A romantização da história colonial portuguesa, faz-nos acreditar que o povo, pessoas brancas, foram os únicos que conquistaram e lutaram pelo 25 de Abril. Mas este dia também é nosso. Não existiria qualquer revolução sem as lutas pela independência.
O 25 de Abril deveria ser uma constatação dos factos. Mas tornou-se numa celebração dos heróis do costume. São os soldados que saíram à rua, o povo que gritava por liberdade. Mas e os que ficaram para apanhar os cacos da guerra colonial? E os que morreram na guerra colonial? E os que fugiram após a guerra colonial? A revolução dos cravos é muito mais do que a conquista da liberdade e é muito menos que uma oposição à colonização Salazarista.
O 25 de abril também é teu, preto.
Pertence-te.
Tu és a verdadeira resistência ao regime de Salazar. Tu és a oposição à sua propaganda colonial.
Muitos quiseram conquistar a liberdade, mas poucos quiseram recriar uma narrativa que se opusesse à opressão colonizadora. Era a liberdade de expressão que mais importava. Não era o reconhecimento do outro como igual.
O pós-revolução, ainda representa uma luta pela conquista da nossa liberdade. Ainda representa uma luta diária contra o racismo, contra o sistema que o perpetua. É uma data que pode e deve acordar o português que existe dentro de nós. Ou a identidade de um país recentemente independente. Mas é um marco para a expressão de quem somos.
A luta continua, é conquistada a cada dia por todos os movimentos anti-racistas que existem neste país. Porque preto, o 25 de Abril também é teu, e ninguém te pode roubar.
Roubaram, violaram, invadiram. E nos reerguemos. Uma, duas, três vezes, as vezes que forem precisas. Porque nós somos o real sonho dos nossos ancestrais.
Nós vamos ser a representação da conquista da liberdade para o nosso povo. E as crianças do futuro serão apenas e só crianças e nunca crianças pretas.
-Sobre Mafalda Fernandes-
Nascida e criada no Porto, filha de pais brancos e irmã de mulheres negras. Formada em Psicologia Social, o estudo e pensamento sobre problemas sociais relacionados ao racismo, são a sua maior paixão. Criou o @quotidianodeumanegra, página de Instagram onde expressa as suas inquietudes. Usa o ecoturismo como forma de criar consciência anti-racista na sociedade. Fã de Legos, livros e amizades, vive pela honestidade e pelo conhecimento.