fbpx

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Tiago Sigorelho

A era da coabitação forçada

Nas Gargantas Soltas de hoje, o Tiago Sigorelho fala-nos sobre uma característica da era em que vivemos: “A coabitação forçada é a convivência não desejada de pessoas debaixo do mesmo tecto.”

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Cada período na história vai sendo nomeado de acordo com as características mais salientes desse tempo. Sabemos da era do gelo, lemos sobre a era do renascimento ouvimos falar da era do ouro ou ficámos receosos com a mais recente era nuclear.

Há medida que o mundo vai evoluindo, apesar dos seus altos e baixos, torna-se cada vez mais complicado ser sintético na designação de cada período histórico. Na era actual, por exemplo, existem demasiadas dimensões disruptivas e por si só merecedoras de um processo de marca. Estamos na era da internet, na era da inteligência artificial, na era da sustentabilidade, na era da educação disseminada, na era das democracias. Não faltariam eras para citar.

As eras de agora não se deixam ser uninominais, querem-se múltiplas, capazes de destacar honestamente a realidade aos olhos de quem pensa a história. No meio dessa diversidade de hipóteses, surge um tema que ainda não foi suficientemente elaborado, na minha modesta opinião: a coabitação forçada.

A coabitação forçada é a convivência não desejada de pessoas debaixo do mesmo tecto. É partilhar a casa onde se vive com alguém apenas pelas vantagens materiais, essencialmente financeiras, e não pela vontade de o fazer.

É simples pensarmos, logo em primeiro lugar, na quantidade de pessoas que conhecemos que partilham casa com outras para poderem viver em cidades como Lisboa e Porto, mas nesta definição cabem, também, as insustentáveis situações dos imigrantes ou, simplesmente, casais que se desejam separar e não o conseguem ou filhos que querem sair de casa e não têm como. Todos são forçados a, pelo menos, pernoitarem de forma compulsiva.

Este tipo de coabitação sempre existiu no passado, naturalmente, mas numa sociedade contemporânea democrática, que se preocupa com os direitos e o bem-estar da sua população, torna-se ainda mais relevante pela aparente indiferença sobre a sua existência, as suas causas e as suas consequências. Parece que todos nós, desde o poder político, passando pelo mundo empresarial, até à pessoa comum, estamos conformados com este modo de vida e assumimos a naturalidade da sua prevalência.

Obviamente, a primeira grande razão para a possibilidade da coabitação forçada é a insuficiência de condições económicas para ter uma casa de forma independente. Se não existe dinheiro para um futuro diferente, fica-se agarrado a um passado idêntico. E isso acontece, de uma forma flagrante, nos milhares de imigrantes que são sujeitos a dormirem acotovelados, mas, também, num jovem incompreendido pelos seus pais ou numa pessoa violentada pelo companheiro.

A outra razão é a falta de soluções na habitação. Sem uma verdadeira vontade de tornar a habitação num direito para todos, como constitucionalmente seria necessário, nunca iremos encontrar novas respostas para este velho problema.

As implicações da manutenção de um sistema que permita, passivamente, a coabitação forçada são imensas, mas gostava de sublinhar, essencialmente, as consequências mentais. Como conseguiremos construir uma sociedade mais respeitadora, mais justa e consciente dos problemas que deveremos enfrentar, se deixamos que as pessoas sejam sujeitas a desafios emocionais com efeitos que perdurarão para gerações seguintes?

-Sobre Tiago Sigorelho-

Esteve ligado durante 15 anos ao setor das telecomunicações, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca do Grupo PT, com responsabilidades das marcas nacionais e internacionais e da investigação e estudos de mercado. Em 2014 criou o Gerador e tem sido o presidente da direção desde a sua fundação. Tem continuamente criado novas iniciativas relevantes para aproximar as pessoas à cultura, arte, jornalismo e educação, como a Revista Gerador, o Trampolim Gerador, o Barómetro da Cultura, o Festival Descobre o Teu Interior, a Ignição Gerador ou o Festival Cidades Resilientes. Nos últimos 10 anos tem sido convidado regularmente para ensinar num conjunto de escolas e universidades do país e já publicou mais de 50 textos na sua coluna quinzenal no site Gerador, abordando os principais temas relacionados com o progresso da sociedade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

3 Dezembro 2025

Estado daquilo que é violento

26 Novembro 2025

Uma filha aos 56: carta ao futuro

19 Novembro 2025

Desconversar sobre racismo é privilégio branco

5 Novembro 2025

Por trás da Burqa: o Feminacionalismo em ascensão

29 Outubro 2025

Catarina e a beleza de criar desconforto

22 Outubro 2025

O que tem a imigração de tão extraordinário?

15 Outubro 2025

Proximidade e política

7 Outubro 2025

Fronteira

Academia: Programa de pensamento crítico do Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

27 outubro 2025

Inseminação caseira: engravidar fora do sistema

Perante as falhas do serviço público e os preços altos do privado, procuram-se alternativas. Com kits comprados pela Internet, a inseminação caseira é feita de forma improvisada e longe de qualquer vigilância médica. Redes sociais facilitam o encontro de dadores e tentantes, gerando um ambiente complexo, onde o risco convive com a boa vontade. Entidades de saúde alertam para o perigo de transmissão de doenças, lesões e até problemas legais de uma prática sem regulação.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0