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Marcha Gualteriana: 120 anos a levar Guimarães para a rua

Entre carros alegóricos dedicados à Capital Verde Europeia, ao centro histórico classificado pela UNESCO e à memória da própria celebração, Guimarães voltou a sair à rua, a 3 de agosto, para encerrar as Festas da Cidade com a tradicional Marcha Gualteriana.

Texto de Cátia Vilaça

Edição de Tiago Sigorelho

Fotografia de Mariana Silva / Cheri Cheri Media

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Mais de uma hora antes do início do desfile, já os populares iam dispondo cadeiras desdobráveis na Alameda de São Dâmaso, próximo do Largo do Toural, para assistir à passagem do cortejo com conforto e boa visibilidade. O cenário repetia-se noutros pontos do percurso.

Passava das 22 horas quando a Marcha arrancou. Dançarinas, grupos musicais, forças de segurança e entidades comerciais da região desfilaram com guarda-roupas coloridos e coreografias variadas, umas mais ensaiadas e outras mais improvisadas. Mas o destaque é para os carros alegóricos: construídos essencialmente em madeira e esferovite e cobertas de cor, as estruturas, com cinco metros e meio de altura, dominaram a paisagem noturna.

Fotografias de Mariana Silva / Cheri Cheri Media

Representam momentos-chave da história da cidade, tanto a mais antiga como a mais recente. O primeiro carro retrata o momento atual: a escolha de Guimarães como Capital Verde Europeia em 2026. Mas é também este ano que se assinalam os 25 anos da classificação do centro histórico de Guimarães como Património Mundial da UNESCO, o motivo de outro dos carros alegóricos. Ao longo do desfile, as efemérides recuaram bastante mais no calendário, com um carro a assinalar os 1100 anos da vila de Creiximir (atual freguesia de Creixomil). Quase a terminar, foi tempo de a festa se celebrar a si própria: a comemoração dos 120 anos da Marcha Gualteriana fez-se com direito a carro próprio e bustos dos quatro fundadores. Pelo meio, ainda houve oportunidade de homenagear o 50º aniversário da Constituição da República Portuguesa.

A preparação começa com três meses de antecedência. A 20 de abril, Salvador Silva começou a trabalhar nas estruturas que saíram à rua na última segunda-feira. Já o faz há 60 anos, pela “causa”, embora o cansaço também vá pesando. Para além de construir as estruturas em madeira, é Salvador quem faz todos os desenhos à escala, para que a restante equipa possa orientar o trabalho. 

Quando o Gerador o entrevistou na Associação Artística da Marcha Gualteriana, enquanto trabalhava a madeira, faltavam cinco dias para a saída do desfile, justamente o período de trabalho mais intenso. A hora não era a mais movimentada (apenas mais uma pessoa trabalhava na oficina), mas à tarde e à noite Salvador esperava ter mais mãos disponíveis. Ainda assim, longe da azáfama de outros tempos, quando até lista de espera havia para vir trabalhar para a marcha, assegura. A falta de outras distrações, como a televisão ou os telemóveis, é, para o artesão, parte da justificação do interesse redobrado de outrora nestes trabalhos. Ainda assim, as contas do carpinteiro apontam para 50 a 60 pessoas a trabalhar para erguer a Marcha.

Todas as peças que desfilam nos carros alegóricos têm de encaixar em quatro metros de largura e cinco metros e meio de altura, e as estruturas feitas por Salvador e pela restante equipa de carpinteiros são quase todas novas. Há apenas uma peça do ano passado que vai poder ser aproveitada, mas os diferentes temas pedem diferentes estruturas. 

120 anos de Marcha Gualteriana

O presidente da Associação Artística da Marcha Gualteriana, Rui Porfírio, conta os detalhes da génese da Marcha, em 1906, quase como se os tivesse vivido. À época, o presidente da Associação Comercial e Industrial de Guimarães, João de Mello, queria revitalizar as Festas da Cidade, então obsoletas, e para isso juntou-se ao pároco Gaspar Roriz e aos artistas José Pina e Abel Cardoso. 

Rui Porfírio. Fotografia de Mariana Silva / Cheri Cheri Media

João Mello encarregou-se das despesas e os restantes dividiram tarefas, nomeadamente a construção do programa e a contratação de músicos. A finalizar, e de forma improvisada, os organizadores decidiram colocar duas dançarinas em cima de charretes a percorrer uma das ruas da cidade, culminando na associação. O entusiasmo dos populares foi tanto que João de Mello terá decidido logo ali que no ano seguinte voltaria a haver desfile, mas mais ambicioso. 

Estava dado o mote para o início da Marcha, inicialmente apelidada de Milaneza, por Gaspar Roriz se ter inspirado num desfile de Milão e, a partir de 1932, Gualteriana. A origem está nas Feiras Francas de São Gualter, a celebração original, que remonta a 1452. O Arquivo Municipal Alfredo Pimenta corrobora a descrição de Rui Porfírio, ao atestar que, no início do século XX, as Feiras se encontravam “em decadência”, o que terá instado a direção da Associação Comercial e Industrial a agir.

Ao longo dos anos, foram várias as entidades responsáveis pela organização da Marcha. Hoje, é o município que a financia e a Associação Artística da Marcha Gualteriana que lhe dá forma. Esta história não foi, contudo, contínua. Houve anos em que a Marcha não saiu, por motivos de força maior como o início da Guerra Colonial ou o Covid, mas também por falta de verbas e desentendimentos, conta Rui Porfírio ao Gerador. 

A estética e os materiais também foram mudando. Hoje, a madeira, a esferovite e as pinturas impõem-se, mas já houve anos em que as estruturas, ao invés de pintadas, eram revestidas a palhão, um papel brilhante que exigia mais mão de obra. Na oficina, multiplicam-se bonecos articulados - tendo alguns integrado o desfile -, estruturas e objetos escultóricos.

Fotografias de Mariana Silva / Cheri Cheri Media

A máquina da Marcha está oleada. O que hoje preocupa Rui Porfírio não é a Marcha, mas a associação. Com 300 associados, a instituição organiza outras atividades durante o ano, mas o financiamento público tem como destino a Marcha. Mas para o presidente, importa que a associação tenha fundos para se manter sustentável e possa pagar os seus custos fixos.

O programa dos 120 anos não se esgota, por isso, no desfile. Em outubro, a casa tornar-se-á galeria, com as peças e fotografias do arquivo em exibição. Está também prevista a dinamização de colóquios, com a presença de antigos obreiros que possam partilhar as suas memórias da Marcha. 

Os mais novos também serão convocados a participar e a contribuir com ideias para o futuro desta celebração. As associações e escolas locais serão igualmente convidadas a partilhar a sua perspetiva sobre o que deve ser a Marcha, para além de estarem previstas oficinas e workshops para crianças e seniores. 

Em dezembro haverá festa de Natal. A nível simbólico, será criada uma medalha (em cortiça) alusiva aos 120 anos, e até ao início do próximo ano será editado um opúsculo com a história da Marcha. Estes são os planos de futuro de Rui Porfírio, empossado em março deste ano. Mas o desejo mais imediato, partilhado a dias do evento, era que esta fosse “uma boa marcha”. 

Para Tino Soares, foi. O vimaranense, residente no centro histórico, acompanhou o desfile em frente à muralha da cidade, onde o público se distribuía no passeio e nas varandas. Desta vez veio assistir, mas já foi participante. Diz que noutros tempos havia mais irreverência, e que dos bonecos articulados já só restavam arames no final do desfile. Vive a Marcha com orgulho e emoção, tanta que até lhe faltam palavras para a descrever. Mas faz a mesma avaliação de todos os anos: “É bonito”.

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