20 anos, 13 edições. Em ano de efeméride e depois de vários percalços, uns financeiros e outros decorrentes da pandemia, o tema “Resistência” impôs-se com naturalidade na programação de 2026. Com uma programação dividida por nove palcos, a criação musical portuguesa regressa a Cem Soldos.
O vigésimo aniversário servirá para olhar para o futuro e pensar nas novas gerações, sem esquecer o caminho percorrido. Como explicou o programador Sérgio Alves na apresentação desta edição, a ideia era trazer pessoas e projetos que fizeram parte deste percurso. É o caso de Jorge Cruz, que já se havia apresentado com os Diabo na Cruz e este ano atua a solo no dia 8 de agosto. Os tomarenses Quinta do Bill serão outro dos nomes consagrados de um festival que é também lugar de acolhimento de artistas emergentes, como Cláudia Sul, que em 2022 se lançou com o projeto musical A Sul.
A dinâmica do festival terá algumas adaptações. O palco Carlos Paredes, na igreja de São Sebastião, não terá atividade este ano porque a cobertura do edifício entrará em obras de reabilitação, mas fora do centro de Cem Soldos haverá uma novidade: o palco Rosa Ramalho, dedicado à ceramista nascida em Barcelos no século XIX que colocou a sua arte de lado depois de casar. Retomaria o ofício depois da viuvez, altura em que finalmente obteve reconhecimento pelo seu trabalho. Uma história de resistência, portanto. Por este palco passarão ACID ACID, Natércia Lameiro, Calcutá e A Sul. A este novo espaço juntam-se os palcos Lopes-Graça, Zeca Afonso, António Variações, Giacometti, Amália, Aguardela e o palco Garagem, que funciona quase como um showcase: mediante uma inscrição diária, qualquer pessoa ou banda pode mostrar-se e testar a recetividade do público ao seu trabalho. Há ainda um palco programado pelo projeto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, projeto de divulgação de música que de outra forma ficaria circunscrita à tradição oral. Por aqui passarão Suma, Sons do Lagar com Coro da Cura, Serigosa e Cancioneiro de Benfica.
O Bons Sons muito para lá da música
Como os programadores fazem questão de salientar, o Bons Sons nunca foi [só] um festival de música. E como a equipa pretende que estes vinte anos sirvam de mote para pensar os próximos vinte, as gerações mais novas assumem centralidade. O festival será montra do trabalho que os alunos da escola primária têm vindo a fazer no âmbito do Estúdio de Vídeo de Cem Soldos. Através da criação audiovisual, os alunos são convidados a descobrir e interpretar a história da aldeia, explorando a memória coletiva. Durante o festival, os materiais criados pelas crianças serão partilhados com os visitantes numa exposição.

Foto: Carlos Manuel Martins
Espetáculos de dança, curtas-metragens, conversas e documentários também farão parte da programação de um festival ancorado num manifesto em dez pontos que quer trazer um olhar contemporâneo ao campo, extirpado de paternalismos ou visões do passado, que pugna pela cidadania participativa em todas as gerações e pela cultura popular, inclusiva e diversa.
O ano de 2026 marca o vigésimo aniversário do Bons Sons e o 45º do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), a associação local que lhe serviu de berço. Apesar de o evento ser a face mais visível da associação, o trabalho de desenvolvimento local é transversal ao resto do ano. Exemplo disso é o programa Aldeia Cultura, baseado em seis eixos: educação, envelhecimento, cultura, desporto, turismo e urbanismo. O trabalho e a partilha comunitários são o cimento que une estas vertentes. E essa comunidade, hoje formada por cerca de 600 residentes, tem vindo a crescer, segundo o presidente do SCOCS, Filipe Cartaxo, que dá conta de dez a quinze exemplos de pessoas que regressaram para comprar ou reabilitar casa, só no espaço correspondente ao recinto do festival. “Costumo dizer que vamos um bocadinho contra a maré, porque quando se fala da desertificação, aqui não acontece isso: está a acontecer ao contrário”, nota. para haver pessoas, tem de haver equipamentos. Para além do lar, reabilitado, Cem Soldos mantém escola primária e jardim de infância, frequentado não apenas por crianças da aldeia mas por famílias que escolhem Cem Soldos, como descreve Filipe Cartaxo: “Temos exemplos de pessoas que fazem 25 quilómetros por dia, para cada lado, para virem conhecer-se aqui”.