Enquanto me ia descobrindo uma criança LGBTQIA + (sem me conhecer como tal, que as palavras não me chegavam para tanto), fui também recebendo sinais de que eu era "errado".
Em Portugal, a homossexualidade foi crime até 1982 por isso, durante muito tempo (e para algumas mentalidades até hoje) mostrar-se homofóbico era quase uma virtude.
Quando eu era criança e adolescente, as pessoas eram muito vocais na expressão dos seus preconceitos. Aquilo que ouvia na rua, em casa, na escola, na televisão, deixava-me com medo de que os meus pensamentos fossem ouvidos, ou que os meus desejos transparecessem. Cresci sem perceber como poderia encaixar a felicidade no meu futuro.
Uma das coisas que ouvia dizer com frequência era que “antigamente era proibido, agora tolera-se, qualquer dia é obrigatório”.
Esta é uma frase que expressa muito bem o mecanismo subjacente não só à homofobia, mas a outros medos relacionados com minorias sociais:
1. A exclusão/proibição/anulamento do outro é a minha garantia de segurança. 2. Está a ser dado espaço de existência ao outro.
3. Então, o outro poderá fazer comigo aquilo que eu lhe fiz. Poderá transformar-me em X, da mesma forma que eu tentei transformá-lo em Y. Ou poderá mesmo anular-me.
Tenho reconhecido este raciocínio como subtexto do discurso dos “novos censurados”.
Estes “novos censurados” distinguem-se dos outros porque podem dizer tudo o que querem e onde querem. Escrevem livros, escrevem livres. Têm antena aberta na rádio e na televisão, têm espaço nos jornais, seguidores nas redes sociais. Não lhes faltam oportunidades de espalhar a sua influência e indignação por milhões de cabeças.
Muitas vezes, os novos censurados são pessoas em posições de poder, que sempre tiveram acesso ao espaço social. Nunca foram postas em causa pela sua origem, género, raça, condição social, profissão, deficiência ou orientação sexual.
Além disso, têm beneficiado com a falta de voz dos grupos minoritários, retratando-os de um modo que reforça estereótipos e alimenta preconceitos, num mecanismo circular que vai sempre ampliando a marginalização e o silenciamento.
Ainda assim, posso conceber que estas pessoas se sintam realmente censuradas. Historicamente, homens brancos, cis e hétero, têm tido o privilégio de ter as suas perspectivas e opiniões consideradas como padrão universal. É natural que, quando se levantam opiniões diferentes e ainda para mais vindas de grupos que nunca antes tiveram voz, essas pessoas se sintam frustradas pela novidade de ver as suas perspectivas desvalorizadas ou rejeitadas por alguém.
De há uns anos para cá, temos assistido a um aumento de conscientização sobre questões de discriminação e preconceito. Quem não se foi atualizando sobre estas mudanças culturais e sociais pode agora sentir que ficou para trás e que não se adaptou. Perante esta frustração, há duas atitudes possíveis. A primeira é dar uma corridinha rumo à adaptação. A segunda é atirar-se para o chão e fazer a birra do “já não se pode dizer nada”.
O "já não se pode dizer nada" informa-nos de que toda a expressão potencial daquela pessoa se resume a discurso de ódio, discriminação e preconceito e que, se lhe tirarem isso, só sobra nada.
É possível dizer muita coisa mantendo o respeito pelas perspetivas e experiências de outras pessoas. Aliás, se tivermos interesse e atenção, vamos notar que estão a ser ditas coisas muito interessantes para as quais nunca antes houve palavras ou espaço.
Podemos até descobrir que dar atenção à perspectiva de pessoas pertencentes a grupos minoritários não só não limita a liberdade de um autor, como lhe permite dar profundidade aos personagens que cria, indo para além do estereótipo.
Gritar censura como forma de encerrar conversas difíceis, ou evitar aprendizagens desconfortáveis é grave, porque desvia o holofote dos casos de verdadeira censura, minimizando-os. É que no mesmo mundo onde vivem estes “novos censurados”, vivem os também os censurados de sempre, e ser preso ou morto pelo que se diz ou pensa é uma realidade em muitos países.
A luta por mais justiça e igualdade requer que todas as vozes sejam ouvidas e consideradas, incluindo as de indivíduos de grupos historicamente privilegiados. Mas é fundamental reconhecer que certos grupos foram historicamente marginalizados e ainda enfrentam muitos desafios para terem as suas vozes ouvidas e valorizadas.
Eu, orgulhosamente, acredito em mudança, e o meu discurso dirige-se sempre a quem acredita que é possível tornar o mundo mais justo. Sei que o ser humano é um bichinho difícil, mas já vi e vivi muito progresso, por isso, acredito nele e valorizo-o.
-Sobre a André Tecedeiro-
André Tecedeiro é um escritor português nascido em 1979. Tem licenciatura e mestrado tanto em arte como em psicologia. Publicou sete livros de poesia, sendo o mais conhecido “A Axila de Egon Schiele” (Porto Editora, 2020).