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(Não) Deitar a toalha ao chão: mas ainda há quem acredite na política?

Desconfiança, distância, desinteresse – palavras que conseguem traduzir o que sente grande parte da juventude portuguesa em relação às formas mais tradicionais de fazer política. Ainda assim, há nas gerações mais novas quem contrarie este cenário e veja nos partidos, nas instituições e nos projetos uma forma de desencadear a mudança.

Texto de Eva Guedes e Maria Luís Pita (ESCS MAGAZINE)

Edição de Miguel Calixto

Fotografia de Kyle Smith / Unsplash

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Olhar para o cenário da participação política nos jovens em Portugal é olhar para um verdadeiro paradoxo: se por um lado mostram interesse político, envolvem-se em causas, mobilizam-se em protestos e são muito ativos no espaço digital, por outro continuam distantes das formas tradicionais da participação política, sobretudo no que diz respeito aos partidos. Há, no entanto, jovens que continuam a trazer esta participação política mais tradicional para o seu dia a dia. Neste artigo, em parceria com o GERADOR, a ESCS Magazine conversou com quatro jovens que continuam a ver a esperança em partidos, juventudes partidárias e projetos de cidadania.

“Dar de si aos outros”

Mesmo sem perceber bem o que significava fazer parte de uma juventude partidária, Matilde Cunha juntou-se à Juventude Social-Democrata (JSD) do Cartaxo com cerca de 15 anos. Tinha como exemplos o pai, que sempre fora deputado, e o irmão, que participava ativamente na organização juvenil. “A política sempre foi uma coisa muito discutida na minha casa. Sempre houve muita abertura para falar de partidos, das notícias, daquilo que acontecia na Assembleia, do que acontecia com o Primeiro-Ministro”, conta.

Para além dos exemplos que tinha em casa, Matilde viu na JSD uma oportunidade para “defender aquilo que é diferente”, uma vez que era o Partido Socialista quem tinha estado na Câmara nos últimos 50 anos. Mas o que faz, ao certo, uma juventude partidária? Matilde explica: “Nós reunimo-nos, discutimos os problemas que os jovens podem enfrentar ao viver no concelho do Cartaxo e depois defendemos as nossas ideias, seja através das redes sociais ou de propostas para a Assembleia Municipal”. Para Matilde, essa discussão de problemas e ideias é uma das partes mais interessantes do processo. “É engraçado ver a diferença entre quem tem 18 anos e entrou agora na JSD e eu, que tenho 25. As preocupações são completamente diferentes, e é muito giro ver isso”.

Foi precisamente este gosto pela participação ativa que levou Matilde Cunha a candidatar-se a presidente da JSD. “Na primeira vez em que me candidatei, estávamos com muita dificuldade em manter a Concelhia ativa, porque só se pode fazer parte da JSD até aos 30 anos e havia pouca gente mais nova a participar”. A questão da representatividade foi também um fator decisivo: em 42 anos de Juventude Social-Democrata no Cartaxo, é a primeira mulher a assumir a presidência da juventude partidária e conta já com dois mandatos. “Quem faz parte de uma juventude partidária tem que correr por gosto, porque financeiramente não se ganha nada com isto”. A motivação? Defender aquilo em que acredita. “Tens um sentimento de presença enorme, porque estás a trabalhar para aquilo que são os interesses dos outros jovens no teu concelho, na tua cidade ou no teu distrito”.

Apesar de confiar nas capacidades da sua geração para gerir os destinos do país, a presidente da JSD do Cartaxo admite que a distância entre os jovens e a política pode dever-se ao medo do compromisso. Apesar disso, não deixa de reforçar que a participação não tem de passar por uma militância. “Às vezes não temos noção de que ao fazermos projetos e envolvermo-nos em associações estamos a fazer política de uma forma um bocadinho indireta. Somos interessados, empenhados. Temos bastante curiosidade quando queremos, e quando nos empenhamos empenhamo-nos a sério”.

Quase 10 anos depois da sua entrada na JSD, a participação ativa na política continua, assim, a fazer parte da vida de Matilde. O pai continua a ser o seu grande exemplo. “Entrou na política sem interesses e fez parte daquilo que fez com o intuito de ajudar e de fazer melhor em prol dos outros”. E para Matilde, é precisamente isso que é fazer política: dar de si aos outros.

“Ver o mundo um bocadinho melhor”

Por muito que a licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais lhe dê bases políticas, Afonso Noronha, 21 anos, considera que a formação académica “tem um papel secundário à própria vontade de [se] envolver na política”. Foi precisamente essa vontade que o conduziu ao movimento independente Cascais para Viver, candidato às eleições autárquicas de 2025.

Se estar ligado ao partidarismo é vantajoso no que diz respeito ao financiamento e base de militância, ser independente possibilita um trabalho desvinculado de interesses normais dos partidos - e foi exatamente isto que aliciou o Afonso a envolver-se na autarquia de Cascais. “Não tendo partido, o movimento Cascais para Viver é composto por pessoas que pertenceram a diversas vidas partidárias (...). Isto faz com que exista uma diversidade de pensamento, um pensamento construtivo e diferente, sempre com vista ao bem comum dos cascalenses, que simplesmente não existe da mesma forma num partido político”, sublinha.

Afonso Noronha viu no poder local um meio de contacto estrutural com a comunidade, cultivando as ferramentas necessárias para materializar a sua visão de futuro. A nós resta perceber se ele é a regra ou a exceção: o poder local é atrativo para os jovens? Na visão de Afonso, há uma linguagem divergente que pode afastar os jovens das autarquias. “Eu sou um bocado contra a ideia de que os jovens não gostam de política ou não fazem política. Existem múltiplos sistemas pelos quais os jovens têm um interesse profundo, desde mobilidade, ambiente, democracia… Se existe um sistema de poder local que não dá voz a essas pessoas, opaco, que não prioriza a transparência, que não melhora a nível material as condições dos jovens, é natural que respondam com apatia. Isso não quer dizer, contudo, que os jovens sejam apolíticos”, acredita. Construir a ponte entre os jovens e o poder local passa por uma política de proximidade “que tenha como centro os próprios jovens”, viabilizada por uma comunicação mais transparente.

A política é agridoce para os jovens. As tecnologias digitais democratizaram o acesso à informação (e a grandes quantidades dela), mas não deixam de provocar o efeito inverso em algumas camadas da juventude. O acesso a tudo abre-nos portas aos desafios que pintam a atualidade: polarização, extremismo, crise na habitação, entre outros. Se a sensação de impotência for o resultado da avaliação do nosso quotidiano, Afonso alerta-nos que “em vez de paralisar, a impotência pode motivar-nos a sermos melhores e a dar-nos apenas um passo de cada vez, a fazermos uma política de proximidade, uma política a sério e melhorar a nossa comunidade dessa forma”. E a forma mais eficaz de perspetivar um futuro de copo meio cheio é envolvermo-nos com a política, com os variadíssimos contornos que pode tomar - seja numa Associação de Estudantes, Junta de Freguesia ou num partido político.

Com todas as complexidades que alberga, talvez a política possa ser resumida a “querer ver o mundo um bocadinho melhor”, como diz Afonso. O sentido de comunidade, intimamente ligado à política, só é possível através do pensamento crítico. Nesse sentido, é necessário um esforço para promover uma identidade cívica comum, que motive os cidadãos a participar naquilo que lhes pertence: a comunidade. “A política formal deve ser sempre subserviente à política informal, à comunidade, à construção de sociedade e de democracia. Não vejamos a política como a política formal primeiro e depois tudo o resto, vejamos ao contrário: primeiro a sociedade, primeiro a democracia, primeiro a construção de tudo aquilo que são instituições. E depois vejamos a política formal como maneira de gerir isso”, considera.

“Considerar a voz de todos”

Tânia Liberato descobriu o Livre nas primeiras eleições em que votou. Sempre se identificou com a esquerda, mas seria a bandeira da aproximação entre cidadãos e instituições aquilo que a levaria a juntar-se a um partido político. “Aquilo que eu diria que é uma sociedade ideal é uma sociedade onde todos temos uma intervenção nas decisões do dia a dia. E, portanto, ter um partido que defende uma sociedade mais descentralizada, onde podemos ter uma voz muito mais ativa, mais direta e onde podemos participar foi muito importante para mim”.

Ao contrário do que acontece com a maioria dos jovens da sua geração, a jovem de 26 anos acredita na capacidade transformadora dos partidos políticos. Este ideal levou-a a dar um passo ainda maior e a juntar-se à equipa que se candidatou à junta da União de Freguesias de Laranjeiro e Feijó, no município de Almada. Curiosamente, partilhou a candidatura com uma equipa muito jovem. “Foi muito bonito sentir que estávamos ali juntos para algo em comum”. Essa ideia de comunidade foi precisamente aquilo que motivou a equipa do Almada em Comum. “O processo teve os seus percalços, mas a mensagem que veiculámos era muito bonita, porque, no fundo, todos temos muita coisa que nos une, não é? Temos muitas semelhanças naquilo que são as lutas diárias”.

Ultrapassado o processo de candidatura, Tânia assume agora o cargo de vogal e os pelouros da juventude, do bem-estar animal e da participação em cidadania. Convive diariamente com jovens empenhados e envolvidos em trabalho político, mas admite que a sua “bolha” pode não ser representativa de toda a população jovem. Reconhece também que a sua geração tem uma maneira muito própria de interagir com a política (através das redes sociais), mas defende que a mobilização presencial não pode desaparecer. “As interações físicas são importantes, porque permitem-nos ter mais sensibilidade para certos tópicos”, afirma. “É muito mais fácil estarmos por detrás de um ecrã quando não temos de confrontar os problemas. O comportamento e o olhar uns com os outros é diferente e, portanto, acho que é importante puxar os jovens para estas interações”.

Igualmente importante é não ceder ao conformismo nem ao pessimismo. “Não gosto quando as pessoas me dizem «Isto foi sempre assim». Há coisas que claramente estão mal e têm de mudar”. A crença na mudança e a capacidade dos partidos políticos para desencadeá-la acompanham Tânia em cada representação na junta. “Existe tanta coisa para fazer. É preciso fazer com que as pessoas percebam que as ações delas importam e que todos juntos podemos fazer um caminho mais positivo”.

Dotar as pessoas dessas ferramentas e informá-las, para Tânia, faz parte do trabalho da política. “A política faz-se todos os dias e de diferentes formas”, considera. “É estar em constante diálogo”.

“Quando uma pessoa quer, organiza-se”

Com uma rotina dividida entre o berço de Cascais, a Academia de Coimbra e o trabalho na grande Lisboa, Vitória Espósito, de 21 anos, continua a fazer uma gestão que inclua a política na sua vida.
Começou tímida no seu envolvimento político, mas rapidamente os projetos de cidadania a desabrocharam. Hoje, recorda o início do seu desenvolvimento cívico como um efeito bola de neve: “As minhas amigas candidataram-se todas a um projeto que nós temos na Câmara Municipal de Cascais, o Maré Viva, e acabei também por ir. Eu era uma pessoa algo tímida, portanto fui com um bocado de receio, mas acabei por aceitar. A partir daí, nunca mais parei”.

A Vitória de 12 anos decidiu trocar as bonecas pelo voluntariado, decisão que a encaminhou ao projeto que, nas suas palavras, “moldou a [sua] personalidade”: a Voz dos Jovens.

“A Voz dos Jovens, que também é da Câmara Municipal de Cascais, trata a passagem de poder local para a juventude do ensino secundário”, diz Vitória. Do projeto que a acompanhou durante todo o secundário guarda a valência de unir os diferentes ideais e valores em prol da comunidade: “Conhecíamos muitas pessoas novas com backgrounds completamente diferentes - e isso fazia toda a diferença”.

A veia política não se esgota em partidos. A política pode nascer dos sítios mais inesperados, como projetos de voluntariado para jovens. O sentido de comunidade treina-se desde cedo, motivando os jovens a estarem conectados com o ambiente que os rodeia. Saber identificar problemas estruturais é parte fundamental do projeto Voz dos Jovens. “Se eu encontro um problema na minha comunidade, eu tenho de conhecer os canais para os resolver. Eles existem, portanto só tenho de os pesquisar e de os encontrar até levar o meu problema aos decisores políticos”, sublinha Vitória, que vê na política proximidade, e não distância. “Eu sou uma pessoa de pessoas. A política tem de ser isso, tem de ser de proximidade. Se eu sei que consigo dar o meu contributo numa área, dar a minha opinião e também dar voz a quem não tem, vou fazê-lo. E acho que isso é a coisa mais importante e que mais me move”.

A política é feita de pessoas para pessoas, mas a sensação de os jovens ficarem em segundo plano perdura. No meio do turbilhão informativo que povoa as redes sociais, os jovens podem sentir-se assoberbados: a política torna-se confusa e pouco apelativa, envolvida numa redoma cada vez mais a leste. Numa altura em que é urgente abraçar a política e tê-la como nossa, Vitória lembra: “Uma conversa de jovem para jovem faz toda a diferença. Às vezes só é preciso um empurrão inicial, de alguma forma, para os atrair”.

Por muito que não se possa determinar os ingredientes específicos para um envolvimento político sério, o voluntariado parece ser uma porta de entrada para uma cidadania ativa. A partir do momento em que agarrou o projeto Voz dos Jovens, Vitória não se atreveu a largá-lo. Hoje, entre trabalhar na indústria farmacêutica em Lisboa e o mestrado em Coimbra, continua ligada ao projeto como mentora. “Quando uma pessoa quer, organiza-se. Foi difícil [continuar na Voz dos Jovens] e envolveu muita responsabilidade e flexibilidade”. Com faltas guardadas na faculdade para conseguir marcar presença nas reuniões do projeto, Vitória acredita que com organização e tempo tudo se consegue - basta querer.

Do percurso político que cultivou, fica não só o bom currículo, mas fundamentalmente um espírito cívico aguçado orientado para o sentido de comunidade. Vitória deixa-nos a mensagem de que o partidarismo não é a única via para fazer política: dos meios políticos tradicionais, o voluntariado é a porta de abertura para uma sociedade unida pelas pessoas. “Política é de porta a porta, é nas ruas, é falar com as pessoas e ouvir os problemas que há nas comunidades. Não é a Assembleia da República que nos representa. Nós é que a representamos”.

O que é fazer política?

Arrancar palavras ao papel é uma tarefa difícil por alguns motivos, dos quais destacamos o mais transversal: começar. Ao emaranhado de ideias, considerações e factos soma-se uma tela inteiramente pura, pronta a escrever - torná-la convidativa à escrita é o desafio de quem trabalha com a palavra.
O mesmo se passa na política. Atravessamos tempos povoados pelo discurso desvairado, pela luta opinativa que se mascara de “debate de opiniões”, em que a possibilidade de fazer política parece progressivamente mais distante. O desinteresse conquistou espaço ao eleitorado jovem, que, refugiado na sensação de pertença nas redes sociais, se esquece de que há um mundo exterior à espera de ser aproveitado.

A Matilde, o Afonso, a Tânia e a Vitória provam-nos que a política pode (e deve) ser agarrada por mãos jovens, e a oportunidade está à distância de um “empurrão inicial”.

Entre pressões académicas, agendas imprevisíveis e desafios latentes, os jovens mostram-nos que o espírito cívico está aceso e que lutar pela comunidade continua a valer a pena.

Seja no partidarismo, nos movimentos independentes ou no voluntariado, estas vozes encontram um tom comum: a política de proximidade é o caminho para a consolidação de uma comunidade jovem, ativa e com perspetivas de futuro.

Os meios para o concretizar passam por uma comunicação mais transparente por parte das instituições, que motive a consciencialização dos cidadãos acerca da sua comunidade.

Apesar de estes jovens tirarem algumas rugas à política, ainda há muito caminho a percorrer. É preciso jovialidade nos rostos, mas principalmente nos temas e nos meios para os resolver. Um esforço coletivo orientado para uma política jovem é cada vez mais urgente.

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