Nesta primeira semana de setembro celebra-se o Dia Mundial do Ar limpo e do Céu Azul. Trata-se de uma comemoração da ONU que pretende destacar a ligação entre a qualidade do ar e a saúde planetária e humana. Esta data enfatiza a importância do ar limpo e a necessidade urgente de esforços para melhorar a qualidade do ar e assim proteger a saúde de todos nós.
É uma celebração antipoluição que todos devemos apoiar e a propósito da qual decidi fazer uma tangente relacionada com os efeitos provavelmente nefandos de certos alimentos ou outros tipos de produtos que consumimos, voluntariamente ou não.
Para alimentar este fogo de vaidades que é um pouco fundamentalista – e está agora na moda – discorro sobre a questão dos supostos malefícios das carnes vermelhas e dos enchidos, a evitar absolutamente de acordo com essas doutrinas mais extremadas.
O consumo de carne vermelha, como vaca ou porco, foi considerado como “provavelmente carcinogénico para humanos” e o consumo de carne processada, como salsichas, todos os fumados, ensacados ou enlatados, como “carcinogénico para humanos”, concluiu em 2016 o relatório da agência internacional da Organização Mundial de Saúde que se dedica ao estudo do cancro (International Agency Research on Cancer, IARC).
Vamos pôr o assunto em perspetiva:
- Segundo os mesmos relatórios oficiais, o consumo das mais variadas carnes vermelhas ou processadas pode ser responsável por cerca de 34 000 mortes por ano, no mundo.
- Mas, mortes causadas anualmente por acidentes de viação são 1,5 milhões, o tabaco é responsável por 1 milhão de mortes, o consumo de álcool explica 600 000 mortes e a poluição do ar e da água fará mais de 200 000 mortes, também anuais.
E a propósito, a gasolina com chumbo matava mais de 150 000 criaturas do género humano por ano quando era legal. Foi "legal" durante mais de 40 anos, até que a lei a proibiu em 1986, devido aos esforços do grande ambientalista e cientista Clair Patterson que denunciou essa cabala contra a saúde pública que foi montada pela GM, Du Pont e Standard Oil com o objetivo de recolher lucros chorudos à conta de uma maior eficácia da combustão na totalidade dos motores da época e, por isso, muito maior rentabilidade.
Mas voltando à vaca fria (mesmo sendo carne vermelha): não estou a ver as cidadãs e os cidadãos a evitar passear ao ar livre, a deixarem o automóvel sempre em casa ou simplesmente a deixarem de “viver” para poderem “viver” mais uns anos.
Apesar do risco medido para próprios e terceiros ser muito maior na partilha dessas "atividades" do que com o consumo das tais carnes vermelhas ou processadas.
Uma coisa é a saúde pública, outra será a saúde privada, de cada um de nós.
Os acidentes rodoviários, a poluição da atmosfera por diversíssimos motivos, são de facto assassinos reconhecidos dos próprios utilizadores e de terceiros, para não dizer de multidões.
Quem come um chouriço de vez em quando, numa feijoada, ameaça os outros?
Só se for pela possível escapatória de gases pela porta dos fundos...
Mesmo assim não morrerão. Podem é ter de fugir dali para fora, algo incomodados.
E quanto aos riscos reais para os próprios consumidores? Parece que o busílis da questão estará na quantidade e na frequência destes consumos.
Um marmanjo que se alimente todos os dias de enchidos, de manhã, à tarde e à noite, tem mais probabilidades de adoecer com maleitas do colon e dos intestinos. Mas também se está a pôr a jeito com essa alarvice.
Quem coma de vez em quando o toucinho no cozido, a farinheira nas favas ou umas fatias de presunto de porco alentejano ao fim da tarde, é tão provável que morra por causa desses consumos como levando em cima da cabeça com um frigorífico ao passar por baixo de um prédio em mudanças.
Atribuíam ao sábio Claude Lévi-Strauss, mestre dos antropólogos da velha Sorbonne, esta frase: "Se um gajo não quer ser objeto de canibalismo ritual, não convém que veraneie em certos locais pouco turísticos da Papua Nova Guiné. Mas se for para aí é mais provável que morra de insolação. Claro que ainda pode ser devorado depois de morto. Para isso é que lá estão os insetos e as minhocas rodeando o caixão...".
Moral da história: morrer, morremos todos. Alguns cheios de saúde, outros não... E outros ainda, acham que estão ainda vivos sem reconhecerem que, de facto, já morreram.
-Sobre Manuel Luar-
Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.