Do tecido como matéria-prima ao tecido como metáfora. O tema da próxima edição da Contextile presta-se a várias interpretações e objetivos, mas a ambivalência é propositada. O mote “Por um Fio” reconhece a vulnerabilidade do tecido do mundo, desgastado por crises ecológicas, sociais, políticas e económicas, ao mesmo tempo que olha para esse fio enquanto motor de regeneração.
“As comunidades estão por um fio”, descreveu o diretor da bienal, Joaquim Pinheiro, na conferência de imprensa de lançamento. Com esta ideia em mente, a organização procurou artistas alinhados com este tipo de preocupação. É o caso de Ai Weiwei, o artista convidado da oitava edição, que irá produzir obras inéditas a apresentar em diferentes espaços da cidade, incluindo os tanques da cooperativa de intervenção social Fraterna, testemunho histórico da importância da indústria dos curtumes em Guimarães e o local onde a conferência de imprensa teve lugar.
Artista multifacetado e ativista, Ai Weiwei tem-se destacado pela atenção à crise dos refugiados ou ao autoritarismo. Neste caso, o seu trabalho, que além dos tanques da Fraterna, também poderá ser visto no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) e na Praça da Plataforma das Artes e Criatividade, vai invocar questões de proteção do património e fragilidade do espaço público.
A escolha de Ai Weiwei não significa, contudo, que a Contextile 2026 seja apenas um lugar de protesto. A organização pretende que seja também um gesto afirmativo, capaz de propor alternativas e desenhar trajetórias capazes de aliar a criação artística e a ética. E isso começa por dentro, ou não fosse a indústria da moda uma das causas dos problemas que aqui se evocam: depredação de recursos, excesso de consumo, extrativismo, poluição. Segundo um relatório da Agência Europeia do Ambiente, publicado em março de 2025, o consumo de têxteis na União Europeia aumentou de 17 kg por pessoa em 2019 para 19 kg por pessoa em 2022. Também nesse ano, 234 milhões de toneladas de matérias-primas foram usadas na produção de vestuário, calçado e têxteis para o lar, sendo que dois terços desses materiais são extraídos ou produzidos fora da Europa.
A importância da reciclagem
Mas como vai a bienal abordar estes problemas? “Estamos a estabelecer contacto com imensas empresas na área da reciclagem, e também com novas empresas e instituições que se estão a organizar para dar resposta à questão da reciclagem têxtil”, esclarece Susana Milão, que integra a direção artística da Contextile. O programa prevê, inclusivamente, a realização de um conjunto de workshops técnicos e criativos ao longo dos 85 dias de bienal, e um deles, resultante de uma parceria com o programa de financiamento Europa Criativa, será dedicado ao tema da reciclagem têxtil.
A diretora artística Cláudia Melo vê na bienal uma oportunidade para olhar para o têxtil como linguagem crítica capaz de funcionar como “sentido de alerta para uma produção mais sustentável”. E realça que não se trata apenas de falar de reciclagem ou de reuso de materiais, mas de crises sistémicas. O programa de residências artísticas que integra a bienal (Weaving the Green / Tecer o Verde) procura abordar estas crises e as suas diferentes dimensões, desde logo, a sustentabilidade ambiental e a comunidade. O objetivo das residências, desenvolvidas em parceria com Guimarães Capital Verde Europeia 2026, é reforçar a sinergia entre arte têxtil contemporânea, indústria têxtil, tradições e matérias-primas, mesclando-a com a sustentabilidade e dando origem a intervenções no espaço público. A título de exemplo, Cláudia Melo menciona uma proposta que irá trabalhar roupa doada enquanto alimento simbólico, numa evocação da importância da mesa enquanto momento de paragem e reflexão. “O sentido da relação comunitária é colocado a priori. Os artistas vêm trabalhar com a comunidade, [com] comunidades mais ou menos específicas que são selecionadas tambeḿ de acordo com os seus projetos, e colaboram em diferentes estádios do processo de trabalho”, sublinha Cláudia Melo.
A relação com a comunidade não se fica por aqui, alargando-se às parcerias com agentes locais da indústria têxtil que tornam possível o trabalho artístico. E não é um desafio simples, como faz questão de sublinhar Joaquim Pinheiro, já que implica interromper o plano de produção para integrar estes trabalhos. É o caso da Têxteis Penedo, um dos parceiros da bienal, onde serão produzidas as tapeçarias que servem de base a uma das intervenções artísticas. “Foi difícil encontrar uma empresa que pudesse bloquear a produção” durante um, dois ou três dias, reconhece Joaquim Pinheiro.

Tanques da Fraterna, onde será possível ver uma das intervenções de Ai Weiwei
Fotografia de Ivo Rainha
Participação recorde
A oitava edição assinala também um recorde de participação, como notou Joaquim Pinheiro na conferência de imprensa. 1604 artistas de 81 países submeteram um total de 2036 obras, em resposta à convocatória aberta para a Exposição Internacional. Desse leque, o júri selecionou 54 obras de 51 artistas provenientes de 27 países, incluindo Ânia Pais, Estela Ribeiro de Melo, Frank Lahera O’Callaghan e Mariana Bacelar, fixados em Portugal, escolhidos segundo critérios de “elevada criatividade, originalidade e habilidade técnica em relação ao elemento têxtil, construção, tema, conceito ou material utilizado”, lê-se no site da bienal.
À exposição internacional junta-se a exposição “A Change in the Weather? Material storytelling in an Age of Uncertainty”, com curadoria da artista e professora emérita da Goldsmiths, Universidade de Londres, Janis Jefferies. Neste pilar de programação, quatro artistas (de Espanha, Tailândia, Inglaterra e Hong Kong) vão abordar temas de sustentabilidade, alterações climáticas e outros desafios da sociedade.
A relação com as escolas volta a estar presente por via do programa Emergências, através do qual os alunos das escolas de arte que incluem disciplinas de base têxtil são envolvidos na criação e produção de obras de arte. Os trabalhos serão depois apresentados numa exposição dedicada.
Também numa vertente pedagógica, mas internacional, o Fiber Media Lab, um laboratório artístico interdisciplinar sediado em Hangzhou, na China, apresentará um projeto com curadoria do artista Assadour Markarov e alunos da Academia de Arte da China. “Growing House”, uma casa feita a partir de tecelagem, tricô, nós e colagem, aborda a casa não apenas enquanto lugar habitável, mas também pela sua simbologia de segurança e abrigo.
Para a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães, Isabel Ferreira, a Contextile, que este ano coincide com a Capital Verde Europeia, é também uma forma de pensar o modo como as manifestações artísticas podem lançar reflexões e estimular a preparação de políticas de território.
As diferentes linhas programáticas da bienal vão ocupar 15 espaços do centro da cidade. A exposição internacional acontece no Palácio Vila Flor e a exposição resultante do projeto “A Change in the Weather? Material Storytelling in an Age of Uncertainty” poderá ser vista no Palacete Santiago, na Sociedade Martins Sarmento e na Galeria da Garagem Avenida. O programa Emergências acontece no Instituto de Design de Guimarães e o projeto Growing House terá lugar no Curtir Ciência, situado na Antiga Fábrica de Curtumes Âncora, um espaço orientado para a divulgação científica junto da comunidade escolar.
O programa de residências Weaving the Green dará origem a intervenções no Largo do Convento de Santo António dos Capuchos, na Praça do Conde Arnoso, no Mercado Municipal e no Museu de Alberto Sampaio.
Logo nos primeiros dias da bienal, a 6 e 7 de setembro, o Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor recebe as Textile Talks, dois dias dedicados à troca de ideias, projetos e pesquisas em torno do têxtil, da arte e outras áreas disciplinares.
O Gerador é parceiro de media desta edição da Contextile.