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Nuuk: Gronelândia, uma ilha no centro dos conflitos pelo poder global

A disputa pelo futuro da maior ilha do mundo entristece a população local. No entanto, também a aproxima e obriga-a a confrontar alguns dos capítulos sombrios da história nórdica.

Texto de Bianca Blei | Tradução de Francisco Ferreira/Voxeurop

Fotografia de Bogomil Shopov vis Unsplash

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É quinta-feira à noite em Nuuk e a notícia do suposto "acordo-quadro" que Trump teria alcançado com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, está a espalhar-se rapidamente.

O "Que m**** é essa?" que se ouve pelo telemóvel termina com um tom agudo que fica a pairar por um momento. Na pausa que se segue, duas mulheres olham uma para outra através do ecrã do telemóvel. Nina e Najaaraq, ambas com 57 anos, estão chocadas com mais uma reviravolta do presidente dos EUA, Donald Trump.

Aaja Chemnitz, uma das duas deputadas da Gronelândia em Copenhaga, esclarece rapidamente a situação numa publicação no Facebook: "Nada [será discutido] sobre nós sem nós" – uma frase que o governo da Gronelândia tem hasteado como um estandarte desde que a Estratégia de Segurança Nacional americana foi publicada no início de 2024. A frase significa que o povo da Gronelândia quer estar presente quando forem tomadas decisões sobre o seu país, ao qual chamam Kalaallit Nunaat – "A terra dos Kalaallit."

Mais uma vez, os habitantes da ilha só tomaram conhecimento do suposto acordo através dos meios de comunicação social. Nem mesmo o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, estava a par do assunto.

A tão almejada paz

O povo de Nuuk não quer nada mais do que ser deixado em paz. Por mais de um ano, a atenção do mundo voltou-se para a ilha ártica e os seus cerca de 57.000 habitantes. "O frenesim dos media tem sido intenso nos últimos meses", diz uma vendedora de uma loja de equipamentos para atividades ao ar livre no centro de Nuuk, virando-se para olhar pela janela. Na rua coberta de neve, uma equipa de filmagens aborda os transeuntes para obter declarações. "Mas o que vimos nas últimas semanas estabeleceu um novo recorde."

Todas as grandes empresas de comunicação social – da Al Jazeera à ZDF – voaram para a tranquila capital da Gronelândia, e os habitantes locais estão claramente fartos dos microfones e das câmaras. Ao cruzarem-se no frio glaciar, normalmente os residentes acenam educadamente uns aos outros ou sorriem quando os seus olhos se encontram. Agora, olham para as suas botas assim que veem uma câmara de vídeo ou um fotógrafo. Além disso, também elaboraram orientações destinadas a jornalistas estrangeiros para lembrar aos jornalistas de que o povo da Gronelândia não é apenas uma história ou uma manchete, eles são pessoas profundamente afetadas pelas ameaças de Trump.

Parceiros bem-vindos

Emiia, 27 anos, ensina gronelandês numa escola primária. "Eu ensino os meus alunos a não falarem com os média se os pais não estiverem presentes", diz ela. "Se não estiverem presentes, eles devem dizer ‘não’ em voz alta." As crianças estão constantemente a perguntar-lhe sobre a situação atual, mas ela só consegue responder a algumas das perguntas. Afinal de contas, ninguém sabe o que Donald Trump quer da Gronelândia e o que fará no futuro.

Desde 1951, os EUA têm praticamente carta branca no que toca a operações militares e armamento nesta ilha estrategicamente importante. Ninguém está a impedir o governo em Washington de abrir mais bases militares, embora os próprios Estados Unidos tenham fechado todas, com a exceção da base de Pittufik. Ninguém está a impedir os EUA de extrair as valiosas matérias-primas do país.

"Sempre dissemos que parceiros com ideias semelhantes são sempre bem-vindos ", afirma Naaja H. Nathanielsen, ministra dos Recursos Minerais da Gronelândia, no seu gabinete em Nuuk. A extração só teria de ser realizada com respeito pela população local e beneficiar os gronelandeses, bem como investidores estrangeiros.

Em 2021, um grande projeto em Kvanefjeld, no extremo sul da ilha, foi encerrado pelo parlamento da Gronelândia. Embora o local contenha o terceiro maior depósito conhecido de terras raras, com um teor de minério particularmente alto, a sua exploração não é permitida. Isto porque a rocha, além das terras raras, também contém o oitavo maior depósito de urânio do mundo. No estado norte-americano do Arizona, décadas de exposição à exploração de urânio e minas abandonadas deixaram um enorme rasto de poluição ambiental, que teve consequências catastróficas a longo prazo para os indígenas Navajo e as suas terras e os gronelandeses temem que o mesmo lhes aconteça.

Tópico: alterações climáticas

Além disso, como Nathanielsen salienta, os depósitos na Gronelândia não são uma "solução rápida" que possa satisfazer a procura atual de terras raras. Simplesmente para colocar uma mina em funcionamento são necessários, em média, 16 anos, diz ela, principalmente porque não há infraestruturas, como estradas, já que as cidades na Gronelândia não são conectadas por nenhuma estrada. A primeira rota terrestre entre duas povoações só foi aberta neste verão: uma pista de areia de 170 quilómetros entre Sisimut e o aeroporto da capital, Kangerlussuaq. E não se trata apenas de estradas, já que a exploração em grande escala exigiria também mais portos e aeroportos.

Derreter gelo

Mesmo os especialistas são incapazes de prever o impacto do aumento da atividade militar em torno da Gronelândia sobre o frágil ecossistema. O que é certo é que a massa de água conhecida localmente como Pikialasoruaq — a via navegável do norte entre o Canadá e a Gronelândia — afeta a Corrente do Golfo, que por sua vez afeta o mundo inteiro. E é também uma realidade que o aumento das temperaturas está a derreter a barreira de gelo essencial no extremo norte. Os inuítes de ambos os lados do mar estão, portanto, a defender uma área de proteção marítima. Num mundo onde os acordos climáticos estão a ser deixados para trás, essa será uma tarefa difícil.

As alterações climáticas são tema diário das conversas em Nuuk, onde os invernos visivelmente mais quentes preocupam as pessoas. "Entre novembro e fevereiro", diz Najaaraq, de 57 anos, "costumava fazer um frio intenso. Não é normal ter temperaturas acima de zero em janeiro, como temos agora". No porto, antes de partir em busca de alabote, bacalhau e focas, os pescadores também falam sobre o recuo do gelo.

Enquanto os residentes da capital permanecem relativamente pouco afetados pelas mudanças, as pessoas de Ilulisaat, no norte, relatam que os mares que antes congelavam completamente, permitindo-lhes atravessar o gelo em trenós puxados por cães para caçar, demoram mais tempo a congelar no outono e derretem mais cedo na primavera. O gelo também pode ficar perigosamente fino no auge do inverno. "Mesmo na minha infância, os campos de gelo eram maiores", diz a professora primária Emiia, que vem de uma cidade conhecida pelos seus icebergues.

Como o presidente dos EUA é conhecido por questionar acordos já assinados, os gronelandeses permanecem em alerta. Esta semana, o governo publicou um documento a a indicar como os habitantes podem preparar-se para emergências.

Geradores de reserva e garrafões de água esgotaram rapidamente em toda a ilha. As prateleiras dos supermercados também estão a ficar vazias e não apenas porque as entregas de alimentos normalmente chegam à ilha apenas uma vez por semana (os acidentes marítimos podem atrasar as entregas até duas semanas). "As pessoas estão inquietas", diz Arnakkuluk Jo Kleist, uma consultora de gestão autónoma de 41 anos que viveu toda a sua vida em Nuuk.

Enquanto toma um café no centro cultural Katuaq, acena repetidamente para pessoas conhecidas. Kleist também dá nota de "uma certa pesada e tristeza" entre a população. As pessoas estão a elaborar planos de contingência e, em alguns casos, a pensar em como poderiam deixar o país em caso de emergência para se salvarem a si e aos seus. "Sempre pensámos que estávamos longe do resto do mundo na nossa grande ilha", diz Kleist. "E agora os holofotes globais estão a trazer-nos tanta angústia."

Para combater as suas preocupações, diz Kleist, os gronelandeses estão a tentar dar força uns aos outros. Os políticos estão a ser abraçados até mesmo por pessoas que normalmente não votariam neles. Depois de a especialista em política externa Vivian Motzfeldt defender os direitos da Gronelândia no palco internacional em Washington e Bruxelas, foi recebida no aeroporto por uma multidão com bandeiras. "É um pouco como no desporto", diz Kleist. "Quando a seleção nacional está a jogar, não importa se os jogadores vêm de equipas rivais. Todos representam o país."

A terra dos inuítes

A terra, que na verdade pertence aos inuítes, está intimamente ligada ao Reino da Dinamarca, por exemplo, através de enfermeiros dinamarqueses como Nikolai, de 33 anos, que está a trabalhar no hospital de Nuuk por um mês (pela terceira vez) devido à falta de pessoal. Os laços também se refletem nos familiares que partiram para a Europa na esperança de encontrar um sistema social melhor.

Infelizmente, a história partilhada com a Dinamarca também tem muitos capítulos sombrios. Najaaraq viveu na Dinamarca entre os seus 20 e 30 anos. "Ninguém queria servir-me nas lojas", diz ela. "No autocarro, as pessoas gritavam para eu voltar para casa." Mesmo na Gronelândia, a mulher de 57 anos nem sempre foi aceite. Como filha de pai dinamarquês, nunca aprendeu a língua da sua mãe gronelandesa quando era criança porque na década de 1970 o dinamarquês era a língua dominante na ilha. Como resultado, alguns não a consideravam uma gronelandesa de pleno direito.

"Ainda há muito trabalho a ser feito", diz Kleist. Uma comissão irá agora abordar o legado sombrio da era colonial, para que os gronelandeses possam começar a superar o trauma transmitido entre gerações. A pressão que Trump exerceu sobre a Dinamarca já colocou algumas coisas em movimento.

O futuro com a Dinamarca

No ano passado, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen pediu desculpas, em lágrimas, às pessoas afetadas pelo escândalo dos dispositivos intrauterinos, que remonta às décadas de 1960 e 1970, quando a Dinamarca recorreu à contraceção forçada para limitar o crescimento populacional na sua antiga colónia. Caso contrário, argumentava o governo, não seria mais capaz de financiar o Estado social. De acordo com o plano, mais de 4.000 mulheres e meninas tiveram dispositivos intrauterinos, ou DIU, inseridos por médicos, e muitas delas não puderam ter filhos. Só recentemente Copenhaga concordou em pagar uma indemnização, embora isso pudesse ter sido concedido anos antes. “Faz-nos pensar na razão pela qual tudo isto é possível agora e quem está por detrás disto”, reflete Kleist.

A mensagem do governo da Gronelândia em Nuuk é clara: se for necessário fazer uma escolha, a Gronelândia quer permanecer como território dinamarquês. "Mas isso não significa que tenhamos esquecido o que aconteceu", observa Kleist. Primeiro, é preciso impedir uma aquisição hostil e só então poderão começar as discussões sobre o futuro com a Dinamarca — um futuro que, na perspetiva dos gronelandeses, também poderá levar à independência.

Emma Louise Stenholm, da parceira dinamarquesa Føljeton, contribuiu para esta reportagem através do projeto Pulse. Artigo originalmente publicado em Derstandard a 24 de janeiro de 2026.

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