“(…) fiquei a agonizar por oito horas na sala de espera do hospital, eu gritava, chorava e quando pedia ajuda, a enfermeira dizia que eu não era prioridade de atendimento. Até que uma médica passou, solidarizou-se com meu estado, me examinou ali mesmo, chamou um colega e assim fui enviado às pressas para o centro cirúrgico. Meu apêndice tinha estourado, por pouco eu não morri”.
D., brasileiro negro radicado em Portugal
O caso supracitado ocorreu em Portugal há alguns anos, porém as marcas traumáticas permaneceram na vida deste homem que lembra do fato com lágrimas nos olhos. O sentimento de impotência foi atualizado junto a sensação de reviver o descaso, de ser reduzido a condição sub-humana em que sua dor foi totalmente ignorada. Era apenas um homem negro brasileiro a receber um tratamento diferenciado. Este é um dos milhares casos que ouço na clínica que realizo com os migrantes pelo mundo afora, sendo assim, considerei mais do que justo abordar este assunto tão relevante.
Este artigo é sobre violência institucional e seus impactos na saúde mental da comunidade migrante, tanto em Portugal como em toda Europa. A frequência de casos de xenofobia, discriminação e racismo nos ambientes de saúde sem dúvida é um agravante, aliás, não faltam exemplos na comunicação social para ilustrar essa triste realidade. Embora saibamos que a saúde pública enfrente enormes desafios, não podemos ignorar que tais práticas estejam incorporadas nas instituições, reiterando um sentimento compartilhado socialmente. A violência institucional em ambientes de saúde fornece uma espécie de radiografia sobre qual corpo merece ou não ser cuidado, pode-se aqui salientar a imposição de domínio de corpos e o exercício do pequeno poder por parte dos agentes de saúde provocando as mais variadas situações de violências contra corpos vulneráveis.
“Eu sofria com dores e sangramentos por conta dos miomas que tinha em meu útero há alguns anos. Não gostei da consulta com o Ginecologista, ele mal olhou em minha cara e disse que precisava de cirurgia, não explicou como seria e nem discutiu opções. Achei estranho, meu médico no Brasil era diferente. Tive uma péssima sensação, mas como estava com meu marido, senti-me obrigada a confiar, era um médico alemão e a gente sempre ouve que na Europa a saúde é ótima. Saí de lá já com um pedido de cirurgia, e no dia da internação estava muito ansiosa. Quando acordei, soube que meu útero tinha sido removido e eu tinha uma cicatriz enorme em toda barriga. Fiquei em choque. Me senti violada, sem contar que ali acabou a esperança de ser mãe. Foi a situação mais violenta que eu vivi”.
D., brasileira negra radicada na Alemanha
A violência institucional informa o desalinhamento de uma sociedade relativa às atitudes, aos comportamentos e as hierarquizações durante a interação entre indivíduos diferentes. Essas práticas reproduzem relações coloniais e de suposta superioridade e o intuito é reafirmar lugares sociais pré-definidos. Ademais, tais práticas de violência afeta de forma danosa principalmente negros e migrantes radicados em países europeus. Já em 2012, um relatório produzido pelo Médicos do Mundo em catorze cidades e sete países europeus, revelou o aumento de comportamentos xenófobos nos serviços de saúde e atribuiu este cenário à crescente crise migratória que a Europa enfrenta nos últimos anos.
No que concerne à segurança psicológica e emocional dos utentes o fato é grave, afinal, este grupo vive uma condição de total vulnerabilidade tanto física quanto psicológica, acumula assim experiências traumáticas num espaço que deveria fornecer segurança e apoio diante de situações de crise. O resultado é a falta de confiabilidade nos serviços, e que não diminui diante da negação constante das instituições e seus agentes, incapazes de rever criticamente suas práticas. Os assédios, o desrespeito, a desumanização e a negligência são casos relatados pelos utentes com muita frequência.
A violência institucional em serviços de saúde têm produzido sofrimento psíquico devido a lógica de dominação de corpos, tendo em vista a impossibilidade de respostas por parte dos utentes pelas práticas de silenciamento e descrédito. Outro fator é a impunidade dos dispositivos de saúde e a falta de resposta adequada por parte dos órgãos reguladores e de denúncia, em consequência disso o aumento da angústia, do medo.
“Mas doutora, eu estive quatro vezes no centro de saúde com o encaminhamento ao serviço psiquiátrico, as atendentes são grosseiras e nunca fornecem informações claras. Disseram-me que a consulta já foi marcada e que receberei uma carta. Recebi nada, quando retornei lá, me deram um papel com uma data e horário. Compareci, mas informaram que eu estava no hospital errado, mesmo com o endereço do local escrito pela funcionária. Perdi a consulta e tive de pagar um psiquiatra no privado. Agora sinto-me melhor com as medicações”.
G.,Guienense negra radicada em Portugal
Parece sem sentido termos de discutir saúde mental nos serviços de saúde, não é mesmo?! Pois é triste a realidade. Se essa discussão existe o sistema de saúde em geral deve ser seriamente reavaliado. Mas, quem está na liderança dessas discussões? Quais são as cabeças pensantes? Qual o papel das Universidades e instituições de ensino na formação desses agentes de saúde? Quais representantes destas minorias participam na construção dos remédios institucionais? Enquanto não temos respostas para tais questões, meu gabinete a cada dia enche seu espaço de histórias de sofrimento e de desesperança.
- Sobre a Shenia Karlsson -
Preta, brasileira do Rio de Janeiro, imigrante, mãe do Zack, psicóloga clínica especialista em Diversidade, Pós Graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, Mestranda em Estudos Africanos no ISCSP, Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no Instituto da Mulher Negra de Portugal, Co fundadora do Papo Preta: Saúde Mental da Mulher Negra, Terapeuta de casais e famílias, Palestrante, Consultora de projetos em Diversidade e Inclusão para empresas, instituições, mentoria de jovens e projetos acadêmicos, fornece aconselhamento para casais e famílias inter racias e famílias brancas que adotam crianças negras.