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OS SENTIDOS DA MÚSICA #7

Alexandre Monteiro – The Weatherman Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da…

Texto de Margarida Marques

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Alexandre Monteiro - The Weatherman

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

No momento da criação podemos passar sem ele, mas pode ajudar, por exemplo, quando tivermos necessidade de avaliar o que estamos a fazer.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Ao contrário de muitas pessoas, a minha relação com a música não é muito física. A maior parte das reacções passa-se interiormente. Talvez, por isso, eu não subestime as pessoas se estiverem estáticas num concerto meu. Sei que se forem como eu, as reacções passam-se todas interiormente e ,raramente, são exteriorizadas. Por isso, por muito que goste de certas músicas, receio que nem essas me façam o meu corpo mexer.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Foram muito raras as ocasiões em que fiquei completamente arrebatado ao ouvir, pela primeira, uma música, no sentido em que parece que o tempo pára e os nosso sentidos ficam completamente ao rubro, incluindo arrepios. Lembro-me de ter ficado assim a primeira vez que ouvi Elliott Smith. A última vez terá sido quando apanhei na rádio uma canção do Tobias Jesso Jr. Outros exemplos de canções que me pararam e continuam a parar: “ Here There And Everywhere” dos Beatles, ou “Waterloo Sunset”, dos Kinks.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sem dúvida. O poder da música é bem mais importante do que as pessoas às vezes podem pensar. Consegue induzir coisas na nossa consciência de uma forma mais eficaz do que, por exemplo, o marketing visual. O problema é que estamos, constantemente, a ser bombardeados com lixo visual a toda a hora e isso dificulta, por vezes, esse processo.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sim, eu costumo definir o momento de criação como um orgasmo mental. É muito difícil definir esse momento, mas sem dúvida que, normalmente, engloba uma mistura de sentimentos, imagens e ambientes. Funciona bem conseguirmos ter a habilidade de nos projectarmos noutros contextos, também. E eu consigo isso facilmente, já que o venho exercitando ao longo da minha vida sempre que componho.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Julgo que teria cores predominantemente claras : amarelos, laranjas, azuis, cores luminosas. É frequente definirem a minha música como “solarenga”. Não é que, por vezes, também não faça música mais melancólica, mas sou, claramente, um espírito luminoso.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Jamais agridoce. Imagino como algo salgado ou doce. Amarga seria a música que não me agrada. A música que me eleva o espírito terá que ser associada a sabores fortes e prazerosos.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Ficou-me na memória o cheiro do sítio onde, quando era muito pequeno, dei os meus primeiros passos. Os incentivos e aplausos que recebi nesse momento por parte da minha família devem ter-me trazido um prazer e alegria indescritíveis. Foi numa pousada no Gerês. Associo o “Walking On Sunshine”, evidentemente!

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sem dúvida. Algumas canções, para mim, são uma autêntica viagem no tempo. No entanto, penso que para continuarem a ter esse efeito, têm que ser escutadas na dose certa. Se as ouvirmos demasiado e em contextos diferentes, a magia pode-se estragar. Por isso, defendo que ,por vezes, não é bom se uma música passar demasiadas vezes na rádio.

Como artista, como é, para ti, deslindar sentimentos e emoções através de notas musicais?

É mágico. É a forma de comunicar mais interessante, mais evoluída e mais universal. É uma comunicação simultânea dirigida aos nossos vários sentidos e, nalguns casos, pode fazer vibrar não só a nossa consciência como a nossa alma. A comunicação verbal só se poderá equiparar se englobar gestos de amor. Enfim, é algo que sem dúvida torna a nossa existência aqui na Terra muito mais enriquecida.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Morsa

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