Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Noa Brighenti

O sistema de ensino português (ou a cultura do medo do erro)

Quando estava no secundário o sistema de ensino português era um grande amigo – andávamos…

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Quando estava no secundário o sistema de ensino português era um grande amigo - andávamos de mãos dadas e defendia-o com unhas e dentes. Dizia que fazia sentido escolhermos uma área de estudo com quinze anos, que fazia sentido que a entrada na faculdade se baseasse na nossa média, que exames eram efetivamente uma forma justa de avaliação, e mais uma mão cheia de barbaridades que hoje já não sou capaz de replicar. Que criança tonta. A verdade é que nunca me queixei porque o sistema me encaixava como uma luva.

Se encaixou, foi em parte porque na minha casa existe tudo: existem camas e uma marquise com sol e mil jarros com flores e livros e uma mesa de jantar. Na minha casa existe também a minha irmã, que tem quinze anos e não gosta de estudar. Ontem ao jantar ela disse-me que queria ser médica. Eu disse-lhe que fazia muito bem.

Se calhar isto causou-vos uma certa comichão no cérebro, quer ser médica e não gosta de estudar? perguntam-se, perguntam-me. Ela gosta de aprender, mas querem que o faça por um processo de aprendizagem que não é o seu; ela gosta de mostrar o que sabe, mas os métodos de avaliação nada têm que ver com ela. Temos pena, pensam, não vai conseguir a média de 18 para entrar na faculdade. Bem, “if you judge a fish on its ability to climb a tree, it will live its whole life believing it is stupid” (Einstein). Ela queixa-se do sistema porque não é seu amigo e, diga-se de passagem, não é amigo de quase ninguém.

Paulo Freire, no livro Educação como Prática de Liberdade, explica que o Homem se distinguiu dos animais quando descobriu a temporalidade (que há um ontem, um hoje e um amanhã). Noutras palavras, enquanto para um gato a vida tem uma extensão unidimensional, em que se deita, mia e enrola, o ser humano, “porque não está preso a um tempo reduzido a um hoje permanente que o esmaga, emerge dele. Banha-se nele. Temporaliza-se” - ao descobrirmos que as ações têm consequências, descobrimos que podemos intervir no mundo, alterando-o.

Assim, segundo o autor, podemos relacionar-nos com a realidade de duas formas: há aqueles que a ela se adaptam, seguindo-a com apatia e conformando-se com as decisões tomadas - são pessoas enquanto objeto; e há aqueles que nela se integram, deixando a esfera biológica ou natural para participar na dimensão criativa, através de uma permanente atividade crítica - são pessoas enquanto sujeito. Só estas últimas, por estarem com o mundo e não simplesmente nele podem, criando e recriando, lançar-se “num domínio que lhe (ao homem) é exclusivo - o da história e o da cultura”. Porém, sem a integração e a consciência crítica, a existência da história e cultura não faz sentido, pois falta-lhes a liberdade.

Aqui surge o problema: quando há fatores que nos encorajam a aceitar a posição de homem-objeto; quando a alguns foi retirada a hipótese de escolha ou o dedo foi apontado tantas vezes que se descobrem meros espectadores. Tal como se lê na Carta do Porto Santo[1], promovida pelo Plano Nacional das Artes, “podemos viver num estado democrático e, no entanto, as diferentes dimensões e instituições da vida comunitária permanecerem autoritárias”. No ensino, infelizmente, a tendência é a da desvalorização do aluno enquanto ser criador. 

Afinal, qual é o interesse ou vontade de agir quando nos dizem que tudo o que fazemos está errado? Os métodos de avaliação padrão, que se diz serem destinados a todos, não têm em consideração os diferentes tipos de pensamento, os diferentes tipos de linguagem, ou sequer se o aluno em questão comeu há mais de 24 horas, ou se tem uma cama onde dormir à noite - a cada ano escolar que passa sinto mais que estes métodos não servem para medir o que se aprendeu, mas antes, o que não se aprendeu, aquilo em que se falhou, os pontos que faltam. Ao criar em nós a cultura do medo do erro, a escola mata a motivação e a criatividade.

Olha boa, o sistema não funciona. Estes miúdos só se sabem queixar mas não arranjam soluções. Querem o quê, acabar com a matemática? Perguntam-se, perguntam-me. Talvez acabar com a matemática seja um pouco excessivo, vamos antes acabar com o sistema descendente, top down, e tratar os alunos como sujeitos ao invés de objetos - não é dar-lhes voz, mas ouvi-los.

Vamos chamá-los a decidir, dar-lhes opções de escolha que sejam abrangentes e flexíveis, que a eles se adaptem e não ao mercado de trabalho - que sentido faz só existirem quatro tipos de cursos científico-humanísticos? Que sentido faz o ensino ser tão especializado quando os alunos que hoje entram na escola só se reformarão em 2090?; Vamos acabar com a hierarquia entre disciplinas - física e química não é mais importante que música ou educação física; Vamos variar os métodos de avaliação para que estimulem vários tipos de inteligência: testes... mas também projetos, trabalhos escritos, desenhos, esculturas, apresentações, teatros, vídeos, podcasts, performances; Vamos mudar o modo de ingresso no ensino superior, há outras formas de verificar competências para além dos exames; Vamos diminuir o tempo de aulas; Vamos aumentar as atividades fora da sala de aulas, criar mais oportunidades para conhecer e aprender com pessoas que não fazem parte do universo escolar; Vamos defender um ensino que pugne pela valorização do aluno, e não pela sua desvalorização, que ensine a pensar e não a repetir, que emancipe, acolha dúvidas e erros, que seja feito de crescimento e de criatividade.


[1] file:///Users/sbb/Downloads/CartaDoPortoSanto.pdf

-Sobre a Noa Brighenti-

Noa Brighenti começou por colecionar conchas e cromos aos 6 anos. Com 9 recitou o seu primeiro poema, teve o seu primeiro amor e deu o seu primeiro concerto no pátio da escola. Fartou-se dos museus aos 13, jurou que nunca mais pintaria aos 14 e quando fez 17 desfez este juramento. Com 20 anos, coleciona gatos e perguntas. Pelo meio, estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa, anda, pinta e lê. De vez em quando escreve — escreve sempre de pé.

Texto de Noa Brighenti
Fotografia da cortesia de Noa Brighenti
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

8 Setembro 2026

Sempre houve luta, sempre houve jasmim

18 Agosto 2026

Porque desistimos de pensar no futuro?

4 Agosto 2026

A regularização extraordinária de imigrantes em Espanha

14 Julho 2026

A insustentável leveza de um violador

30 Junho 2026

Uma mesquita digna para o Porto

16 Junho 2026

5 mil euros por mês, a trabalhar 2 dias e meio por semana? É possível

2 Junho 2026

Do livro

19 Maio 2026

O teatro palestiniano: ser ou não ser?

12 Maio 2026

A real decadência europeia

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0