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Opinião de Teresa Valente | Youth Cluster

A morte dos que amamos

Nas Gargantas Soltas de hoje,Teresa Valente reflete sobre o processo de luto, especialmente quando não vivemos no mesmo país que a nossa família.

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Quando me perguntavam qual era o meu maior medo, a minha resposta era sempre: a morte. Enquanto sociedade ainda não lidamos bem com este tema, ainda tabu. Porém, o meu medo não era a minha morte, mas a morte dos meus pais. A vida sem eles era inconcebível. Até que, o inimaginável aconteceu e, no passado mês de abril, perdi o meu pai. 

Ver os nossos avós e pais envelhecer não é fácil, sabemos que um dia irá acontecer o inevitável, mas nunca estamos preparados. Como emigrante, isto custa ainda mais. Não estamos presentes nos momentos em que precisam de nós, nos seus últimos momentos e, quando recebemos a chamada de que um familiar faleceu, não temos a nossa rede de apoio. Em alguns casos pode até ser impossível voltar ao nosso país para o funeral. Quando a minha avó faleceu, eu já vivia fora de Portugal e recebi a chamada quando estava numa estação de comboios sozinha. Nessa altura vivia sozinha em Inglaterra e voltar a Portugal para o funeral não era possível. Foi esta grande perda que mudou a minha perceção. Quando somos jovens, pensamos que temos tempo infinito. Não pensamos muito que tudo é finito, que acaba.  

Desde a morte da minha avó que “estar fora” passou a custar mais. Ficava mais nervosa quando recebia uma chamada dos meus pais num horário atípico. Se eu ligava e não atendiam, ficava logo preocupada. Vivia com medo que, caso acontecesse alguma coisa, não conseguisse chegar a tempo de despedir-me ou mesmo não poder estar presente no funeral.

Com o meu pai, a situação foi diferente. Cheguei a tempo de despedir-me, o que me dá alguma paz. Apesar de ter ajudado no luto, este é um processo duro e longo com muitos sentimentos bastante variáveis. A verdade é que, nos primeiros dias estamos anestesiados. A perda é recente e não nos apercebemos bem do que se está a passar. Temos muitas pessoas à nossa volta a apoiar. Até que os dias começam a passar e a saudade começa a apertar: saudade da sua voz, do seu abraço, de tudo o que vivemos juntos. As chamadas de apoio começam a diminuir e os dias tornam-se mais longos, principalmente para quem é emigrante e não tem uma rede de apoio no seu país de residência.

Continuar a viver sem uma pessoa que amamos, ou melhor, recomeçar, é um desafio. O objetivo é encontrar o equilíbrio entre continuar a viver e fazer o luto. Um equilíbrio nada fácil de alcançar.  

A tristeza que nos abala, não permite viver, pelo menos no início. Tudo o que fazemos agora, fazemos pela primeira vez. A primeira sem a pessoa que era tão importante para nós. Desde entrar em casa pela primeira vez depois do funeral, sabendo que a pessoa não vai regressar até ir a um jantar com amigos. Ao início, tudo o que fazia gerava em mim um sentimento de desrespeito para com o meu pai. Como me atrevia a continuar a vida e a ter momentos de diversão sem ele? Quando via outras pessoas a continuar a sua rotina do dia-a-dia, pensava o mesmo. Como se atrevem? Não sabem que o meu pai morreu?

Este sentimento de desrespeito está relacionado com a culpa. Para mim este é o maior sentimento durante o luto e o mais difícil de combater. Não só culpa de uma situação, mas de várias. A culpa de não ter estado mais presente. Por não ter partilhado com ele os seus últimos dias. Por viver longe desde muito jovem. Por não ter atendido mais o telemóvel quando me ligava. Por todas as discussões. Por não ter evitado a sua morte. Por não ter feito mais.  

Outro aspecto difícil de lidar são os sonhos que já não se realizarão. Ou melhor, que se realizarão, mas sem ele. Apesar de não estar nos meus planos a curto prazo, se me casasse, queria que fosse o meu pai a levar-me ao altar. Que conhecesse os seus netos e que os visse crescer. Que me visitasse no país onde vivo para ver como me estou a tornar adulta. Agora que finalmente alcancei o objetivo profissional que sempre desejei, só penso em ligar para lhe contar e sei como estaria orgulhoso. Porém ele não está mais presente,  como não estará em todos os próximos passos da minha vida e todos os sonhos a concretizar.

A dor gera bastantes efeitos físicos no corpo: a fadiga, as dores de cabeça e até a menstruação fica desregulada. Mas, também efeitos psicológicos: a ansiedade, o medo de voltar a perder um ente querido, o medo que o nosso ente querido falecido seja esquecido, tristeza,  dificuldade em dormir. 

Gosto de pensar que a dor que sentimos após a morte de um ente querido é todo o amor que não exprimimos. E, apesar de ter dito inúmeras vezes o quanto gostava dele em vida, o amor é infinito, por isso haverá sempre dor. O processo de luto difere de pessoa para pessoa, mas dizem que demora cerca de um ano. Eu acredito que o processo nunca acaba, pois a saudade será eterna e a pessoa fará sempre falta.

No outro dia ouvi “Os pais ficam nos filhos. É como se os pais não morressem” (Filme “Mal Viver” de João Canijo) e, não podia estar mais de acordo, pois, a sua teimosia e seu mau feitio continuam cá. As características que herdei dele. 

-Sobre a Teresa Valente-

Descreve-se como cidadã do mundo apesar de ter Abrantes sempre no coração. Licenciou-se em psicologia, com a certeza que seria psicóloga clínica, mas a vida trocou-lhe as voltas! Acabou a fazer um mestrado em Conflito, Governação e Desenvolvimento Internacional na Universidade de East Anglia.
Devido à sua forte presença na esfera associativa já teve a oportunidade de beneficiar de múltiplas programas internacionais. Co-fundou a Associação Youth Cluster em 2020 com o objetivo de promover oportunidades inclusivas e acessíveis a todas as pessoas jovens. Através do seu trabalho na Youth Cluster e, em cooperação com outras organizações, tem reivindicado por igualdade de oportunidades e melhores políticas para a juventude.

Texto de Teresa Valente
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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