Março é um dos meus meses preferidos. Entre a sensação de recomeço, o Dia Internacional da Mulher e um vislumbre quase sempre tímido de Primavera, Março costuma ser-me generoso. Tem sido, efetivamente, ao longo dos anos. Pessoas boas acontecem e coisas boas acontecem - coisas como esta, também: a de poder escrever a convite da revista Gerador. E em Março, assim, a gratidão também acontece. Obrigada.
Por tudo isto, e por me sentir imbuída de amor, gratidão e recomeços, decidi dedicar esta primeira crónica às mulheres que também me fazem sentir assim.
Celebrei-as, na semana passada, no dia 8 - mas procuro celebrá-las sempre que a minha consciência não está afogada em trabalho, distrações aleatórias ou qualquer drama pseudo relevante. Celebro-as, contudo e definitivamente, quando mal consigo ver a luz ao fundo do túnel. Quando, tal e qual refrigerante agitado, o gás da minha ansiedade rebenta, alastra e tudo suja, por todo o lado. Nesses momentos, lá estão elas, à distância de uma chamada ou de um uber, com uma palavra inesperada e um abraço, relembrando-me de todas as certezas que, naqueles momentos, quase se afogam em mim. Com a voz que eu, naquele momento, não consigo ter.
Tenho ouvido, com os anos (e à boleia de algumas experiências menos boas, vá) - que não devemos dizer a nós mesmas aquilo que não diríamos a outras mulheres.
Viro do avesso e prefiro dizer que tudo aquilo que dizemos às outras mulheres, devemos também dizer a nós mesmas. Talvez seja sororidade, talvez sejam resquícios do 8M (rastos esses que, de resto, deveriam, entre nós, perdurar mais do que um dia e não desvanecer), talvez seja a minha vontade de crescer e de alimentar boas ligações, boas conversas e boas amizades com boas mulheres.
Talvez seja o meu amor de Março, que me deixa livre para entender que quando escutamos uma mulher, escutamos o mundo inteiro.
Se no FEMINA eu tenho força para estar presente, para ouvir e escutar, é porque fora do FEMINA também me cuidam, me escutam e me apoiam. E perceber essa força (a que recebo dos outros) e essa vulnerabilidade (a de a aceitar) tem sido das coisas mais bonitas deste mês de Março - e, na verdade, deste último ano.
Se conversar com a Aline Frazão me empodera, é porque alguém a empodera a ela também. Se me sinto capaz de perder o medo quando oiço a Bia Ferreira, é porque uma mulher - ou uma tribo de mulheres empoderadas - está também lá para ela.
Somos ciclos, correntes de energia e de verdade. Enquanto mulheres, acredito que precisamos apenas de nos (re)conquistar, fazer as pazes com as culpas que fomos acumulando, desistir do cinismo e da humilhação alheia e de encontrar os lugares certos para nos conectarmos com quem procura o mesmo que nós. E se nos empoderarmos, mutuamente, nas nossas conversas, abraços e conquistas - aí reside, necessariamente, a perfeição que desejamos e andamos, há tantos anos, a procurar umas nas outras.
Com muito orgulho, sei que não sou self-made. Se o assumisse, estaria a abdicar de todas elas: as mães, as tias, a prima, a avó. As amigas. As minhas. As que me dão a mão e as que me dão o vinho. As que me dão abraços e as que me pedem colo; as que choram porque me escutam e as que me escutam porque choram.
Com muito orgulho, sou um bocadinho de todas elas e todas elas são, também, um bocadinho de mim.
Com muito orgulho, não sou self-made. Sou feita de todas as nossas vitórias, de todos os caminhos que nos deixaram doridas, de todas as conquistas que ninguém reparou e de todos os insultos dos quais ninguém se desculpou.
Com muito orgulho, sou do feminismo, sou pela união, da luta pela liberdade e emancipação, da igualdade e da amizade.
Sou nossa, porque sei que nem a mim pertenço: estou de passagem, sou mutável e apenas parte de algo maior que nos une numa dor invisível, mas nunca indivisível; que nos une numa loucura dançante, mas também numa doçura louca, capaz de fazer girar o mundo.
Sou nossa - e principalmente daquelas que, tal como eu, sempre duvidaram do seu lugar no mundo.
Não sou self-made, porque não fui nem sou sozinha.
Sou nossa: das mulheres que eu escolhi.
-Sobre Vanessa Augusto-
Jornalista, mestre em Ciências da Comunicação (Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias) e agente cultural - desde o início do seu percurso ligada a projetos que envolvam música, cultura e novos artistas nos vários formatos media (rádio, televisão e imprensa).
É autora do podcast FEMINA (@femina_podcast/ www.femina.pt) – um projeto independente de empoderamento feminino, no qual convida mulheres artistas para conversas intimistas e onde procura conhecer as suas conquistas, vulnerabilidades e ferramentas de sucesso enquanto mulheres e criadoras.
É ainda formadora, produtora de podcasts, autora da rubrica “FEMINA: Mulheres Autênticas” na Rádio SBSR.fm e cronista feminista em várias publicações digitais. No seu trabalho, procura estar ligada à comunidade artística e a projetos culturais que se distingam pela representatividade, igualdade de género, saúde mental e comunicação em comunidade.