“Songs arise out of suffering, by which I mean they are predicated upon the complex, internal human struggle of creation and, well, as far as I know, algorithms don’t feel. Data doesn’t suffer. ChatGPT has no inner being, it has been nowhere, it has endured nothing, it has not had the audacity to reach beyond its limitations, and hence it doesn’t have the capacity for a shared transcendent experience, as it has no limitations from which to transcend. ChatGPT’s melancholy role is that it is destined to imitate and can never have an authentic human experience, no matter how devalued and inconsequential the human experience may in time become.”
“Pedi ao ChatGpt para me escrever uma letra de uma canção ao estilo de Nick Cave e isto foi o que este produziu. O que achas?”
Esta pergunta, dirigida ao Nick Cave por um fã na sua plataforma “The Red Hand Files”, à qual se acrescentou a letra gerada pela plataforma de Inteligência Artificial, espoletou do artista uma resposta brilhante e, em mim, esta reflexão. Diz o Nick Cave, numa tradução minha, que “uma canção surge do sofrimento, ou seja, está assente na luta interna do ser humano para criar algo e, segundo sei, um algoritmo não sente, os dados não sofrem. O Chat GPT não esteve em lado nenhum, não teve a audácia de se superar.”
Há efetivamente um risco de que plataformas cada vez mais avançadas da Inteligência Artificial substituam gradualmente os artistas na criação artística. E assumindo a perspetiva do Nick Cave, será sempre criação que não veio daquilo que formou criador como pessoa, da sua vida, das angústias, das alegrias e das perdas, dos sítios por onde passou, das pessoas com quem conviveu. Será sempre uma interpretação em segunda mão do sofrimento escrito, dito, pintado ou cantado por alguém. E a arte existe pela sua capacidade de nos relacionarmos com ela e, consequentemente, com as mesmas angústias dos seus criadores. É nessa relação que reside o seu poder transformativo.
Numa altura em que se fala muito (e bem) da conquista do lugar de fala de todes aqueles que fazem parte da nossa sociedade, essa luta começa a ser cada vez mais visível e mais prevalente. Deparamo-nos não num futuro qualquer, mas no presente, com uma reflexão mais global: a do lugar de fala da humanidade. A voz coletiva que, com os seus equilíbrios e desequilíbrios, com as suas múltiplas diferenças, ainda se faz ouvir no planeta.
A arte é o veículo mais importante de expressão daquilo que nos torna humanos e é sempre um reflexo dos que vivem o presente, que sofrem, que amam, que lutam no agora. É sempre inspirada no que já foi feito e transformada pela complexidade dos que criam no presente e, por isso, é sempre original, relevante, capaz de fazer com que os que partilham os tempos com os artistas consigam, também eles, descodificar pelas obras a complexidade do que sentem. Desprovida dos seus criadores contemporâneos, a produção artística ficará sem essa influência do agora, da vida vivida, a arte criada passa a ser a reciclagem do que já foi feito, a sopa de sentimentos passados. A arte criada sem o artista fará com que se perca a voz de quem fala sempre primeiro e, com isso, perderemos com ela a voz coletiva que ainda nos resta como espécie humana.
-Sobre Miguel Bica-
O Miguel gosta de fazer coisas acontecer e de pensar como se constrói uma experiência, na sua relação com o público, com os artistas, o espaço e o ecossistema em que ela se insere. Colaborou em festivais de cinema como o IndieLisboa e o Doc Lisboa e foi gestor do projeto PTBluestation. Em 2014 foi um dos fundadores do Gerador, é hoje vice-presidente e director de produção e é dele a responsabilidade de materializar as inúmeras iniciativas que aí vão sendo produzidas. É formador de planeamento em eventos culturais na Academia Gerador e orientador de projecto final no curso de produção de eventos na World Academy.