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Entrevista a Mariana Gaivão: “As minhas referências nunca foram cinematográficas, mas de uma imensidade que me pertencia”

O Doc Lisboa está de regresso para uma programação de mais de dez dias. O…

Texto de Gabriel Ribeiro

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O Doc Lisboa está de regresso para uma programação de mais de dez dias. O festival de cinema, que já vai na 17.ª edição, iniciou-se na passada quinta-feira, dia 17, e prolonga-se até 27 de outubro. Como é habitual, o cinema nacional e internacional está em destaque.

Durante o ano, 21 festivais de cinema portugueses vão receber um conjunto de realizadores portugueses para celebrar os 20 anos da Agência da Curta-Metragem (ACM) numa iniciativa apelidada de “Carta-Branca Aos Realizadores Portugueses”. Neste sentido, o Doc Lisboa associou-se à ACM para receber Mariana Gaivão, hoje, dia 19, às 21h30. Em comunicado, é possível saber que o objetivo é convocar “as pessoas que pensam cinema na sua origem – os criadores – para se colocarem no papel do programador e fazer uma revisitação ao cinema nacional numa sessão de curtas-metragens”.

Mariana Gaivão estudou fotografia e cinema. Foi durante o curso que se aproximou da montagem, que considera ser “um espaço sossegado para se pensar o cinema”. Vem de uma família sem ligações às artes e foram as ciências que lhe despertaram a curiosidade que tem sobre o mundo. Cresceu nos subúrbios de Lisboa e queria estudar Astronomia. Tinha um grande fascínio por instrumentos, como o telescópio, mas foi outro instrumento que ditou o futuro no cinema, “uma pequena câmara”.

 Gerador (G.) – De tudo o que já fez, houve algum trabalho que lhe desse mais gosto fazer?

Mariana Gaivão (M.G) Houve vários. Na parte da montagem houve muitos trabalhos e pessoas que me marcaram como pessoa. Destaco, por exemplo, o João Pedro Rodrigues, com o seu rigor, generosidade e humanidade, e o Marco Martins, com quem aprendi uma certa teimosia. Em termos de cinema, no meu percurso destaco o meu último filme, Ruby, e antes disso, o First Light, porque marcaram o meu encontro com as estruturas de rodagem mais próximas ao que eu quero fazer.

G. – Já recebeu alguns prémios, como no Festival du Nouveau Cinéma e no Festival de Curtas de Vila Do Conde. O que é que os prémios simbolizam para si?

M.G São passos importantes, não vale a pena contornar essa questão com falsa humildade. O cinema envolve grande esforço de equipa, financeiros, de tempo… Eu demoro muito tempo a fazer os filmes, por isso, poder a dada altura do processo ver isso reconhecido e perceber que esse reconhecimento abre portas, é importante e é uma boa sensação.

G. – O que pensa desta iniciativa da Carta-Branca Aos Realizadores?

M.G Acho uma iniciativa muito bonita porque devolve aos realizadores um olhar sobre os trabalhos dos seus pares e deste grupo de pessoas que, de alguma forma, foram, ao longo dos últimos 20 anos, fazendo curtas-metragens contando com um trabalho de grande seriedade.

G. – O cinema português é valorizado em Portugal?

M.G Eu não sei o que é o cinema português. Há muita gente a fazer cinema em Portugal e à sua maneira particular. Não sei se podemos dizer que é cinema português só porque vivemos aqui ou nascemos aqui ou apontamos as câmaras aqui. É fascinante a liberdade com que se pode filmar em Portugal. Há de certeza um gesto de liberdade.

G. – Quais são as maiores dificuldades de se fazer cinema?

M.G É incontornável falar na falta de fundos. Mesmo quando conseguimos ter um fundo, é extramente difícil. Por um lado, podemos dizer que filmar é um ato de amor, mas por outro lado há uma enorme pobreza e precariedade neste trabalho, que por vezes tem situações de profunda injustiça. Os filmes não custam o que parecem custar. No cinema, há sempre um sacrifício inumano enorme por trás… E não estou a falar de mim, mas sim da equipa. O cinema é sempre feito com sacrifício e amor, mas aceitando e escondendo muitas vezes as verdadeiras situações em que o fazemos.

G. – Em termos culturais, fala-se sempre na centralização da oferta. Considera que o cinema também é centralizado?

M.G Há, de facto, uma enorme falha nessa partilha. Não quer dizer que não haja pessoas que não querem ver… Mas eu ainda não tenho um discurso sobre isso porque eu própria ainda não sei como me adaptar a isso. Ainda existe tradicionalmente uma falha na rede de distribuição: há sítios onde filmo onde só se pode ir ver um filme uma vez por mês e tem de se ir à cidade mais próxima.

G. – Tem inspirações para produzir?

M.G Como disse, venho de um percurso longínquo em relação às artes e cinema. Tenho uma curiosidade enorme sobre o mundo, daí as ciências. As minhas referências nunca foram cinematográficas, mas de uma imensidade que me pertencia. Claro que tenho artistas que sigo desde que me tornei adulta, mas não é daí que vem a maravilha em relação ao mundo.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Alexander Gerner

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