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auéééu: um grupo divido em dois teatros. Quem tem medo da verdade?

Um grupo alegadamente separado por divergências artísticas, dois teatros e uma peça com o mesmo…

Texto de Ricardo Gonçalves

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Um grupo alegadamente separado por divergências artísticas, dois teatros e uma peça com o mesmo nome em cada um dos palcos, creditada à mesma companhia. É uma teia complexa aquela que envolve a mais recente criação dos auéééu, companhia de teatro fundada em 2014 por um conjunto de finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema e que se terá separado -como provam, aliás, os vários anúncios que foram fazendo nas redes sociais, ao longo dos últimos meses.

Face a estes acontecimentos, a companhia, desfeita em grupos, irá apresentar um espetáculo com o mesmo nome, F, tanto no Teatro Nacional D. Maria II como no Teatro São Luiz, de 28 de outubro a 8 de novembro. Esta é pelo menos a única certeza que envolve a peça, que para além de acontecer em dois teatros de Lisboa, se passa nos mesmos dias e às mesmas horas. Já o público que melhor queira entender o que realmente sucedeu com a companhia, poderá fazê-lo de forma plena ao visitar cada um dos teatros em dias diferentes.

Trazendo para cima de palco uma reflexão latente sobre conceitos tão vastos como seja o de verdade, autoria, autenticidade ou fraude, F inicia-se – pelo menos no D. Maria II, onde assistimos ao ensaio –, com uma comissão de inquérito, onde são ouvidos os elementos da companhia, que, acusando a outra parte do grupo de “fraude de programação”, elencam as razões que conduziram à cisão e à discórdia. Em causa está, no entanto, a identidade do grupo, e isso é ponto assente para que ninguém se perca nos factos já conhecidos. “É um espetáculo sobre embuste e fraude mas o que aqui se vai ouvir é a verdade”, realça um dos atores, que em palco mantêm os seus verdadeiros nomes.

Alegadamente, e antes da separação, os auéééu tinham previsto o projeto de conceber um espetáculo com a peça Leão Marinho, também ela um alegado inédito da autoria de Samuel Beckett, que pressupõe a realização de um mesmo espectáculo em dois teatros diferentes a decorrer ao mesmo tempo. É nessa altura que se lança a confusão e onde a clareza dos factos começa a sofrer embalos, até mesmo quando nos mostram em vídeo, o diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, a falar de bom tom desse projeto “muito interessante”, interrompido pela cisão da companhia.

Mais perguntas pairam no ar. Resta saber quem são agora os verdadeiros auéééu, e que circunstâncias permanecem reais na criação artística deste grupo. Qual foi afinal o motivo da discórdia? Não obstante, é necessário que não se esqueça que tudo aquilo que no D. Maria II ou no São Luiz aconteça estará sempre condicionado pela quantidade de informação que cada espectador tenha sobre a companhia e a sua atual situação. Em todo o caso, garantem, os espectáculos não são iguais, nem compostos pelas mesmas personagens.

Num tempo da chamada pós-verdade, onde as redes sociais adquirem muitas das vezes o cunho de local de informação fidedigno, está na capacidade de se criarem filtros que reside a melhor forma de nos relacionarmos com a quantidade de falsidades que abundam no universo digital. É também por isso que nem sempre o plano da realidade é realmente moldado apenas pela verdade, tal como pode acontecer no teatro, onde nem sempre a ficção domina de forma plena um dado plano ficcional.

Em F, embora motivados por um acontecimento para o qual ainda se terá que encontrar solução, os auéééu fazem-nos questionar sobre estes desafios, de vivermos num mundo onde a verdade de cada um se impõe à real factualidade dos acontecimentos. E, separados de vez ou não, devemos agradecer-lhes por isso.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Filipe Ferreira

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