Por estes dias de verão o interior fica mais bonito. As esplanadas e cafés das vilas e aldeias enchem-se de “filhos da terra” que deixam por algumas semanas o Luxemburgo, a França, a Suíça ou a Alemanha para regressar ao Portugal profundo.
É um conto conhecido este do Querido Mês de Agosto, expressão cliché popular para descrever a emoção de um território fortalecido por tempo limitado.
Quem vive fora dos grandes centros urbanos saberá tão bem como eu o impacto destes regressos temporários. Em agosto, o interior fica mais vivo, dinâmico e vaidoso pelos queixumes de quem não pode aqui estar todo o ano. “Quem me dera cá ficar”, dizem os emigrantes que fazem das quinas um manifesto.
A euforia dos arraiais sucessivos e das praias fluviais repletas é, no entanto, agridoce. À medida que o mês avança entra-se em decadência. As esplanadas começam a ter mais lugares vazios, as ruas ficam menos ruidosas e as bandeirinhas das festas começam a dar sinais de desgaste. Portugal volta a ser Portugal, e o interior volta ao silêncio com o que caracterizam.
Observo este cenário todos os anos, desde que me lembro de ser gente. A única mudança são as gerações, que se sucedem.
Por tudo isto, setembro surge-me sempre como uma espécie de ressaca prolongada, que nos aperta as têmporas e nos faz perder a vontade de sair de casa. Ainda não chegou e já pressinto o desânimo.
Antes os pais, agora os filhos, meus amigos de infância e colegas de escola, decidem tomar o mesmo rumo e procurar uma realidade onde o salário seja suficiente para construir uma vida independente e digna.
É verdade que Portugal é, há muito, um berço de emigrantes, mas as características da população não são as mesmas de há algumas décadas.
Há uma preponderância cada vez maior de jovens qualificados na diáspora que se fartou dos baixos salários e do elevado custo de vida, especialmente no que respeita à habitação. Segundo dados do INE, compilados na PorData, de um total de 25.079 emigrantes permanentes registados em 2021, cerca de 42% (10.535) tinha entre 20 e 29 anos de idade. E nota-se que a pandemia veio fazer descer consideravelmente os números.
Em julho, uma sondagem também revelou que mais de metade dos jovens ponderava sair para o estrangeiro, em particular os que tinham maiores níveis de escolaridade. Será difícil ver mudanças num país que deixa escapar o seu futuro por entre os dedos.
Em agosto, no entanto, é fácil esquecermo-nos disto e cair na ilusão. Só quando setembro se aproxima é que os números ganham contornos de verdade, nas ruelas vazias da aldeia. São mais reais fora das cidades. Talvez poucos pensem nisto, mas se estas contas são dramáticas para o país como um todo, imaginem o que significam para os outonos do interior.