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Opinião de Joana Guerreiro da Silva

Breve história recente, empírica e não oficial do caixote do lixo

Nas Gargantas Soltas de hoje, Joana Guerreiro da Silva traz-nos uma reflexão sobre o processo de reciclagem.

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Deitar fora. 

Forma principalmente coloquial que nos significa descartar algo. 

Deitar vem do Latim dejectare1, o que pelo menos foneticamente faz todo o sentido. E fora… de casa, da nossa vista, certamente.

Antes, tudo ia parar à “estrumeira”, pelo menos no Alentejo, que esta é denominação sujeita a regionalismos. O “tudo” era então compostável e passava ainda no crivo seletivo das galinhas, coelhos ou porco, caso o houvesse. Mesmo algum papel, alguma corda de sisal ou fio de algodão, tudo acabaria por se desfazer. No limite, essa ínfima parte seria queimada e devolvida à terra. Alguma porcelana ou barro quebrado que os gatos2 já não conseguiam resolver seriam talvez a ínfima parte que não era compostável. Havia o vidro, cuja tara recuperável fomentou a sua recolha separada e abriu caminho para que a tara perdida fosse tratada de forma diferenciada - o “vidrão” branco e o verde serão certamente os pontos de recolha seletiva mais antigos nas nossas memórias. 

Afinal, compostagem, reutilização e reciclagem não são nem novidade, nem inovação.

Mudámos. De um balde onde tudo se juntava para ir para a “estrumeira”, passou a haver um balde onde tudo se juntava para ir para o contentor (naturalmente dentro do seu saco de plástico fechado, específico e adequado, que logo surgiu no mercado).

Mas, mais importante, o lixo também mudou. Há plástico, metal, químicos, materiais compostos, fibras de todo o género.

Ainda que com desfasamento temporal, lá foi chegando o desmultiplicar de baldes do lixo domésticos (com os respetivos sacos de plástico coloridos) e o desmultiplicar dos correspondentes contentores de vizinhança para recolha seletiva. Alguns aventuram-se na compostagem. Infelizmente, as sarjetas e as sanitas continuam eficientes sumidouros dos mais variados artefactos.

A consciencialização vai avançando, começamos a assimilar que o paradigma de gerir resíduos passou para o de gerir recursos, mas é preciso reduzir o consumo e, do que se consome e é para descarte, é preciso acautelar a sua reciclagem. Muito - demasiado - lixo vai parar à “estrumeira” dos tempos modernos - o aterro sanitário - ou aos cursos e massas de água ou chega à “queimada” dos nossos dias - a incineração - cuja semelhança com o fechar do ciclo dos recursos naturais e sua devolução à terra dos processos de “dejeção” tradicionais é mera coincidência. Mesmo o vidro - cuja valorização estará mais enraizada na nossa mentalidade, sendo o resíduo que apresenta a maior taxa de reciclagem - com o menor valor associado na atual realidade economicista, é o resíduo que chega mais contaminado aos centros de tratamento3.

Reflitamos.

Em Portugal recicla-se pouco e mal, dizem os relatórios4. Pouco, percebemos porque vemos. Mas mal? Mal porquê? Porque é que aqueles que têm o cuidado e a intenção de separar o lixo e de o levar ao devido contentor para reciclar o fazem mal?

À parte da eventual falta de sensibilidade ou de (in)formação, separar às vezes é complicado. As embalagens são complexas, os materiais estão misturados, difíceis de separar e por vezes nem são identificáveis: o papel tem adesivo, o copo de café parece papel mas está plastificado, a etiqueta é magnética, o saco de papel do pão tem plástico ou papel vegetal, a roupa tem fibra… e que fibra é? Que tipo de plástico? É reciclável?

Podemos saber que a caixa de pizza com gordura deve ser descartada para o indiferenciado, ou que o gargalo de plástico numa garrafa de vidro é uma contaminação aceitável e que podemos colocá-la no vidrão, mas muitas vezes a identificação correta dos componentes que integram um único produto é difícil (o greenwash tem aqui grande responsabilidade) e a sua adequada separação é, por vezes, impossível.

Sabemos que as soluções mais eficazes são aquelas que resolvem os problemas na raiz e não aquelas que os contornam e os mitigam posteriormente. Por isso, selecionar pela composição, preferir materiais naturais, reduzir as embalagens, otimizar o design para a reciclagem, optar pelas padronizadas de um só material e claramente recicláveis - e apenas quando não nos for possível recorrer a uma embalagem reutilizável - são formas de resolvermos pela raiz as reciclagens demasiado complicadas.

Diz-nos a sabedoria popular que devemos desconfiar de tudo quanto é demasiado complicado. Se é muito complexo e rocambolesco - difícil até - devemos questionar-nos se faz realmente sentido.

Por isso, se não é fácil reciclar, não é bom comprar.

Faz sentido?

________________________________

1  Porto Editora – deitar no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/deitar
2 Grampos metálicos - espécie de agrafos - utilizados para reparar peças de barro rachadas ou partidas.
3  Pinto, J. C. Nós, os ecopatetas, Grande Reportagem, Jornal Expresso, Outubro 2020 [em linha]. Disponível em https://multimedia.expresso.pt/reciclagem2020/#Iparte
 4Idem

-Sobre Joana Guerreiro da Silva-

Arquiteta e Agrónoma de formação pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (2009) e pela Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Beja (2022), fez Estudos Avançados em Reabilitação do Património Edificado pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (2010). Interessada por fotografia, documentou os dois últimos anos da obra do Campus Wirtschaftsuniversität Wien de onde resultaram várias publicações em diversos suportes. Colaborou em vários ateliers de Arquitetura e atualmente trabalha como Arquiteta da Divisão de Licenciamento da Câmara Municipal de Odemira, desenvolvendo paralelamente atividade de investigação no âmbito do Património.

Texto de Joana Guerreiro da Silva | ZERO
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