Depois da COVID-19 um novo vírus volta a atacar a Europa. Desta vez não afeta os pulmões, mas o cérebro. A invasão da Ucrânia pela Rússia gerou uma verdadeira pandemia que resultou numa histeria coletiva, fanatismo, medo, discussões e zangas entre amigos e familiares. A Europa está em guerra. O resto do mundo também, mas é na Europa que a guerra é mais sentida, mais vivida e, também, onde, para além da Ucrânia, tem maiores consequências.
Vamos a factos. Na origem está um conflito regional, uma disputa entre povos que o desenho da história separou. O mundo tem várias situações similares, algumas com décadas. Só que aqui a Rússia decidiu proteger a população russófona do Donbass, massacrada durante anos pelo poder ucraniano, e invadiu. Foi um ato justificado, mas inaceitável se queremos caminhar para um mundo baseado no direito. Nesse contexto, normal teria sido que se exigisse o fim imediato das hostilidades e a negociação. Coisa, aliás, nada complicada, pois seria mais do que razoável conceder às duas províncias em questão o estatuto de autonomia. Para além da neutralidade militar da Ucrânia, na linha do desanuviamento após a queda da União Soviética. Não foi isso que sucedeu.
Os Estados Unidos viram uma oportunidade para enfraquecer, militar e economicamente, a Rússia e talvez destronar o ditador Putin. A NATO serviu de braço armado, fornecendo tropa, armas e dinheiro e a Europa, sem visão política própria, seguiu obedientemente o exercício. O resultado está à vista. A Europa está afundada numa guerra que, ao contrário do que por aí se vende, não é sua, e muito menos de defesa da democracia e da liberdade. Não há democracia na Rússia, mas também não há na Ucrânia. E abundam os nacionalistas de tipo nazi nos dois lados.
Trata-se, como sempre, de uma guerra de interesses. Os Estados Unidos têm dificuldade em reagir à perda da centralidade a que se habituaram. Não sabem o que fazer com a China. Na sua perspetiva, a guerra contra a Rússia é um fait-divers, não é o assunto. Aliás, na América ninguém fala do conflito que se considera ser um problema dos europeus. E, efetivamente, é. A Europa foi apanhada num momento de grande fragilidade política, com uma Comissão Europeia particularmente incompetente e venal, que anda toda contente a cavar a sua própria sepultura. Veja-se, esta senhora van der Leyen que não para de distribuir sorrisos e enormes fundos europeus para a Ucrânia, mas não se preocupa em defender o projeto europeu, nem os seus cidadãos. Aliás, para além da destruição material da Ucrânia e os milhares de mortos, é a Europa quem mais perde com esta guerra.
Dito isto, lamento que ninguém se manifeste pela paz. O partido da guerra é dominante na classe política, nos intelectuais, se é que ainda existem, nas televisões, na direita quanto na esquerda, nos jovens. Todos caminham para o desastre com a excitação própria dos alucinados. Dizem que não há outra solução. Que a Rússia invadiu e, portanto, deve ser derrotada no campo de batalha. Afirmam mesmo que é isso que vai acontecer, mentindo descaradamente ao povo, pois todos sabem que não vai acontecer. A Rússia nunca perderá esta guerra no terreno. Caso isso estivesse a acontecer usará as armas nucleares. É isso que se pretende? Acredito que muitos o desejam. Mas não sabem do que falam e vivem afogados no virtual e nas redes sociais onde a realidade e a verdade não têm lugar.
A ação irresponsável das instituições e governos europeus, está a provocar um enorme retrocesso civilizacional, que só uma opinião pública intoxicada pelos media não consegue ver. Tudo o que era avanço foi abandonado. A questão ambiental está esquecida. Na Alemanha, num governo em que participam os verdes, volta-se ao carvão. O processo de globalização, que significava um estímulo no campo da inovação e da cooperação internacional, terminou e anda para trás, regressando o mundo ao tempo do confronto entre nações. Esquerda e direita não se distinguem, Bloco e Chega batem juntos palmas à guerra.
A Europa não está só em guerra com a Rússia, está em guerra contra si própria.
-Sobre Leonel Moura-
Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.