Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de João Duarte Albuquerque

O Ano Europeu das Competências – um ano a não desperdiçar

Nas Gargantas Soltas de hoje, João Duarte Albuquerque fala-nos sobre as mudanças no mundo do trabalho.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

À semelhança do que vem sendo prática em anos anteriores, em setembro de 2022, durante o seu discurso do Estado da União, a Presidente da Comissão Europeia anunciou que 2023 seria o Ano Europeu das Competências. Este anúncio, que ocorre sem qualquer aviso prévio ou sem qualquer negociação interinstitucional, precipita o início de um processo legislativo que tem como base uma proposta da Comissão Europeia, seguindo-se depois a apreciação do Parlamento e termina com as negociações interinstitucionais entre Parlamento, Comissão e Conselho.

Mesmo que o processo seja um pouco menos complexo do que aparenta, é certamente moroso. Na verdade, uma das principais consequências dos anúncios inusitados dos «Anos Europeus» passados, precisamente por acontecerem sem aviso prévio ou sem qualquer concertação interinstitucional, é a incapacidade que os respetivos organismos têm em dar resposta às necessidades e expectativas criadas por cada um destes anúncios. Veja-se o que sucedeu com o Ano Europeu da Juventude, em 2022, com várias associações nacionais e europeias do setor da juventude a lamentarem a forma como não foram envolvidas no processo de auscultação, ou na oportunidade de participarem mais ativamente nas iniciativas desenvolvidas ao longo do Ano. O mesmo se verifica relativamente ao conhecimento que a maior parte dos cidadãos europeus tem sobre o Ano Europeu da Juventude e a forma como podem contribuir para o seu aprofundamento ou para poderem ser parte das suas atividades ou programas.

Assim, perante o referido anúncio de setembro passado, o Parlamento Europeu decidiu adotar a posição de que os Anos Europeus deveriam ter início apenas a 9 de maio, dia da Europa. Mais do que um ato simbólico, esta medida permitiria a todas as instituições, incluindo a Comissão Europeia, realizar uma planificação e um processo de audição de parceiros relevantes atempados, garantindo maior inclusão nos atores envolvidos, mas também uma mais ampla difusão das iniciativas planeadas.

Vejamos o caso do Ano Europeu de 2023, dedicado às competências e à proposta preliminar apresentada pela Comissão Europeia. O que ressalta da leitura desta primeira proposta é que a visão da Comissão sobre as competências está totalmente orientada para as necessidades do mercado. Há um forte enfoque na necessidade de adaptar as competências e capacidades dos trabalhadores àquilo que são as necessidades económicas do mercado, de modo a suprir as lacunas existentes em alguns setores profissionais num determinado momento, bem como a necessidade de atrair trabalhadores especializados de países terceiros para o mesmo efeito. Esta visão de tratar, ainda mais, os trabalhadores como bens transacionáveis, maleáveis e adaptáveis às necessidades ditadas a cada momento pela oferta e procura, é uma visão que não está adaptada à ideia que se tem vindo a construir sobre o que é o mundo do trabalho no século XXI, ignorando por completo ideias como o decrescimento económico ou o pós-trabalho.

Acresce a tudo isto o facto de que, em nenhuma circunstância, as competências individuais em que cada um decide investir devem ser ditadas exclusivamente pelas necessidades do mercado. Nem tão pouco deve ser o mercado a ditar o valor individual que cada pessoa tem para a sociedade.

Nesse sentido, enquanto relator sombra no Parlamento Europeu para o Ano Europeu das Competências, as propostas de alteração que procurei introduzir foram no sentido de alargar o âmbito da proposta da Comissão e garantir que são promovidas e financiadas iniciativas que incidam sobre a educação e formação ao longo da vida, que se incluam iniciativas de ensino informal e não formal, e que se dê destaque a competências relacionadas com a cidadania e a participação cívica. Estas não são propostas de alteração meramente cosméticas, nem tão pouco creio que se possam considerar utópicas. São alterações que promovem, a meu ver, uma mudança de paradigma sobre o mundo do trabalho. Não se trata de ignorar o facto de que há áreas em que há uma maior necessidade de trabalhadores ou impedir que se criem estratégias para suprir essas necessidades. Ao invés disso, trata-se de garantir que não investimos apenas na formação de trabalhadores adaptados às necessidades do mercado, mas que investimos na formação das cidadãs e dos cidadãos de amanhã. Suprirmos as necessidades do mercado e dar oferta à procura, sem darmos instrumentos de participação cívica, significaria salvar a economia e perdermos a democracia. Que assim não seja, a bem de ambas.

- Sobre o João Duarte Albuquerque -

Barreirense de crescimento, 35 anos, teve um daqueles episódios que mudam uma vida há pouco mais de um ano, de seu nome Manuel. Formado na área da Ciência Política, História e das Relações Internacionais, ao longo dos últimos quinze anos, teve o privilégio de viver, estudar e trabalhar por Florença, Helsínquia e Bruxelas. Foi presidente dos Jovens Socialistas Europeus e é, atualmente, deputado ao Parlamento Europeu.

Texto de João Duarte Albuquerque
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

16 Junho 2026

5 mil euros por mês, a trabalhar 2 dias e meio por semana? É possível

2 Junho 2026

Do livro

19 Maio 2026

O teatro palestiniano: ser ou não ser?

12 Maio 2026

A real decadência europeia

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

7 Abril 2026

Valério e Gonçalo vão à luta

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Luz Venceslau sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0