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Opinião de Catarina Maia

Depp, Heard e o machismo nosso de cada dia

Já vinha há algum tempo a acompanhar o polémico litígio entre Johnny Depp e Amber…

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Já vinha há algum tempo a acompanhar o polémico litígio entre Johnny Depp e Amber Heard. Era um assunto que me suscitava curiosidade por se tratar do divórcio tumultuoso de duas figuras icónicas de Hollywood, mas não pensava muito mais do que isso. Houve um dia em que dei de caras com um áudio supostamente gravado por Depp, publicado no Youtube por alguém que o defendia com unhas e dentes. Uma vista de olhos pelos comentários fez-me ter pena do meu querido Jack Sparrow, Eduardo Mãos de Tesoura ou Gilbert Grape e, ao mesmo tempo, detestar Heard (em que filmes é que eu me lembrava de a ter visto?).

Sem que me desse conta, a minha opinião estava cimentada: claramente, Amber Heard era a grande vilã e Depp, coitado, a vítima de uma ex-companheira violenta, sádica, tóxica, e tantos outros adjectivos pouco dignificantes.

Agora que decorre o julgamento de Amber Heard por difamação (a actriz insinuou publicamente que foi vítima de violência doméstica na sua relação com Depp) e que o assunto ganhou nova notoriedade, eu continuava a apoiar Depp. E eis que me apercebi que não só não sabia bem porque é que acreditava na inocência dele, como toda a fonte de informação que me chegou era já por si tendenciosa. Conheci conteúdo tendencioso a favor de Amber Heard, que me permitisse ter uma outra visão das coisas? Não. Isso fez diferença? Claro que sim.

Há sempre várias versões para o mesmo evento e não me cabe a mim – nem a ninguém, na verdade – dizer quem é que agiu bem ou mal, quem mente e quem fala a verdade. Haverá certamente muitas zonas cinzentas. Mas sabemos que é isso que acaba por acontecer. É que é muito fácil manipularem-nos a opinião ao apresentarem-nos os “factos” em vídeos de Youtube, artigos de blogue e threads do Reddit que favorecem apenas uma parte. A opinião pública tem muita força e pode inclusivamente ditar o desfecho de julgamentos com projecção mediática. Foi por isso que me foi demasiado fácil acreditar que a vítima era obviamente Depp.

É verdade que ele teve mais tempo de carreira para ganhar um carinho especial do público, o que justifica, em parte, porque é que tem recebido um maior apoio deste. Também sei que todo este processo está a ser muito danoso para a sua carreira. Mas o que me parece preocupante é que neste caso (mais uma vez, como em tantos outros), quem é mais credível é o homem. Quem é mais defendido em praça pública é o homem. Quem mais questionamos é a mulher: estará a mentir por vingança, por sede de fama, por interesse financeiro, ou por simplesmente ser louca. Mas estará certamente a mentir. Afinal, assim são as mulheres, cheias de truques e manhas.

Provavelmente nunca saberemos ao certo quem é a vítima e quem é o agressor neste caso especificamente, mas reconhecermos que a sua reverberação corresponde a um padrão machista é um bom exercício para nos abrir os olhos para o nosso próprio machismo intrínseco. Nem Depp será assim tão inocente, nem Heard será assim tão vilã.

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia
Fotografia de Pedro Lopes
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