O reavivar do conservadorismo e da ideia de supremacia masculina. A predominância de homens em lugares de poder e de decisão, nomeadamente cultural. A diluição do mérito individual das mulheres numa ideia de colectivo, que reforça a subalternização. A ideia romantizada de maternidade que ainda vigora, num mundo onde as tradewives pululam nas redes sociais, de mãos dadas com a extrema-direita que apregoa ideais tradicionalistas sem nunca os cumprir.
Rapper, artista, autora, letrista, ativista e socióloga de formação, Capicua rejeita dissociar o seu trabalho e vida das convicções políticas. No Festival Uncover, organizado pelo Gerador em Guimarães entre 12 e 15 de março, Ana Matos Fernandes - o nome que está escrito nos seus documentos de identificação civil - apresentou a Masterclass “Feminismos e Resistências Hoje”, onde discorreu sobre dados e referências que relevam a desigualdade de género estrutural do nosso país.
À margem da sessão, a artista falou com o Gerador sobre a presença da mulher na cultura, na participação cívica e no espaço público mas também na esfera privada, que diz influenciar tudo o resto.
Na tua apresentação fizeste referência ao facto de teres crescido num “boys club”, no contexto hip-hop dos anos 90. Falaste também de um novo conservadorismo que está a renascer pela mão dos jovens. Na tua opinião, as duas coisas são similares ou agora vivemos algo diferente?
Acho que é diferente. Antes, nesses contextos mais masculinos, sentia-se um estranhamento com a presença desses seres exóticos que são as mulheres, num contexto onde eles não estavam habituados a lidar e a partilhar espaço com mulheres como pares, de igual para igual.
E acho que este novo conservadorismo é uma doutrinação intencional. Há um discurso ideológico que dissemina a misoginia e legitima a violência contra as mulheres de forma propositada, articulada. É uma cartilha que está a ser transmitida aos jovens rapazes. Isso é muito diferente, muito mais violento e muito mais poderoso.
Antes havia uma tentativa de desconstrução, e agora é o inverso. É isso?
Às vezes havia uma falta de consideração, um estranhamento, uma desconfiança ou atitudes mais hostis, por não quererem competir ou comparar-se com mulheres, não querer assumir uma mulher como igual, mas era uma coisa muito mais subliminar. Não era declarada e muito menos era algo que tivesse uma estrutura de pensamento consciente que fosse disseminada como uma doutrina, como uma cartilha.
Aquilo que hoje acontece é, de facto, não só um recrudescimento mas um exacerbar desses conservadorismos. Na internet, essa lógica de aproveitamento dessas bolsas de insegurança e solidão de muitos jovens, que são criados pelo YouTube e pela pornografia online mas vivem muito isolados, é aproveitada para essa doutrinação. E essa doutrinação não só lhes diz que as mulheres são seres nefastos, inferiores, que merecem ser subjugados, como legitima a violência real que é exercida sobre elas. Isso já tem um impacto estatístico no aumento de casos de violência contra mulheres, sobretudo mais jovens, quer sexual e física. Isso devia preocupar-nos muito. É quase se fosse o velho machismo na era da internet, numa versão atualizada.
É uma tentativa deliberada de formatar mentes jovens para…
…legitimarem o discurso de ódio e as suas consequências reais na violência contra as mulheres.
No contexto do hip‑hop, onde te movimentas mais, isso ainda existe ou sentes que vozes como a tua abriram um bocadinho a perspetiva?
Sinto que hoje há menos estranhamento com a presença de mulheres no rap, porque internacionalmente isso já se tornou mais normal mas, nos contextos de convívio, continua a ser um boys club. Continua a haver o mesmo exotismo na presença de mulheres, o mesmo estranhamento e continua a haver muito essa lógica homoafetiva, de viverem uns com os outros, uns para os outros.
Quando te referes a isso não é, então, propriamente nos palcos, mas mais fora deles?
Nos palcos também. Nos palcos, nas plateias, nos estúdios, nos estilos de vida. São meios maioritariamente masculinos.
Apesar de, mediaticamente, já ser mais normal haver mais mulheres conhecidas — sobretudo nos EUA e noutros países grandes em que já há um número de mulheres mais considerável — no dia-a-dia continua a ser um boys club. As velhas lógicas de estranhamento e desconfiança em relação às mulheres mantêm-se. Até porque, como eu dizia, há uma espécie de homoafetividade. Eles admiram-se entre si, competem entre si, consideram-se entre si, reconhecem-se entre si e têm muita dificuldade em comparar-se e integrar mulheres como iguais dentro dessa lógica do boys club.
Mas ainda sentes isso pessoalmente?
Eu agora estou numa situação em que sou mais velha e não estou todos os dias a conviver nesse ambiente, mas acho que isso, de certa forma… se não está igual, até piorou um bocadinho. Sinto a nova geração de rappers também menos preocupados em ter músicas de teor social, como na minha geração. Há uma tendência, uma moda de um rap mais materialista, mais desinteressante do ponto de vista político e social, menos preocupado com essas questões.
E até com uma lógica de objetificação, muitas vezes.
Isso mantém-se. O que eu acho é que havia um bocadinho mais… A moda do chamado conscious rap, do rap consciente, esmoreceu. Hoje em dia também acho que há muito mais tendência para um rap mais materialista, mais competitivo, mais hedonista. Esse estilo de rap ainda se presta menos a reconhecer as causas sociais como, por exemplo, a de género, não é? Não que os outros fossem menos machistas… Acho que era igual, mas pelo menos disfarçavam melhor [risos].
Tu falas muito frequentemente da ditadura do algoritmo e do facto disso também influenciar a divulgação do trabalho dos artistas. Estas coisas estão ligadas, na tua opinião? Tudo isto está ligado ao que o algoritmo potencia?
Acho que sim porque, se fores ver estatisticamente, os 10 artistas mais ouvidos nas plataformas digitais em Portugal são todos homens e são todos da música urbana/pop/rap. Portanto, se isso não fosse uma trend forte, aquele tipo de rap, aquele tipo de conteúdo, não seria tão bem-sucedido numericamente. E já sabemos que a lógica do algoritmo é precisamente a de potenciar aquilo que está a ser bem-sucedido numericamente.
Essa lógica do algoritmo também tem um impacto, desdobra-se noutras dimensões, como por exemplo, na programação. Uma parte dos programadores em Portugal, de festivais, auditórios municipais, de festas académicas, festas de verão, são homens e eles regem-se muito por aquilo que tem sucesso numérico.
Portanto, não só não têm uma preocupação com a diversidade, com a inclusão, com a paridade nos seus cartazes, como também vão atrás daquilo que tem mais sucesso. Eles vão à procura daquele [artista] que tem sucesso numérico, então a lógica do algoritmo também rege as programações. E isso faz com que aqueles homens, bem-sucedidos numericamente, tenham mais oportunidades de trabalho, ganhem mais dinheiro, portanto possam investir mais na sua arte, e assim sucessivamente. Cria-se uma bola de neve de desigualdade.
Se fôssemos analisar os cachês, eu também tenho a certeza que havia um gap muito grande, mas acho que isso tudo vem da mesma origem, não é? De facto, enquanto não tivermos mais mulheres em lugares de decisão e de programação, enquanto não tivermos também o público mais exigente a esse nível, que exige aos promotores que haja paridade e que haja mais diversidade, não só de género, mas todas as diversidades nos cartazes, enquanto, também, não tivermos público que apoie mais a música ou outra arte qualquer feita por mulheres - porque sabemos que os homens não consomem música feita por mulheres, na sua maioria, se as mulheres também não compensarem isso de forma massiva -, obviamente que o viés está sempre a ser acentuado. Eu acho que isso é uma realidade. Basta ver estatisticamente.
Eu, no ano passado, até fiz esse levantamento: nas semanas académicas em Portugal - ou seja, num contexto em que é uma festa universitária e em que a maior parte das pessoas inscritas na universidade são mulheres -, os cartazes eram tipo noventa por cento, se não cem, em algumas cidades, preenchidos por homens. Isto parece não incomodar aquela comunidade, que vai comprar os bilhetes e encher as queimas das fitas e as semanas académicas.
Enquanto não houver mais sensibilização para isso, enquanto os programadores não tiverem também esse olhar e se calhar essa regulação - até porque muitas vezes essas programações são feitas com dinheiros públicos, nomeadamente as municipais -, é tudo uma bola de neve, não é? O viés, vai marcando em diferentes dimensões essa desigualdade, obviamente.
Há um certo apagamento das mulheres desse espaço público e cultural. Tu também referiste isto na tua apresentação, até com a analogia das estátuas: disseste que eram cinco as estátuas de mulheres no Porto. Portanto, há sempre um apagamento do espaço público, mesmo das figuras históricas.
Sim, sobretudo porque a maior parte dessas mulheres, dessas cinco estátuas que eu mencionei, foram mulheres que tiveram um percurso académico, artístico, público, numa altura em que só as mulheres privilegiadas tinham essa oportunidade.
Acho que com o tempo, se essa invisibilização continuar, ainda vai ser mais gritante, porque de facto, hoje em dia temos muito mais mulheres no espaço público do que naquelas gerações das cinco mulheres mencionadas.
Mas não temos mais estátuas.
Para já não temos mais estátuas. No Porto pelo menos não temos. Eu não estou a contar nas outras cidades porque isso é um trabalho exaustivo. Agora, claro, eu acho que muito temos feito, sobretudo ao longo dos últimos cinquenta anos de democracia, para que as mulheres tenham mais presença no espaço público. E nós, de facto, hoje em dia, nomeadamente nas universidades, estamos em peso, nas artes temos muito mais presença apesar das desigualdades, na ciência, na política infelizmente continuamos a ser minoria, assim como no desporto mas, apesar de tudo, começa a ser mais visível o mérito de muitas mulheres. E eu acredito que isso vá acontecendo, cada vez mais, que no futuro ainda seja mais gritante, caso não haja esse reconhecimento histórico.
De facto, nós, em Portugal, tratamos muito mal a memória das mulheres que foram muito importantes. Eu mencionei as três Marias na minha apresentação, mas podia, por exemplo, falar da Maria Lamas, da Natália Correia, de muitas mulheres importantes, até na luta contra a ditadura, que não têm a visibilidade e a reverência que muitos homens têm. [...]
No fundo, é quase como se o mérito, quando se trata das mulheres, fosse uma coisa secundária. Apesar de vivermos num contexto onde se celebra tanto essa ideia populista da “meritocracia”, esse mérito artificial, quando se trata das mulheres, isso já não é assinalado.
Eu também acho que isso tem a ver com a questão de, nos grupos que estão de certa forma em desvantagem do ponto de vista social e da valorização cultural, há uma espécie de desumanização, ao dissolver o indivíduo no grupo. Da mesma forma em que, quando uma mulher, ou uma pessoa negra comete um erro está quase que a representar toda uma comunidade e é acusada - "Ai, porque as mulheres são todas assim ou as pessoas negras são todas assado" -, há uma coletivização daquele daquele erro. Esse mérito também é diluído, no sentido em que culturalmente, na nossa civilização, o homem branco é que tem direito à individualidade, à identidade própria. Os outros grupos são meio que diluídos no coletivo. Historicamente, temos uma esmagadora maioria de homens que são celebrados pelo seu mérito individual, mas parece que as conquistas das mulheres são sempre coletivas. De certa forma, eu acho que é bom que sejam, porque acredito nas lutas coletivas e na sua importância, mas também acho que isso vem da desumanização, desse lugar de subalternização.
Tu referiste [na masterclass] também a questão da maternidade, algo muito pessoal nesta altura, mas que já era antes, em particular desde o teu primeiro filho. Para ti também é quase um ato político, ainda que seja muito privado?
Eu acho que é impossível dissociar a maternidade da situação coletiva das mulheres e isso foi uma das coisas que eu aprendi com a experiência da maternidade. Eu achava que era uma mulher muito desconstruída e depois mostrou-me que, de facto, a experiência da maternidade é o reduto onde o feminismo ainda não chegou e em que a ideia da culpa materna, a simetria total entre o que é esperado de dedicação, devoção e abnegação das mães é muito diferente do que é esperado dos pais. [Mostrou-me] que a nossa própria formatação e programação cultural para desempenhar aquele papel, nos traz muitas armadilhas, porque temos muitas exigências também conosco próprias. [Mostrou-me que] dependemos muito da rede de apoio umas das outras, da experiência umas das outras ficamos num lugar de solidão profunda quando não temos essa rede e esse contacto com outras mulheres.
E depois porque há um entendimento geracional e ancestral, de todas as mulheres que passaram por aquilo em situações muito mais difíceis e muito mais solitárias do que nós. Isso traz uma consciência coletiva histórica e política muito forte, sobretudo num país em que não há políticas para apoiar a parentalidade, em que, de facto, ter filhos é muito desaconselhado num contexto como o nosso, com os preços da habitação como estão, as creches caríssimas, com muitas horas de trabalho por dia, sem redes de apoio públicas, com o SNS também - nomeadamente nas urgências obstétricas e nos cuidados obstétricos -, muito debilitado, etc.
Todos esses temas vêm ao de cima na experiência, que parece muito íntima, mas que é profundamente coletiva.
É comum.
Sim. Isso conecta-nos com toda uma cadeia de mulheres que vieram antes de nós e que estão ao nosso lado, à nossa volta e percebemos, de facto, que a experiência da maternidade nos situa nessa noção histórica e política coletiva, de que temos muitos desafios ainda pela frente para viver em igualdade.
Porque, de algum modo, esses dogmas da maternidade ainda são pouco questionados?
Acho que estamos há cinco minutos a falar sobre essa desconstrução, dessa desromantização da maternidade como uma coisa perfeita, intuitiva, instintiva. Há muita exploração, muito trabalho invisível, muito trabalho gratuito, muito trabalho duro, escondido no mito do instinto materno, na armadilha do multitasking, nas costas do amor incondicional. E não é que a gente não o sinta, mas apesar de tudo, as costas do amor incondicional não podem ser assim tão largas para que nos abandonem muitas vezes em situações de desamparo e de solidão. Eu estou a falar não só nas nossas relações conjugais, mas também por parte do Estado e dos patrões. E, de facto, se não nos deparamos com essa situação por diante, percebemos, de facto, que estamos muito longe de perceber as entranhas da exploração feminina ao longo das gerações.
Acho que muitas vezes o feminismo, historicamente, evitou o tema da maternidade porque queria dissociar a ideia de mulher à ideia de mãe. Eu percebo o porquê: estávamos numa época de conquista de espaço público e da cidadania por parte das mulheres e de nos desligarmos do espaço doméstico e dessa missão da maternidade. Mas hoje faz muito sentido falar sobre maternidade no contexto das lutas feministas, não só pelas coisas do corpo - desde logo a violência obstétrica e também a questão do aborto -, muitas questões que têm a ver com a maternidade e com o nosso corpo, mas também direitos de trabalho, da proteção social, daquilo que o Estado tem que garantir como apoio à parentalidade, as creches públicas, a divisão do trabalho doméstico igualitária, porque é isso que nos faz competir de forma desigual no mercado de trabalho.
Pá… há uma quantidade de políticas públicas e laborais que impactam a nossa experiência da maternidade. A nossa ideia de solidariedade feminina, de sororidade, fica totalmente reforçada quando percebemos o que é que passaram as nossas mães, as nossas avós, as nossas bisavós. Portanto, há toda uma experiência que nos abre imensas janelas novas para olhar para as questões de género com uns olhos muito mais profundos e críticos.
Mas ainda assim, até por parte das próprias mulheres existe esse preconceito.
Outra coisa importante: a reconstrução da nossa identidade depois de sermos mães. Eu pelo menos falo por mim. Estudei, licenciei-me, doutorei-me em Ciências Sociais. Fiz ativismo político, construí uma carreira no rap, fiz montes de coisas que implicam uma desconstrução daquilo que é expectável de uma mulher na nossa cultura. E queria muito ser mãe. Adiei a maternidade por causa dessas ambições. Quando fui mãe pela primeira vez, percebi que tinha em mim imensas influências desses arquétipos da maternidade clássica. E quem era eu agora? Aquela culpa materna que eu não sabia que tinha, não é? E que parecia que quando saía de casa e deixava a minha criança, estava a fazer uma coisa errada. Todos esses fantasmas nos assombram nessa hora de reconstruirmos a nossa identidade depois do impacto profundo e transformador da maternidade.
Isso faz-nos pensar muito sobre todas essas questões históricas, coletivas, políticas e não só individuais.
Tudo isso vai também ter a uma outra questão falaste: as tradewives, em que se romantiza não só o papel da maternidade, como ter muitas crianças, muitos filhos…
E fazer tudo sozinha.
Preocupa-te o efeito que isso possa ter nas novas gerações de mulheres?
Eu acho sobretudo paradoxal, porque são mulheres que estão a trabalhar e a ganhar dinheiro na internet, que é um espaço público, com carreiras individuais, de forma independente, a ganhar dinheiro e a promover o seu trabalho, tentando influenciar as outras mulheres a abdicar da sua independência e da sua presença no espaço público. Eu acho isso paradoxal.
É como termos mulheres nos partidos de extrema-direita que estão a exercer funções públicas e são eleitas para cargos públicos - coisa que seria impossível sem existir luta feminista -, a pregar exatamente o oposto. Então porque não são elas as primeiras a abdicar dos seus direitos adquiridos pela luta feminista? Porque não são elas as primeiras a querer ficar em casa, a ter filhos e a abdicar das suas profissões em função da maternidade, então que deem o exemplo e façam a sua vida no espaço privado. Paradoxalmente, andam a evangelizar as mulheres, a partir do seu lugar de visibilidade pública e de privilégio que foi conquistado por causa da luta feminista que elas descredibilizam. Acho paradoxal.
Porque é um discurso - lá está -, de privilégio.
Claro, totalmente.
Só uma mulher que já tenha condições financeiras pode ficar em casa a fazer isso.
E a ter tantas crianças, e a pagar a alguém para ser professora das crianças em casa ou até ter escolaridade suficiente para ser ela própria a tutora das suas crianças, ter internet em casa, ter uma rede social e por aí fora. Tem de estar num lugar de privilégio suficientemente grande para exercer esse lugar de poder e de influência sobre outras mulheres. Portanto, eu acho que isso é paradoxal, porque se de facto elas não querem as mulheres em lugares de poder e querem as mulheres remetidas ao espaço privado e à função materna, então elas próprias poderiam dar o exemplo, mas não. Exercem esse papel por aquilo que é que lhes é permitido por anos de luta feminista.