidade Haifa. Quando tinha onze anos, colonos israelitas roubaram parte da casa da sua família, em Sheikh Jarrah, na Jerusalém ocupada, e instalaram-se nela. Aos catorze, escreveu uma carta aberta sobre isto ao então Presidente dos UEA Obama. Mais tarde, ele e a sua irmã gémea Muna ficaram conhecidos pelo seu papel no movimento #SaveSheikhJarrah, contra o processo contínuo de expulsão e limpeza étnica dos palestinianos, uma luta que Mohammed levouaté às Nações Unidas. Em 2021, os gémeos foram incluídos na lista das cem pessoas mais influentes do mundo da revista Times. Mohammed El-Kurd reconheceu que essa distinção poderia ser um sinal positivo, mas alertou que reduzir a resistência palestiniana a um único rosto era mero simbolismo e nunca seria suficiente para apoiar a causa. Já então recusava o papel da vítima perfeita.
Não é só nos versos em epígrafe que Mohammed El-Kurd fala das vítimas palestinianas perfeitas, cujo sofrimento e humanidade são apenas reconhecidos quando se comportam como o mundo espera delas. Na conversa recente que tive com ele na Feira do Livro do Porto, este escritor palestiniano também nos lembrou de que é possível olhar para a sociedade palestiniana em toda a sua complexidade e, ainda assim, reconhecer que todo opovo palestiniano merece ser livre, e não apenas aqueles que cabem na imagem da vítima perfeita. Como em qualquer outro lugar, na Palestina há pessoas boas e também más. Hátrabalho infantil, há quem roube, quem seja misógino e homofóbico. Há quem cometa crimes e quem cumpra a lei. Todas estas pessoas, sem exceção, têm direito à libertação.
Mohammed tornou-se cedo jornalista, escritor premiado e um poeta sem concessões. É autor da coletânea de poesia Rifqa (Antígona, 2024) e do ensaio Vítimas Perfeitas - A Condição Palestiniana (Edições 70, 2025, livro que afirma que os jornalistas na Palestina são quase poetas ao narrarem toda esta morte e que os poetas escrevem com facas, deixando uma pergunta a ressoar na nossa cabeça: como se noticia o que deveria ser ficção?
Na introdução de Vítimas Perfeitas, Mohammed El-Kurd escreve que não é apenas o luto que torna a escrita em tempo de genocídio uma tarefa tortuosa, mas, sobretudo, a consciência de que a palavra escrita é vergonhosamente insuficiente perante bombas de uma tonelada. Afirma que é difícil imaginar o que um poema pode fazer no cano de uma arma, uma frase que surge duas vezes no mesmo capítulo, como se a própria repetição insistisse nos limites da poesia. Por outro lado, no posfácio de Rifqa, diz ter aprendido que a poesia é plantar uma bomba num jardim.
Vítimas Perfeitas mudou a forma como penso os argumentos que uso na defesa da Palestina, sobretudo aqui, no Ocidente. O livro descreve as horas que desperdiçamos a tentar provar a nossa humanidade: que os nossos homens são pais carinhosos; que do rio ao mar não é um apelo secreto ao genocídio; que uma Palestina livre não conduzirá a um segundo Holocausto; que não há túneis debaixo dos hospitais; que até os académicos israelitas reconhecem que se trata de um genocídio; que o antissionismo não é antissemitismo. Mohammed El-Kurd mostra que a própria falta de lógica da propaganda é a sua maior força, porque nos distrai do essencial: o colonialismo, o cerco e a ocupação militar. Lembra-nos de que não há lugar para conversas paralelas perante corpos em chamas. Nada pode tornar as pessoas palestinianas matáveis.
Na carta aberta que escreveu ao Presidente Obama, aos catorze anos, Mohammed dizia que, se pudesse formular um único desejo, seria devolver a todas as pessoas os direitos que lhes foram roubados, desde uma pequena bola tirada a um rapaz na rua até um grande pedaço de terra roubado a um avô. Quando lhe perguntei se esse continuava a ser o seu desejo, respondeu explicando a sua visão de uma Palestina livre: redistribuir os recursos e a riqueza, devolvendo a terra a quem pertence; libertar todos os presos políticos palestinianos; e garantir o regresso de todos os refugiados palestinianos à sua terra natal.
A conversa terminou com jasmim, a flor que trepa por todo o livro Rifqa para regressar em Vítimas Perfeitas: “sempre houve luta, sempre houve jasmim”, isto porque “as sementes não precisam de autorização de tréguas para germinar.”
O meu próprio livro de poesia intitula-se Chuva de Jasmim e, talvez por isso, ressoa em mim a pergunta que atravessa um dos seus poemas “a que distância estamos de Jerusalém(…) a que distância estamos do jasmim?” Sabendo que a conversa que tive com Mohammed El-kurd certamente não iria parar o genocídio e a limpeza étnica que intensificam por toda a Palestina, do rio ao mar, talvez tenha permitido que sonhássemos uma Palestina livre. Como ele diz: se as sementes podem germinar no inferno, também a revolução pode.