Quando penso em personalidades como Rosa Parks, Nelson Mandela, Malcom X ou Angela Davis, consigo visualizar-lhes um denominador comum: a coragem, o atrevimento e a inquietude de sair da curva e criar novas histórias e novos caminhos para si e para os seus. Como é que se chega à frente de uma massa que pensa de uma determinada forma ou tem medo de pensar diferente e se lhes diz que ali há há coisas que não estão certas, que é preciso mudança? Estas pessoas fizeram-no através de movimentos, atitudes, discursos, livros. E embora muitos deles já cá não estejam em carne e osso, o legado ficou e segue firme. Há um mundo antes e depois de todos eles.
Há a teimosia de gente pequena e a teimosia de gente grande. A primeira destrói, a segunda salva. A falta de recursos e de oportunidades pode arrancar de nós muita coisa, mas não a capacidade de sonhar. E eu sempre tive em mim todos os sonhos do mundo. Em miúda, quando queria criar roupas diferentes para as minhas bonecas usava meias velhas, revistas ou guardanapos. Criava a minha própria bijuteria com miçangas e outras bugigangas. No meu quarto eu viajava para todas as dimensões que quisesse, e o papel e o lápis permitiram-me mudar o rumo da minha história milhares de vezes.
Aos 15 anos, a teimosia levou-me a escrever textos e roteiros para vídeos sobre questões raciais na internet em 2014, quando pouco se falava do assunto nos espaços digitais em Portugal. Enquanto (e sem desmerecer) a maioria dos blogs falavam sobre moda e viagens, eu propunha diálogo e debate sobre colorismo, blackface, autoestima, micro e macro agressões, e os diferentes tipos de racismo.
Em julho de 2021, a meio da pandemia, fiquei em isolamento profilático por quase 24 dias por ter tido contato com uma pessoa infetada. Fechada em casa em pleno verão, decidi que iria escrever um livro. O tema não foi difícil de escolher. À falta de livros que contem histórias de jovens negros portugueses, escolhi contribuir com uma autoficção que explora a vida de uma jovem guineense que viveu toda a sua vida na europa. Não fui atrás de editoras. 4 meses depois decidi publicar o livro em formato digital. Não esperava, mas vendi dezenas de cópias e recebi vários pedidos de um possível formato físico. Não estava nos planos, pois o mercado literário português à branquitude pertence, sobretudo aos homens.
Mas as regras somos nós quem as cria. Quem disse que as coisas têm que ser e acontecer de uma única forma? A Solange Pacífico, poeta talentosa com quem tive o prazer de cruzar no início de 2022, fez-me ver que podemos quebrar os tradicionalismos. Em conjunto refizemos o design do miolo e imprimimos as primeiras cópias numa gráfica. Eu estava com medo. Medo que as pessoas não me levassem a sério. Medo que ninguém comprasse. Medo porque estaria a fazer tudo sozinha, sem apoios. Medo…Mas também estava eufórica. A Sandra de 6 anos esperou a vida toda por aquele momento! Quando segurei o primeiro exemplar, não consegui conter a emoção. A minha teimosia permitiu aquilo.
Em maio fez um ano desde que lancei a primeira edição. Agora em junho preparo-me para lançar a quarta. E a verdade é que este livro se tornou parte de algo muito maior que eu, que é esse movimento de reivindicação e reconstrução de amor junto de pessoas pretas. Merecemos isso.
Há a teimosia que destrói, e há a teimosia que salva. Eu salvo-me um pouco todos os dias.
-Sobre Sandra Baldé-
Escritora, DJ, e empreendedora digital, começou o seu percurso no digital em 2013 com o blog Diário de uma Africana, uma plataforma voltada para discussões raciais & de género e para autocuidado de pessoas negras. Em 2021 autopublicou o seu primeiro livro intitulado "Para Que Fique Bem Escurecido" cujo enredo gira em torno dos desafios da mulher negra num país maioritariamente branco.