O recado encontrou-me em dia de festa. Pela voz da minha mãe, colocada em nome do meu pai, lembro-me de, pela primeira vez, me ocupar das medidas do vestido que usava.
Aparentemente, as minhas pernas sobravam em demasia, deixando-me à mercê de gulosos olhares masculinos.
Na altura teria no máximo 14 anos, e, revoltada, verbalizei qualquer coisa como: “Eles são uns tarados, e eu é que pago?”.
Não me recordo de muito mais, mas guardei o desfecho: em casa o assunto morreu ali, sem novas recomendações de vestuário, até ressuscitar na escola. “Uma menina não se veste assim”, garantiu-me uma professora com quem me cruzei por acaso entre corredores.
Para essa “polícia do estilo feminino”, o look de inspiração TLCiana, com umbigo ao léu e uma conjugação de boxers e calças rasgadas estava reprovado. Respondi de chofre que eu é que tinha de gostar, e não dei espaço para mais conversas.
Naqueles tempos, havia em mim um “efeito posso-quero-e-visto”, construído entre visitas ao velho Estádio da Luz. Aqui, entre serviços de apoio aos sócios e outras questões administrativas, trabalhava a Dona Ivone, que passei a reconhecer pela extensa colecção de minissaias.
Aos meus olhos ainda pré-adolescentes, e distanciados de qualquer consciência sobre as opressões de género, uma mulher tão segura das suas pernas a caminhar num universo profundamente masculino merecia estatuto de heroína.
Sei zero sobre a sua vida, ocorre-me, agora que escrevo, que talvez a minha memória lhe tenha trocado o nome, mas não tenho qualquer dúvida de que foi a partir do exemplo da Dona Ivone, que nunca me senti inibida a mostrar as pernas. Nem sequer nas vezes em que me vi atravessada por ‘olhares-laser’.
“Se a Dona Ivone resistiu, eu também resisto”, tornou-se uma espécie de mantra protector, que gostaria de levar ao peito. Literalmente. A realidade, porém, é que, a partir de determinada idade, ganhei aversão a decotes. Não consigo precisar quando aconteceu, mas sei bem porquê: gosto de conversas olhos nos olhos, e não olhos desviados para o peito, distorção que se tornou tão recorrente quanto desconfortável nas minhas interacções com homens.
Sem grande reflexão, com o tempo fui cobrindo a ‘distração’: de cada vez que ia reunir sozinha com homens desconhecidos adoptava um “estilo cimeiro tapume”, que, quando dei por mim, se tornou regra.
Não por entender que a roupa que visto atrai ou repele agressões sexuais, mas por não encontrar outra estratégia de sobrevivência. Afinal, se nem um toque indesejado é reconhecido como violência – e nos cobre de rótulos infames – o que dizer de uns míseros ‘olhares de contemplação’?
A armadilha sexual de uma entrevista de emprego
Passe o tempo que passar, o peso do trauma não prescreve. Importa esvaziá-lo, seja quando for. Faço-o agora, também por aqui, cerca de 15 anos depois de o ter vivido.
Consigo descrever cada momento desse encontro, e ainda sinto um misto de repulsa, vergonha e culpa por ter confiado e baixado a guarda. Afinal – todas sabemos – “deveria ter-me protegido mais e melhor”.
Hoje sei que não tinha como antecipar que aquela oferta editorial – anunciada num reconhecido site de empregos – escondia uma armadilha sexual.
Nunca apresentei queixa, e, na altura, nem sequer me pareceu que fosse uma opção. Afinal, quem acreditaria em mim? Como explicar que, em vez de ter dado meia-volta daquele escritório para fora, depois de ser acometida de um desconforto visceral, continuei ali até ao final da entrevista? Como explicar a minha inacção? Como poderia provar violência sexual sem violação sexual?
Convenci-me de que não haveria qualquer hipótese de o fazer, e martirizei-me por não me ter levantado ao primeiro sinal de incómodo, sensação que fui racionalizando.
Fosse porque a proximidade de cadeiras se poderia explicar pela necessidade de me mostrar uns ficheiros no computador; fosse porque estávamos em plena luz do dia, e, na minha cabeça, isso inibiria avanços físicos. Fosse porque a pessoa tinha boas referências profissionais e pessoais. Fosse porque a minha programação de género sempre me fez procurar – e encontrar – uma explicação válida para o comportamento masculino.
Enganei-me.
Além de uma mão a “escorregar” para as minhas pernas, várias frases sugestivas acompanharam aquela visita-guiada por um ainda embrionário catálogo online, focado em temas de Relações Internacionais.
Às tantas, o homem mencionou a sua longa experiência de “trabalho” com mulheres africanas, dando a entender que havia um caminho horizontal para me juntar àquela colecção.
Em momento algum houve uma proposta explícita, mas tudo ali foi inapropriado. Seria o suficiente para apresentar uma queixa?
Parece que não, ao ler as reacções a mais um escândalo de assédio sexual em Portugal, profundamente contaminadas de desconfianças.
Para começar: “Porque é que esperaram tanto tempo para fazer queixa? Isso é suspeito!”. Como se não bastasse, “há uma brasileira metida ao barulho? Ui!”. Está-se mesmo a ver que “estas gajas querem vingança, fama e/ou dinheiro”. E, já se sabe, por este andar, estamos a matar a sedução. Ainda por cima, onde estão a provas? Não haverá por algo palpável ao estilo vestido Lewinsky?
Os dedos apontados a quem denuncia são tantos e criam tanto ruído que continuamos sem reflectir sobre a falta de mecanismos para punir os agressores e prevenir novos casos.
O que dizer também dos canais de denúncia, inoperantes perante situações de violência sexual?
Infelizmente “Todas sabemos”. Felizmente mais e mais de nós conseguem falar sobre o que sabem. Escutemos!
-Sobre a Paula Cardoso-
Fundadora da comunidade digital “Afrolink”, que visibiliza profissionais africanos e afrodescendentes residentes em Portugal ou com ligações ao país, é também autora da série de livros infantis “Força Africana”, projetos desenvolvidos para promover uma maior representatividade negra na sociedade portuguesa. Com o mesmo propósito, faz parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresenta a segunda temporada do “Black Excellence Talk Series”, formato transmitido na RTP África. Integra ainda o Fórum dos Cidadãos, que visa contribuir para revigorar a democracia portuguesa, bem como o programa de mentoria HeforShe Lisboa. É natural de Moçambique, licenciou-se em Relações Internacionais e trabalhou como jornalista durante 17 anos, percurso iniciado na revista Visão. Assina a crónica “Mutuacção” no Setenta e Quatro, projecto digital de jornalismo de investigação, e pertence à equipa de produção de conteúdos do programa de televisão Jantar Indiscreto.