Sempre que escrevo, ele olha-me com a maior das serenidades. Atrás do meu computador, na secretária, a dormitar ao sol, vai semicerrando os olhos ao ritmo das teclas e nunca se aborrece com o barulho que faço. Os gatos são das melhores coisas que o mundo tem.
Respeita a minha concentração, mas procura distrair-me assim que me sente mais perdida. Ainda assim, o meu felino é perito em gracinhas - e vai experimentando cada canto da secretária, sendo especialista em revirar o tronco enquanto olha para mim. Acredito que se conseguisse, me piscava o olho e tentava convencer-me, sem esforço, a parar de trabalhar e adormecer com ele ao sol.
Ensina-me muito. Os gatos vivem em plenitude - não deprimem, não têm ansiedade, não se preocupam se vão ou não comer amanhã, não se afligem se tiverem de fazer o ninho noutro lugar. Não querem saber se são aceites ou se deveriam ser diferentes. Vivem no presente e simplesmente, existem.
Acho que esta beleza da vulnerabilidade extrema é o que mais aprecio nos animais e, em geral, na natureza. Não vivem no futuro nem no passado - apenas são, agora. Fazem com naturalidade o que nós, humanos, dificilmente faremos, algum dia.
Sempre que me perco nos dias ou no caos das minhas emoções, olho para ele um minuto que seja. Observo a maneira como descansa mais de dezasseis horas por dia, como vive sem culpa e sem medo. Olho; observo. Escuto-o, também. Entendemo-nos bem.
Viver com ele, neste processo contínuo de observação, nesta nossa comunicação telepática, ensinou-me a escutar melhor, porque também aprendi a olhá-lo melhor – a entender que a linguagem é também corpo, emoção e disponibilidade. Há aspetos fundamentais que precisamos entender quando pensamos e estudamos a comunicação: ouvir e escutar são coisas diferentes; e escutar é sempre mais importante que falar. Mesmo que tantos na profissão o esqueçam ou deixem o ego sobrepor-se, a verdadeira comunicação só vive com as pontes da conexão, da escuta-ativa e do real envolvimento empático por ambas as partes. E se não aprendermos a ver - a realmente observar os sinais, a ler nas entrelinhas do corpo do outro, nos contornos das suas frases e no brilho do seu olhar, dificilmente escutamos, de facto. Ainda que pareça esquecido, a comunicação é muito mais do que palavras.
Aprendi cedo, à conta da vida, que os tímidos observam bem e os introvertidos escutam ainda melhor. Vejo a timidez como uma característica inata de cada pessoa, presa às experiências que temos desde cedo e à insegurança social que pode nascer com essas mesmas experiências. Já a introspeção vem de um lugar diferente: está relacionada com o crescimento e reflexão pessoal, vem da escolha consciente do refúgio no mundo interior de cada um. Posso dizer-vos que sou uma ex-tímida, transformada, hoje, numa potente introvertida. Cada vez mais escolho o meu lugar de paz, ao mesmo tempo que deixo de ter medo do mundo e do seu julgamento. Anos de observação do outro, trouxeram-me a um lugar onde também (me) sei escutar cada vez melhor.
A humanidade ensina-nos a velocidade, a produzir e a consumir. A natureza ensina-nos a parar, a construir paciência e a preguiçar. E é neste equilíbrio que procuro ficar. Num qualquer lugar que existe entre a produtividade e a calma, entre o desafio de conquistar e o prazer de descansar. Sem culpa, sem medo. Um lugar novo, que ainda preciso de continuar a construir e de me orgulhar.
Ainda agora, enquanto termino esta crónica, ele estica-se ao meu lado, com as costas quentes pelo sol que me entra pela janela. Ainda hoje, enquanto o observo, penso no quanto mais ainda me poderá ensinar - um ser que veio à minha vida sem intenção, sem qualquer pretensão, sem preocupação. Ele vale por si mesmo e a sua existência é suficiente para se permitir ao melhor do mundo: sol, sono, simplicidade, sossego.
Se não valer por mais nada, que esta reflexão nos possa trazer esta aprendizagem: se não olharmos e escutarmos a natureza em todas as suas obras, se não percebermos que, também nós, valemos por nós mesmos, pela certeza da nossa existência - estamos a perder tempo. Se não observarmos, escutarmos e realmente nos comunicarmos, estamos a perder o nosso pouco tempo.
O mundo grita-nos a pressa, mas do fundo da minha empatia e do fundo do meu canto mais introvertido, acredito que, em havendo qualquer vestígio de culpa, medo, depressão ou ansiedade - se não vem para nos acrescentar, que não venha para nos magoar. Se não vem para nos fazer crescer, que não se habitue a ficar por cá. Deixemos o coração livre para descansar, tal e qual como um gato, deixando as feridas curar, ao sol e ao tempo, sem pressa nenhuma de chegar. E, também do nosso jeito, que possamos aprender a ronronar – a celebrar quem nos aquece o lugar, o espírito e o corpo.
-Sobre Vanessa Augusto-
Jornalista, mestre em Ciências da Comunicação (Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias) e agente cultural - desde o início do seu percurso ligada a projetos que envolvam música, cultura e novos artistas nos vários formatos media (rádio, televisão e imprensa).
É autora do podcast FEMINA (@femina_podcast/ www.femina.pt) – um projeto independente de empoderamento feminino, no qual convida mulheres artistas para conversas intimistas e onde procura conhecer as suas conquistas, vulnerabilidades e ferramentas de sucesso enquanto mulheres e criadoras.
É ainda formadora, produtora de podcasts, autora da rubrica “FEMINA: Mulheres Autênticas” na Rádio SBSR.fm e cronista feminista em várias publicações digitais. No seu trabalho, procura estar ligada à comunidade artística e a projetos culturais que se distingam pela representatividade, igualdade de género, saúde mental e comunicação em comunidade.