Ele mexe-se pelo campo com toda a leveza. Ele dirige-se à imprensa de cabeça erguida e ombros descontraídos. Corre de um lado para o outro. Ele salta quando marca um golo. Os fãs batem-lhe palmas. Toda a gente diz que ele é um herói. Ou que ele é o futuro. Ou que ele é uma lenda. Toda a gente fala da forma como aponta à baliza, como finta os adversários e como passa (ou não) aos seus colegas de equipa. Mesmo quando o criticam, dizem que ele não tem a destreza certa, ou que não corre rápido o suficiente, ou que é velho, ou que é arrogante.
Ser um bom ou um mau futebolista: é isso que está em cima da mesa. Eu não percebo nada de futebol. Não sei dizer se um jogador é bom ou é mau, pelo menos, em campo. Mas sei dizer o seguinte: penetrar uma pessoa sem o consentimento dela é uma violação e é um crime. Violar uma mulher pode não fazer de um homem um mau futebolista mas, indubitavelmente, faz dele uma má pessoa. Sei dizer ainda outra: é insustentavelmente assustador o quão pouco isso parece importar para a esmagadora maioria das pessoas que veem futebol. Alguns amam, outros odeiam e, regra geral, o grau dessa afeição depende do apreço pelas suas qualidades como jogador. A afeição não parece medir-se pelas frases que o Der Spiegel deu a conhecer em 2018: “Penetrei-a por trás. Foi um comportamento grosseiro. Não mudámos de posição. Foram 5 ou 7 minutos. Ela disse que não queria, mas mostrou-se disponível (...) Ela continuava a dizer ‘não’, ‘não faças isso’, ‘não sou como as outras’. Depois pedi desculpa”. No meio dos passes, fintas, fora de jogo e cartões – e todas essas coisas que acontecem em campo e produzem sentimentos tão acesos nos adeptos futebolísticos –, onde está a indignação com a acusação e a presumível confissão de uma violação?
E o capitão da seleção marroquina? Acusado de violação, será presente a tribunal em breve. Alegadamente, convidou uma mulher para sua casa e, mal esta chegou, julgando que ia ter um encontro romântico ou um encontro sexual consentido, começou a ser atacada e violada pelo jogador. E Thomas Partey? Jogador ganês, conhecido por ter jogado em Inglaterra, está acusado de cinco crimes de violação e um de assédio sexual. E Kaishu Sano? Jogador japonês, marcou presença neste mundial e foi preso por ter participado numa violação coletiva de uma mulher, a quem depois pagou uma considerável soma de dinheiro. E o capitão da seleção de Cabo Verde? Acusado de violar uma mulher na Nova Zelândia ainda este ano.
Quão leve pode ser a vida de um violador? De um milionário com dinheiro suficiente para pagar os melhores advogados para destruir a reputação da mulher que o acusa ou para comprar o silêncio da vítima? Quão leve pode ser a vida daquele que destruiu a vida, a autoestima, a confiança nos outros e a privacidade de uma mulher? Quanta leveza é necessária para correr por um campo fora, com milhares a baterem palmas ao seu génio desportivo, enquanto as mulheres violadas se tornam notícias incómodas para seleções à procura de uma vitória? Para que eles sejam leves, quanto peso tem de suportar a vítima? A dor da violação, a humilhação de ser uma vítima, a culpa de ter aceite marcar um encontro com ele, a exposição pública da sua intimidade, a dúvida de si própria e da sua memória, a ignomínia generalizada e, por cima de tudo isto, como uma dor lancinante e inesperada, a ensurdecedora indiferença.
Quem quer saber de uma violação? Só as mulheres chatas que falam disto enquanto os outros se querem divertir a ver a bola? As feministas que insistem em ser as killjoys de que fala Sara Ahmed? Não compro essas respostas. Todas as pessoas, independentemente do seu género e do seu maior ou menor interesse por uma modalidade desportiva, podem e devem preocupar-se. Aceitem nos vossos ombros, mulheres e homens, partilhar o peso insustentável das pessoas violadas pelos homens que aparecem na televisão. Ousem acreditar nelas e imaginar um mundo em que isso realmente importa. Cabe-nos a todos querer saber e ajudar a tirar o peso dos ombros das mulheres e devolver o peso dessa vergonha a quem ele pertence: aos violadores.
Não existe leveza sem peso. A leveza é a impunidade, descarada e simples. A impunidade funde-se e floresce com a indiferença. Ser milionário, célebre, competente na sua área isenta um homem de ser confrontado com o que fez ao corpo e à vida de uma mulher? Insenta-o sequer de responder à dúvida? Sejamos, dentro do possível, coerentes. Não batam palmas a quem viola mulheres.