Chamava-se Papé, tinha 24 anos e morreu no Porto, em 1934. Foi trazido para a Exposição Colonial nesse mesmo ano, acompanhado pelas irmãs, com o objetivo de recriar, nos jardins do Palácio de Cristal, a sua terra natal, o arquipélago de Bijagós, na Guiné-Bissau. Foi sepultado no cemitério de Agramonte, não muito longe dali, sem lápide, data ou identificação. Apenas um número numa cruz: 242, na secção 32.
Apesar de quase nada se saber sobre a sua vida, a morte de Papé fez correr tinta: “Morreu um dos pretos da Guiné”, titulava o Comércio do Porto, que noticiava a sua morte, no Hospital da Misericórdia do Porto, após alegados problemas cardíacos. “As circunstâncias da morte dele estão muito mal descritas, ou seja, há ali uma grande incógnita. Sabemos que teve problemas cardíacos e que esteve uns dias no hospital, mas falta-nos muita coisa”, reconhece o professor e mestrando em História Eduardo Esteves, um dos promotores da Iniciativa Cívica. O mesmo Comércio do Porto descrevia o enterro como “simples, solene e impressionante” e acrescentava que “Papé havia sido enterrado como um branco”.
A dignificação da sepultura deste homem é uma das reivindicações da Iniciativa Cívica, com os promotores a solicitar que seja associada uma lápide com a data de falecimento, identificação completa e fotografia.
Resgatar a exposição à “amnésia colonial”
Quem hoje atravessa os jardins do Palácio de Cristal para assistir a um concerto no Super Bock Arena, desfrutar da sombra, da vista para o Douro ou visitar a Feira do Livro que todos anos, em setembro, ocupa aquele espaço, não imagina que o lugar foi palco de um dos grandes atos de propaganda do início do regime, já que não existe qualquer referência ao sucedido. A exposição do Porto foi, nas palavras do comissário Henrique Galvão, “a primeira lição de colonialismo dada ao povo português”. Entre junho e setembro de 1934, cerca de um milhão de trezentas mil pessoas passaram pelo Palácio de Cristal (“Palácio das Colónias” durante a exposição) para visitar mais de 400 pavilhões distribuídos por passagens batizadas com os nomes das antigas colónias. Na Rua de Macau, por exemplo, o pavilhão correspondente tinha uma casa de chá e uma orquestra chinesa.
Mas a grande atração, conforme recorda a antropóloga Bambi Ceauppens num ensaio publicado em “Um Elefante no Palácio de Cristal”, que resultou de um programa de pensamento com o mesmo nome promovido pela Galeria Municipal do Porto, foram os “africanos negros primitivos”. A exposição marca o início da nova política colonial, baseada no Ato Colonial de 1930. O zoológico humano montado no Porto não foi, contudo, exemplo único. No seu artigo, Ceauppens compara o que aconteceu no Porto à exibição de pessoas negras em quatro exposições similares na Bélgica: Antuérpia (1885 e 1894), Tervuren (1897) e Bruxelas (1958), e classifica esta prática como uma “forma de entretenimento popular e disseminada na Europa e nos Estados Unidos”, inserindo-a “no quadro histórico do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e do colonialismo”. Aliás, seis anos depois Lisboa também recebeu o seu próprio evento de propaganda do regime. Ainda que realizada num contexto diferente, na Exposição do Mundo Português de 1940 também foram exibidas pessoas trazidas das colónias. Só que este caso, mais do que um momento de afirmação da política colonial, foi uma celebração patriótica, que serviu para assinalar o que ficou conhecido como duplo centenário: 800 anos de independência e 300 de restauração. Além disso, acontece num momento em que a Europa se desmorona na II Guerra Mundial, enquanto Portugal mantém o distanciamento do conflito.

“Ultramar”, o órgão de comunicação oficial da exposição. Disponível na Hemeroteca Digital de Lisboa
“Há um processo no qual a própria equipa da exposição organiza as vestimentas para transportar estas pessoas para o campo do outro, do exótico, do primitivo”, contextualiza Eduardo Esteves, em conversa com o Gerador, após uma visita guiada aos jardins dinamizada pelo historiador Joel Cleto.
Sobre a identidade das pessoas expostas, pouco ou nada se sabe, e isso, para Eduardo Esteves, tem uma explicação óbvia: o facto de a informação disponível proceder de um “arquivo inerentemente colonial”, onde apenas a lente do colonizador existia. E foi precisamente a lente do fotógrafo Domingos Alvão que deixou para a posteridade as fotografias sexualizadas de “Rosinha”, nome fictício atribuído a uma mulher amplamente fotografada com o peito desnudo, dos aldeamentos e de outros detalhes da exposição.
Mas no espaço público, nenhuma evidência resta. Foi isso que levou os promotores desta Iniciativa Cívica a lançar uma petição com quatro reivindicações essenciais: a instalação de uma placa permanente à entrada dos Jardins do Palácio de Cristal que refira a exposição, o seu contexto histórico e as condições desumanizantes a que foram sujeitas as pessoas expostas; a instalação de placas informativas nos jardins sobre os principais núcleos da exposição, com destaque para a representação das “aldeias indígenas”; a dignificação da sepultura de Papé e a instalação, junto ao Monumento ao Esforço Colonizador, de uma placa de contextualização.
Construído em madeira e gesso para a exposição, o Monumento ao Esforço Colonizador exprime toda a visão que ali se queria representar: nele estão representados o missionário, o comerciante, o agricultor, o militar, o médico e a mulher, ou seja, as figuras a quem o dito esforço é devido. Cada uma dessas figuras foi representada com um objeto alusivo ao seu trabalho, sendo que no caso da mulher, esse “objeto” eram as suas mamas. Depois da exposição, o monumento foi recriado em pedra, mas acabaria por ser desmantelado. Contudo, em 1984, o então presidente da autarquia portuense, Paulo Vallada, decidiu reerguê-lo, não no palácio, mas na Praça do Império, na zona da Foz, onde permanece até hoje.
Para os peticionários, a ausência de um reconhecimento do que ali se passou e do respetivo enquadramento histórico “alimenta o imaginário persistente de uma presença colonial portuguesa integradora e benevolente”.
“Toda uma identidade nacional está construída em torno da ideia da expansão, do contacto com o outro, de um império benigno e da ausência de racismo, e aqui nós olhamos isto nos olhos e não temos propriamente como fugir dessa realidade”, sublinha Eduardo Esteves.
Embora muitas das pessoas que integram a Iniciativa sejam oriundas da área da História, os seus autores não pretendem atribuir-lhe um cunho academicista, mas antes romper o silêncio sobre o tema.
O respeito pela memória
Da lista de signatários fazem parte nomes individuais como a antropóloga Elsa Peralta ou o historiador Manuel Loff, e também coletivos, como a Associação Batoto Yetu Portugal e o Coletivo Afreketê, formado pelas investigadoras independentes Gabriela Carvalho, Simone Simone Amorim, Priscilla Domingos, Rebeca Gomes, Letícia Simões e Alice Perni. Com diversas áreas académicas representadas, o coletivo é formado por investigadoras imigrantes, que têm o objetivo de mobilizar mecanismos de pesquisa em circuitos não institucionais.
Gabriela, Mestre em Artes pela Universidade do Estado de Minas Gerais, no Brasil, doutorou-se pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto com a tese “Enquanto falo: uma desconstrução do logos curatorial em perspetiva descolonial”. A agora Investigadora Colaboradora da Faculdade de Belas Artes do Porto explica ao Gerador que cada uma destas investigadoras, no contexto dos respetivos percursos académicos, foi-se incomodando “com a ausência de determinados temas, determinados teóricos e determinadas perspetivas”. O coletivo começou então a organizar-se para fortalecer os núcleos de discussão em torno do antirracismo, da decolonialidade e do feminismo. Neste momento, o que une o coletivo é “a resistência dentro da universidade às epistemologias hegemónicas”, resume Gabriela ao Gerador. O coletivo não acompanhou o processo da Iniciativa Cívica desde o início, mas teve acesso à petição e decidiu apoiá-la.
Para a curadora e investigadora, o silêncio em torno da exposição não surpreende: “Acontece ali uma história, por meio dos objetos, da vegetação, da arquitetura, da presença institucional, da paisagem, do turismo, que é uma história inventada. É uma história que faz questão de inventar o esquecimento, de encobrir o esquecimento”, diz ao Gerador. Contudo, a história da exposição colonial do Porto já foi alvo de várias pesquisas. A diferença é que até agora isso tem sido feito nos meios culturais, académicos e dos movimentos sociais. Para Gabriela, é diferente ver o assunto ser tratado por jovens portugueses, e inscrever esta memória no território, convocando a autarquia a assumir essa responsabilidade é, para a investigadora, uma boa justificação para regressar a este passado tão doloroso. Para Gabriela Carvalho, mexer na história colonial é algo que precisa de ser feito com o objetivo de “transformar perspectivas, transformar lógicas, transformar a educação, transformar a forma como a gente enxerga a nossa relação entre pessoas, entre países, entre culturas, entre a nossa relação com a sociedade”. Mas a investigadora alerta também para a necessidade de conduzir este processo com cuidado e respeito pelas camadas de memória e de subjetividade que lhe subjazem, para não se correr o risco de a apropriação de uma história de violência gerar mais violência.
Mobilizar o poder local em torno da questão é importante, mas, para Gabriela, é igualmente importante haver uma mobilização mais alargada e consciente na produção de placas informativas ou outros tipos de memorialização, para que não se caia no risco de ter apenas uma sinalização que não respeite o significado e a carga histórica do que ali aconteceu.
Embora a petição tenha sido redigida para ser levada à Assembleia Municipal do Porto, quando o Gerador entrevistou Eduardo Esteves, havia já contactos em curso com a Câmara para discutir o tema, pelo que o seguimento a dar às propostas e o órgão onde serão discutidas estava ainda em aberto à data.
O Gerador questionou o gabinete do Vereador da Cultura e Património sobre a forma como o pelouro acompanha esta iniciativa. Na resposta, por escrito, foi dito que Jorge Sobrado “tem acompanhado com atenção esta reflexão e é particularmente sensível às questões relacionadas com a memória histórica da cidade”. O gabinete confirma ainda o agendamento de uma reunião, para 25 de agosto, com os promotores da Iniciativa Cívica, “com vista à auscultação das suas propostas e perspetivas”. Em paralelo, acrescenta-se ainda que Jorge Sobrado solicitou a um “historiador e consultor especializado na história da cidade a preparação de informação atualizada sobre a evolução histórica do Palácio de Cristal, incluindo os acontecimentos associados à Exposição Colonial Portuguesa de 1934”.