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Bem-vindos ao Crazy Love! Quanto tempo temos de perder para conhecer alguém?

Não Me Faças Perder Tempo não promete uma resposta, mas apresenta-nos uma reflexão sobre a urgência de amar na era digital. Inspirado no universo de reality tv, este espetáculo, em cena no Teatro Aberto, em Lisboa, parte do conceito de speed-dating para criar uma teia de encontros entre desconhecidos que procuram o amor. Mas será que é por este meio que alguém o vai encontrar?

A peça, da autoria de Luís António Coelho, e distinguida com o Grande Prémio de Teatro Português 2020, apresenta o speed-dating como uma alternativa analógica, uma fuga para a felicidade de todos os solteiros, misfits, ímpares, singulares, carentes, solitários e atarefados que trocam as aplicações de engate pelo ambiente breve e artificial de encontros ao vivo, na expectativa de um perfect match.

“O texto à partida está virgem de alguma forma”, afirma Rui Neto, encenador convidado por João Lourenço, diretor artístico do Teatro Aberto. “Há textos em que é mais difícil conseguirmos uma abstração para outra coisa, ou tentarmos corresponder àquilo que é a ideia do autor”, refere o também dramaturgo do espetáculo. A proposta do autor, explica, era assente nas dinâmicas de conversa das personagens. E isso permitiu-lhe “brincar” com o texto e criar um conceito criativo que fosse para além da peça, que se estreia em cena até ao dia 24 de julho.

O ator João Tempera nota que esse é um dos privilégios de se trabalhar autores contemporâneos vivos. “Dá-nos a oportunidade de olhar para a obra, de uma forma absolutamente fresca e inédita. Sem nenhuma ideia prefeita, ou nenhuma referência.”

Quase como o cenário de um jogo, Crazy Love é uma experiência de speed-dating que se passa em vários quartos e salas, numa dinâmica e espaço bem diferente daqueles a que, normalmente, associamos este tipo de encontros. “Estas salas têm uma cenografia que apontam para locais que eu associo ao amor, ou ao flirt”, conta o Rui Neto. Um jardim, um carrossel com cavalinhos, um carro, ou um quarto onde “as personagens quase não conseguem estar muito de pé” são alguns desses espaços, onde durante escassos minutos oito estranhos tentam conhecer-se e encontrar o amor. Mas não são mero cenário. O objetivo foi também “criar uma espécie de premissa e de condicionante” para os atores e para as personagens.  

“É um tipo de universo um bocadinho distópico”, revela o encenador, partilhando a inspiração não só em reality shows televisivos, como "Love Is Blind" e "The Circle”, como no universo imagético da série "Squid Game".

Afinal, quem não desejaria apaixonar-se à primeira vista ou encontrar um amor para a vida toda? “It’s Crazy. It’s Love. It’s Crazy Love”, ouvimos cada vez que terminam os quatro minutos que quatro mulheres e quatro homens têm para conversar com cada uma das pessoas do sexo oposto. Em palco, Beatriz Godinho, Daniel Viana, Katrin Kaasa, João Tempera, Leonor Seixas, Luís Gaspar, Rita Cruz e Telmo Ramalho dão corpo a estes desconhecidos.

Urgência de amar na era digital

“É muito interessante refletir sobre aquilo que tem sido a temática do Teatro Aberto sobre a questão dos relacionamentos, dos encontros, sobre como é que se encontra o amor no tempo atual, e pensando que o nosso tempo é um futuro-presente, de alguma forma”, diz Rui Neto, para quem, as interpretações, sobre se é através de um speed-dating que alguém vai encontrar o amor, terão que ver com a forma como cada pessoa vai encarar o espetáculo. “Podemos encontrar o amor onde quer que seja. O amor ou o calor humano.”

Em Não Me Faças Perder Tempo, que estreou na última sexta-feira, apercebemo-nos de que a urgência emocional é diretamente proporcional à escassez de tempo. O speed-dating surge como uma alternativa analógica no mundo digital. Mas a limitação de tempo implica que cada frase seja importante e tenha o poder de despertar o interesse e a cumplicidade no outro.

João Tempera põe a tónica do espetáculo na velocidade a que, nos dias de hoje, procuramos e temos acesso ao que nos rodeia, “num mundo de consumo imediato e da satisfação dos nossos desejos e das nossas pulsões ao alcance do passar de um cartão por um chip, de um clique de like”. O ator acredita que essa é uma crítica subjacente no próprio texto de Luís António Coelho. “Já não é só dos novos ténis e da nova app [que andamos à procura], é também das nossas necessidades mais elementares enquanto seres humanos. O amor, o entendimento e a procura do outro, através quase de concursos, shows, apps interativas.”

Num mundo onde prolifera a peste, a guerra e a solidão, o amor é cada vez mais um lugar utópico. Beatriz Godinho revela que as personagens “vêm com ideias preconcebidas”. Na sua opinião, se, à partida, estes desconhecidos podem parecer disponíveis para encontrar o amor, não o estão verdadeiramente. “Parece-me que estas pessoas vêm todas para aqui à procura de uma ideia de amor e não à procura de conhecer pessoas. E como não estão disponíveis para conhecer pessoas afastam-se dessa ideia de amor.”

O texto chama-se Não Me Faças Perder Tempo, mas, para a atriz, o autor convida-nos a querer perder mais tempo. “Neste sentido de ganharmos mais tempo a conhecermo-nos uns aos outros, porque não é possível conhecer uma pessoa em quatro minutos”, acredita. “Mas é possível começar a conhecer alguém em quatro minutos e querer chegar ao final de um destes encontros com uma ideia fixa, ou com uma perspetiva mais clara sobre o que é que pode ser este ou aquele encontro.”

Já Rita Cruz olha para o lado “mais jocoso” de Luís António Coelho. “[O autor] dá-nos vários quadros, de várias possibilidades. Mas acho que, no fundo, ainda precisamos do contacto social, do tempo, da conquista, da intimidade. Acho que a conclusão é essa. É o engraçado disto”, avalia. “Afinal, andamos aqui todos afoitos à procura do amor e depois ninguém fica com ninguém.”

Estrear um texto “virgem”

Com cenário e figurinos de Marisa Fernandes, vídeos de Jorge Albuquerque e sonoplastia de Cristóvão Campos, Não Me Faças Perder Tempo está, pela primeira vez, em cena no Teatro Aberto. “Isso dá-nos uma imensa liberdade, e essa liberdade é muito interessante de se explorar, quando há um conjunto de atores jovens e divertidos como este elenco, e com um encenador disposto a respeitar o texto o mais possível, mas, ao mesmo tempo, encontrar nele oportunidade para acrescentar novas camadas”, nota o ator João Tempera.

“É muito prazeroso sermos nós a fazer este desenho de personagem, cada um, com este texto novo”, acrescenta Rita Cruz. “E o Rui teve uma grande sensibilidade, quando nós fizemos o trabalho de dramaturgia e de mesa, de fazer uma adaptação também a cada ator, sempre respeitando o texto.”

Para a atriz, a rapidez com que as cenas são feitas – “porque o speed-dating é uma coisa muito concisa, muito célere” – foi um desafio. “Como é que, em tão pouco tempo, temos de ter o desenho da personagem, e que isso consiga passar nos vários quadros.”

As cenas são sempre de duas personagens e duram os quatro minutos de cada encontro. Foi preciso “perceber como é que cada personagem se pode manter fiel à sua personalidade, mas, ao mesmo tempo, também se deixa influenciar pela pessoa que tem à frente”, expõe Beatriz Godinho, sobre o intenso jogo de ator, de um para um, presente nesta peça. “Como todos nós somos. Temos diversas personas dentro de nós”, nota. “Tentámos jogar uma espécie de puzzle para perceber como é que isso poderia funcionar nesta lógica repetitiva, mas que fosse possível, sempre, acrescentar mais uma camada, quer a cada personagem, quer a cada relação, e mesmo no que toca ao espaço.”

Em cena até ao dia 24 de julho, o espetáculo conta com sessões às quartas e quintas, às 19h; sextas e sábados, às 21h30; e aos domingos, às 16h.

Texto por Flávia Brito
Fotografias de © Filipe Figueiredo

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